15/04/2017
Ano 20 - Número 1.025

 

ARQUIVO CRISTINA SANT'ANA

 

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Cristina Sant'Ana



EMPATIA

Do Egoísmo ao Altruísmo

Crisitna Sant'Ana - CooJornal


Vi postado no facebook algo sobre Empatia. Chamou-me a atenção a figura, pois eram duas pessoas com suas cabeças juntas e no topo o formato um coração que unia os dois cérebros como se quisesse mostrar que as mentes se tornam unas, numa unidade amorosa quando ocorre empatia. O título estava assim descrito: “Empatia é a habilidade que mais importante que você deve ter”.

Gostei muito do texto ali anexado. Isto ocorreu na semana passada. Hoje, enquanto meditava, tive uma inspiração a respeito de Empatia. Por isso resolvi escrever um pouco sobre o tema, mas com um olhar mais voltado para a Espiritualidade, levando em conta os ensinamentos de Jesus contidos no livro Cartas de Cristo.

Jesus nos fala sobre os impulsos do Ego. Ele diz que não devemos matar o ego como alguns espiritualistas propõem, pois é ele que nos faz ir em busca de nossos anseios. Segundo Ele se não tivéssemos ego morreríamos à beira do caminho. Lembrei-me agora da história “A Serpente e o Sábio”, que ensina sobre isso. A qual transcrevo a seguir:

“Contam as tradições populares da Índia que existia uma serpente venenosa em certo campo. Ninguém se aventurava passar por lá, receando-lhe o assalto. Mas um santo homem a serviço de Deus, buscou a região, mais confiado no Senhor do que em si mesmo. A serpente o atacou, desrespeitosamente. Ele dominou-a com o olhar sereno e lhe disse:

- Minha irmã, é da lei que não façamos mal a ninguém.

A víbora se recolheu envergonhada. O Sábio continuou seu caminho e a serpente se modificou completamente. Procurou os lugares habitados pelo homem, desejosa de reparar os antigos crimes. Mostrou-se integralmente pacífica, mas, desde então, começaram a abusar dela. Quando perceberam sua submissão absoluta, homens, mulheres e crianças jogavam pedras nela e, com isso, a infeliz se recolheu à toca desalentada. Vivia aflita, medrosa desanimada. E num belo dia o santo voltou pelo mesmo caminho e, ao vê-la, se espantou com tamanha ruína. A serpente, então, lhe contou sua história amargurada. Desejava ser boa, afável e carinhosa, mas as crianças a perseguiam. O sábio pensou, pensou e respondeu.

- Mas minha irmã, houve um engano de sua parte. Aconselhei você a não atacar ninguém, a não praticar o assassínio e a perseguição, mas não lhe disse que evitasse assustar os maus. Não ataque as criaturas de Deus, nossas irmãs no mesmo caminho da vida, mas defende a sua cooperação na obra do Senhor. Não pique e nem fira, mas é preciso manter o perverso à distância, mostrando-lhe seus dentes e emitindo seus silvos”.

Esta história nos mostra a importância do ego para a nossa sobrevivência. Desde o nascimento, o bebê sabe como fazer para ter suas necessidades satisfeitas e, na medida em que suas necessidades são satisfeitas, os impulsos de ego se desenvolvem. O ego é, portanto o Guardião da Individualidade. Se não tivesse chorado, exigindo alimento ao nascer, a criança poderia ter morrido de fome. Se não tivesse acolhido com prazer o leite ao mamar, se aninhando afetuosamente à sua mãe, talvez nunca tivesse desenvolvido uma carinhosa proximidade e ligação com ela. Sem o impulso do ego não haveria criação, nem individualidade, nem satisfação das necessidades, nem proteção, nem respostas calorosas e nem tampouco amor humano. Sendo assim, sem o impulso do ego não haveria autodefesa, nem autoproteção, nem sobrevivência. Na verdade, o ego utiliza seu impulso para assegurar sua individualidade, privacidade e segurança.

