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25/08/2007
Ano 11 - Número 543

ARQUIVO CONTOS BRASILEIROS
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Como nasceu, viveu e morreu
a minha inspiração

Raul Pompéia
Página arrancada ao livro de lembranças de um futuro Esculápio.
Eu ia vê-la naquele dia. O dia dos seus anos! Devia estar esplêndida. Ia
completar o seu décimo sétimo ano de um viver de alegrias. O meu presente era
simples: uma gravatinha de fita azul; mas havia de agradar-lhe. Era o meu
coração quem o dava. Ela o sabia. Sabia também que o coração de um estudante
não é rico. Dá pouco, mesmo quando dá... Ela desculparia.
Que noite ia eu passar! Dançaríamos muitas vezes juntos, a começar da segunda
quadrilha...
Preparei-me. Empomadei-me; escovei-me; perfumei-me; mirei-me, etc., etc.
Conclusão: estava chic. Mas eram cinco horas e eu não queria chegar antes das
sete. Fazer-me um pouco desejado... o que é que tem?... Todavia faltava
bastante tempo!... Em que ocupar-me a fim de passar essas duas longuíssimas
horas? Que fazer?... Impaciência e dúvida; dois tormentos a me angustiarem...
Eu passeava pelo meu quarto, deitando vagamente uns olhares pelos meus
desconjuntados móveis: aquelas minhas cadeiras, lembrando a careta de um
choramingas a entortar o queixo; a mesa, gemendo sob um mundo de livros
desencapados e sebentos; o meu toilette, quero dizer um velho compêndio de
anatomia com uns frascos por cima e um espelho pequeno pregado na parede; a
minha cama, com a coberta a escorregar languidamente para o chão...
Continuava a passear. Olhei ainda uma vez para o espelho e sorri-me, vendo lá
dentro a minha gentil figura partida em quatro por duas rachaduras cruzadas no
vidro... Que fazer?...
Debrucei-me na janela... Embaixo a rua, a atividade prosaica das cidades de
alguma importância: idas e vindas e mais vindas do que idas, por causa da hora
que era de jantar, (por tocar nisto... eu não tinha ainda jantado. É o que me
cumpria fazer; mas o meu plano era economizar um jantar, vingando-me à noite
nos buffetes da menina...) Meus olhos corriam pela rua como andorinhas
brincalhonas. Depois de percorrem o quarto, andavam pela rua em busca de
resposta à minha pergunta: - que fazer?...
Por fim foram esbarrar no frontispício da igreja... Começaram a subir...
Brincaram nas janelas; contaram quantos vidros havia; examinaram os enfeites
de arquitetura... Subiram mais, percorreram os sinos, o zimbório e foram
pousar no pára-raios.
Estavam quase no céu. Daqui para ali, menos de um passo. Os olhos lá foram.
Mergulharam-se erradios no azul... Que fazer?
Ora... enfim! Estava achada a resposta! Por que não veio ela mais cedo não o
posso explicar.
Os meus olhos estavam no céu.
Era uma tarde encantadora. Que cor a do firmamento nessa hora! Que abóbada
incomparável a cobrir a rua!... Depois, aquelas nuvens mimosas, desfiando-se
nos ares, como brancas meadas de lá nuns dedos sedutores... O sol a descambar,
batendo de través na poeira levantada do chão pelos carros, que magníficas
cortinas desdobravam pelas janelas das habitações velando-as como que de
douradas gazes. No horizonte, por sobre a última linha de telhados e chaminés
fumegantes, como se ostentavam aquelas colinas de um azulado branco feitas
vapores tênues; como se recortavam sem fazer uma só volta que não fosse
demorada e graciosa como as curvas de esbelto corpozinho de donzela...
Oh! Do quarto para fora, tudo o que se prendia aos céus por um raio de luz ou
por uma ponta de vaporoso véu, tudo respirava poesia...
Eu achara a resposta. Que fazer?... Versos!... Feliz achado!... Um soneto ou
alguns alexandrinos... qualquer cousa que desse claro testemunho do meu amor.
O laço de fita com que eu ia mimosear o meu anjo era azul... Ótimo! Sobre o
laço, um soneto!... Ouro sobre azul! Com certeza não dançaríamos somente (eu e
ela) trocaríamos o primeiro beijo! Não esse beijo insípido que se dá a
carregar aos zéfiros, entregando-se-lhes nas pontas dos dedos, mas um ósculo
açucarado de lábios ardentes sobre a maciez de uma face. Um ideal realizado.
Uma cousa assim como o contato com um jambo que houvesse roubado o veludo ao
pêssego...
- Bravo! Já estou quase deitando verso de improviso! exclamei eu, notando a
minha exaltação. Venha papel! venha pena! Cérebro, soma-te com o teu
companheiro, o coração! Não brigueis desta vez como é de vosso costume...
somai-vos um com o outro e vertei nesta folha de papel alguma cousa que não
horrorize a Petrarca... Espírito de Dante, eu te evoco! vem com aquele fogo
que em ti acendia a tua celeste Beatriz! Dirceu, corre também em meu socorro!
