
08/12/2007
Número - 558
arquivo
CRÔNICAS DE SEMPRE
|
Stanislaw Ponte Preta
INFERNO NACIONAL |
 |
A historinha abaixo
transcrita surgiu no folclore de Belo Horizonte e foi contada lá numa
versão política. Não é o nosso caso. Vai contada aqui no seu mais puro
estilo folclórico, sem maiores rodeios.
Diz que era uma vez um camarada que abotoou o paletó. Ao morrer nem
conversou: foi direto para o Inferno. Em lá chegando, pediu audiência a
Satanás e perguntou:
Qual é o lance aqui?
Satanás explicou que o Inferno estava em diversos departamentos, cada um
administrado por um país, mas o falecido não precisava ficar no
departamento administrativo pelo seu país de origem. Podia ficar no
departamento do país que escolhesse. Ele agradeceu muito e disse a Satanás
que ia dar uma voltinha para escolher o seu departamento.
Está claro que saiu do gabinete do Diabo e foi logo para o Departamento
dos Estados Unidos, achando que lá devia ser mais organizado o inferninho
que lhe caberia para toda a eternidade. Entrou no Departamento dos Estados
Unidos e perguntou como era o regime.
- Quinhentas chibatadas pela manhã, depois passar duas horas num forno de
200 graus.
Na parte da tarde: ficar numa geladeira de 100 graus abaixo de zero até às
três horas, e voltar ao forno de 200 graus.
O falecido ficou besta e tratou de cair fora, em busca de um departamento
menos rigoroso. Esteve no da Rússia, no do Japão, no da França, mas era
tudo a mesma coisa. Foi aí que lhe informaram que tudo era igual: a
divisão em departamentos era apenas para facilitar o serviço no Inferno,
mas em todo o lugar o regime era o mesmo: quinhentas chibatadas pela
manhã, forno de 200 graus durante o dia e geladeira de 100 graus abaixo de
zero, pela tarde.
O falecido já caminhava desconsolado por uma rua infernal, quando viu um
departamento escrito na porta: Brasil. E notou que a fila à entrada era
maior do que a dos outros departamentos. Pensou com suas chaminhas: "Aqui
tem peixe por debaixo do angu".
Entrou na fila e começou a chatear o camarada da frente, perguntando por
que a fila era maior e os enfileirados menos tristes. O camarada da frente
fingia que não ouvia, mas ele tanto insistiu que o outro, com medo de
chamarem a atenção, disse baixinho:
Fica na moita, e não espalha não. O forno daqui está quebrado e a
geladeira anda meio enguiçada. Não dá mais de 35 graus por dia.
E as quinhentas chibatadas? perguntou o falecido.
Ah... o sujeito encarregado desse serviço vem aqui de manhã, assina o
ponto e cai fora.
(08 de dezembro/2007)
CooJornal
no 558
Sérgio Marcus Rangel Porto
Nasceu no Rio de Janeiro em 1923 e faleceu nesta mesma cidade em 1968.
Cronista, humorista, jornalista. Estudou arquitetura até o terceiro ano, mas
abandonou o curso para dedicar-se ao jornalismo, profissão que exerceu
paralelamente ao emprego de bancário no Banco do Brasil, onde permaneceu entre
os anos de 1942 e 1965.
Comentarista esportivo e repórter policial, a partir de 1949 iniciou intensa
atividade jornalística em periódicos como Tribuna de Imprensa, Diário da Noite,
O Jornal, A Carapuça e revistas como Manchete, Fatos & Fotos, O Cruzeiro, Mundo
Ilustrado, entre outras. No jornal Diário Carioca assume, em 1951, o
pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, homenagem ao personagem Serafim Ponte
Grande, do escritor Oswald de Andrade (1890 - 1954).
Durante sua vida, além de cronista e autor satírico, dedicou-se a atividades
muito variadas, como comentarista esportivo e redator humorístico nas rádios
Mayrink Veiga e Guanabara, no Rio de Janeiro; apresentador, redator e locutor em
programas de televisão; roteirista de chanchadas.
Alcançou sucesso editorial com os três volumes de Febeapá (Festival de Besteira
que Assola o País), título que parodia o uso de siglas pela ditadura militar,
publicados em 1966, 1967 e 1968.
|
|