01/12/2007
Número - 557


 

Paulo Mendes Campos



"CHATEAR" E "ENCHER"

Um amigo meu me ensina a diferença entre "chatear" e "encher". Chatear é assim: você telefona para um escritório qualquer na cidade.
— Alô! Quer me chamar por favor o Valdemar?
— Aqui não tem nenhum Valdemar.

Daí a alguns minutos você liga de novo:
— O Valdemar, por obséquio.
— Cavalheiro, aqui não trabalha nenhum Valdemar.
— Mas não é do número tal?
—  Mas aqui nunca teve nenhum Valdemar.

Mais cinco minutos, você liga o mesmo número;
— Por favor, o Valdemar já chegou?
— Vê se te manca, palhaço. Já não lhe disse que o diabo desse Valdemar nunca trabalhou aqui?
— Mas ele mesmo me disse que trabalhava aí.
— Não chateia.

Daí a dez minutos, liga de novo.
— Escute uma coisa! O Valdemar não deixou pelo menos um recado?

O outro desta vez esquece a presença da datilógrafa diz coisas impublicáveis. Até aqui é chatear. Para encher, espere passar mais dez minutos, faça nova ligação:
— Alô! Quem fala?
— Quem fala aqui é o Valdemar. Alguém telefonou para mim?


Fonte: Livro Para Gostar de Ler, Crônicas, ed. Didática
Paulo Mendes Campos, SP, Ática, 1978


(01 de dezembro/2007)
CooJornal no 557



Paulo Mendes Campos
Poeta, cronista, tradutor, o mineiro Paulo Mendes Campos (1922-1991) é conhecido principalmente pelas suas crônicas — gênero que cultivou com maestria durante décadas. Outro aspecto que destacava Mendes Campos era sua participação no célebre quarteto de amigos-escritores formado por Hélio Pellegrino (1924-1988), Otto Lara Resende (1922-1992) e Fernando Sabino (1923-2004). Todos mineiros, os membros desse grupo tornaram-se conhecidos no Rio. Dos quatro, Paulo Mendes Campos foi o último a se transferir para a então capital federal, em 1945.