Mas há também o outro lado do ego que é o de estar voltado apenas para as necessidades de autossatisfação e de sobrevivência. Na infância o ego é governado pelas coisas que a criança gosta e não gosta e, assim, os hábitos vão se formando na medida em que o ego experimenta coisas que ele julga inaceitáveis e tudo isso é guardado no inconsciente, onde fica escondido, gerando condutas. É a partir daí que grande parte do comportamento se torna “condicionado”, o que é muito difícil de mudar. Isto porque quando a pessoa está inconscientemente programada com fortes hábitos egocêntricos, encontra dificuldade para viver com os outros em harmonia.

As frustrações, em virtude do não atendimento às necessidades, causam dor e sofrimento, pois surgem da concordância ignorante com os impulsos do ego que tendem a persistir, gerando sentimentos de raiva, já que o único propósito do ego é o de trazer contentamento individual. Sendo assim, muito cedo na vida já estamos agindo deste modo e quando percebemos qualquer tipo de ameaça, reagimos, esquecendo que, às vezes, é bom baixar a guarda do ego. Com isso deixamos de ver o lado dos outros e concentramos apenas no nosso bem-estar. É bom lembrar que ninguém, criança ou adulto, tem o direito de perturbar outra pessoa com a finalidade de obter sua própria satisfação.

Devemos saber que não há nada de mal no impulso do ego, pois é a pessoa que provoca desarmonias em sua vida ao dar ao impulso do ego o pleno controle de sua personalidade, sem pensar ou ter consideração pelas outras pessoas. Por isso é importante que, desde cedo, seja ensinado à criança, de uma forma sensível e amorosa, a necessidade de considerar os direitos dos demais como iguais aos seus próprios. Esta é uma lei espiritual que deveria predominar no lar, nas escolas e na sociedade, pois desta forma as pessoas provavelmente cresceriam e se desenvolveriam de um jeito mais amoroso e menos egoísta. E, assim, os relacionamentos seriam muito mais gratificantes.
É importante que cada um de nós cuide para que possamos superar os impulsos egoístas e é no contato com as pessoas que nos cercam que podemos fazer isto, pois para fazermos um profundo e significativo contato com outras pessoas, devemos ouvir, escutando o que a pessoa está realmente dizendo, esforçando para compreender o que está sendo dito, sem crítica e julgamento. É quando nos colocamos no lugar do outro que podemos ser empáticos, pois todo relacionamento, que é a raiz do envolvimento vem da sintonia emocional, da capacidade de empatia.

Essa capacidade de saber como o outro se sente está presente em vários aspectos da vida, quer seja nas práticas comerciais, na administração, no namoro, nas relações pais e filhos, nos sermos piedosos e na ação política.

Sentir com o outro é envolver-se. Nesse sentido, a atitude empática tem a ver com altruísmo, pois é o empatizar com alguém que sofre, que está em perigo ou que passa por alguma privação, é o partilhar de sua aflição que leva as pessoas a agirem para ajudá-las. É deste modo que surge a ligação entre empatia e altruísmo nas relações pessoais. Assim, a capacidade de afeto empático, de se colocar no lugar de outra pessoa, leva as pessoas a seguirem certos princípios morais.

Ser empático é uma aptidão interpessoal, pois indica alguém que se preocupa com o bem-estar do outro. Podemos então concluir que Empatia é a capacidade de compreender os sentimentos e preocupações dos outros e adotar a perspectiva deles, reconhecer as diferenças no modo como as pessoas se sentem em relação às coisas.

Devemos nos lembrar de que nosso propósito aqui na Terra é o de expressar em pensamentos, palavras, desejos e realizações a Divindade que há em nosso ser. Podemos fazer isto sendo empáticos, isto é, ouvindo o que os outros nos falam, seja através de palavras ou gestos, oferecendo-lhes um sorriso de amizade, reconhecendo sua existência, ajudando quando necessário, reconhecendo que estão vivos e são, portanto, importantes.

Só quando conseguirmos sentir e agir deste modo é que poderemos nos perceber como seres capazes de nutrir um verdadeiro e autêntico sentimento do amor. Quem sente amor saudável e autêntico jamais compromete sua dignidade.




Comentários sobre o texto podem ser enviados à autora no email  emcsmacris9@gmail.com


(15 de março/2017)
CooJornal nº 1.025


Cristina Sant'Ana é psicóloga.
Belo Horizonte-MG



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