Poetas antigos e modernos, correi todos! Musas, vinde com eles! Transportai-me
nesses êxtases que vos deram a imortalidade na memória dos homens!...
Nascera-me a inspiração! Ia metrificar alguma cousa que devia maravilhar os
críticos... (aparte a modéstia: isto que escrevo não é para o público). Mas eu
me sentia um pouco acima de mim mesmo... Sem dúvida era essa sensação mística
a que experimentam todas essas cabeças de gênio, um momento antes de dar à luz
qualquer produção sublime...
Molhei a pena, com um movimento nervoso. A minha impaciência (confesso-o) não
era então para chegar à casa do meu bem, era para gravar no papel aquilo que
me ardia no crânio. Molhei a pena...
Oh! desgraça! A infame pena trouxe na ponta um pingo de tinta, trêmulo,
ameaçador. Desviei-a violentamente... foi a minha perdição...
Olhei triste para o meu punho esquerdo... Estava descansado sobre a folha de
papel, quando o pingo... Maldição!... Ainda havia pouco, tão alvo, luzidio
como porcelana... então, com uma feia nódoa circular negra... negra, de quase
uma polegada de diâmetro e ainda a infiltrar-se pelo linho, a tomar cada vez
mais vulto!...
Pobre camisa!... estragada!... Mais pobre de mim... Esse pingo era uma
catástrofe. Aquela camisa era a única. Única! Triste verdade, cujas
conseqüências me desesperavam.
- Adeus, meu anjo! disse eu, sem poder engolir um soluço.
Já não me era possível ir vê-la. Nem um companheiro morava comigo. Se morasse,
talvez o mal fosse remediável. Mas não! Não havia esperança!... Comprar outra?
Onde? Era um domingo... Com que dinheiro?... Era num fim de mês. Não havia
esperança.
Aquele beijo que sonhei num instante de ebriedade desfez-se-me no espírito
como a má impressão de um R. Não era só isto. A minha ausência seria notada
pela menina. O que pensaria ela?... Talvez que eu, por mesquinho, quis
poupar-me a despesa de oferecer-lhe qualquer cousa...
- Quando, gritei eu, aí está o meu laço de fita de cinco mil réis...
Ainda mais. Um baile leva a uma casa tantos pelintras... quem sabe se ela não
se agradaria de algum desses bolas, esquecendo-se de mim?... E teria razão. A
abelha, se aqui não encontra mel, vai buscá-lo acolá...
Momentos dolorosos os que passei nessa tarde! Depois de todos os pensamentos
que me assaltaram brutalmente à primeira reflexão, foi que lembrei-me do meu
soneto...
- Soneto, para onde tu foste?...
Mais este golpe: - a minha inspiração morrera. Eu não sentia mais a exaltação
auspiciosa de alguns minutos antes. Tudo perdido! Fora-se tudo!
Eu vi e jurá-lo-ei, se me não acreditarem, eu vi essa corja do Parnaso, poetas
e Musas, fugir-me do quarto! Eu vi as sirigaitas de saias arregaçadas a
correr, e os idiotas irem-lhe após, sobraçando liras, como os traquinas das
escolas públicas, quando disparam pelas ruas, de ardósia ao sovaco...
Nessa mesma tarde, fui à janela outra vez. Estava aflito e superexcitado.
Parece-me, até, que tinha os olhos molhados. Pus-me a ver os transeuntes. Cada
um que passava, para os lados na morada do objeto dos meus devaneios parecia
um convidado de baile. Tortura.
Em seguida avistei a maldita torre, por onde meus olhos haviam subido ao céu
que me inspirava a negrejada lembrança de poetar.
Para acabar. A desgraça de que fora vítima fez-me esquecer o jantar, que
positivamente era só o que eu devia perder não indo à festa. Não comi e não
reparei nisso. Tornou-se inútil vingar-me da minha economia. Se neste
particular não perdi, no resto ganhei.
A minha querida (soube-o depois) nem perguntou por mim na festa. Esteve
alegre. Encontrou quem lhe agradasse (um sujeitinho com quem se vai casar).
Melhor. Já estou consolado da desgraça, um mal que me veio para bem. Livrou-me
de uma levianazinha. O aborrecimento que hoje me causam os mesmos objetos que
tanto me entusiasmaram naquela tarde veio matar umas pequenas veleidades
poéticas que ainda acatava. Estou descrente. Agora acabou-se... Só estudo;
ergo: ganhei... Estou na expectativa de um fim de ano esplêndido.
Mais uma palavra. O laço de fita azul... guardo-o. É um talismã.
A Comédia. São Paulo, n.0 28 e 29, 4 e 5 abr. 1881.
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