15/12/2007
Número - 559

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CRÔNICAS DE SEMPRE

 

Carlos Eduardo Novaes



NO PAÍS DO FUTEBOL

No início do segundo tempo, um cidadão, que não se interessava por futebol (um dos 18 que a cidade abriga), foi pedindo licença à galera e com muita dificuldade conseguiu entrar na loja.

O gerente foi ao seu encontro:
-  O senhor deseja algo?

-  Um aparelho de televisão.

-  Por que o senhor não leva aquele?

-  Qual?

-  Aquele que está ligado ali na porta.

-  É bom?

- O senhor ainda pergunta? Acha que haveria 200 pessoas diante dele se não tivesse uma boa imagem?

-  Bem ...

- E não é só isso - completou o gerente aproveitando a euforia do público com um gol do Brasil - que outro aparelho transmite emoções tão fortes?

-  Essa gritaria toda foi diante do aparelho?

-  Lógico. Esse é o novo televisor AP-007 dotado de controle de emoção. Só este televisor pode levá-lo do choro convulsivo à completa euforia.

-  É mesmo? E se eu desejar vê-lo sentado quietinho na poltrona?

-  Também pode, mas é aconselhável desligar o botão, senão o senhor não vai conseguir ficar quietinho na poltrona.

O cidadão convenceu-se. Disse que ia levá-lo. O gerente, precavido, pediu-lhe para ir à porta da loja apanhá-lo.

O cidadão não teve dúvidas. Ignorando aquela massa toda diante do aparelho, foi lá tranqüilamente e cleck. Desligou-o.

O que aconteceu depois, eu deixo por conta da imaginação de vocês.



(15 de dezembro/2007)
CooJornal no 559



Carlos Eduardo Novaes nasceu na Tijuca, no Rio de Janeiro.
Até os vinte e nove anos, não sabia ainda direito que rumo dar à sua vida: tentou as carreiras de ator, funcionário público, técnico da Petrobrás, dedetizador, fabricante de picolés e outros, mas nada dava certo.
Até o dia em que ganhou uma máquina de escrever. No início, batia muito na máquina, de raiva mesmo. Mas com o tempo, os dois foram se tornando grandes amigos.
Por volta dos anos 70, ganhou reconhecimento e faturou prêmios em decorrência de sua carreira de escritor.
Nos dias de hoje, Carlos Eduardo Novaes é conhecido e respeitado por suas famosas crônicas.