
22/12/2007
Número - 560
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CRÔNICAS DE SEMPRE
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Fernando Sabino
A
ÚLTIMA CRÔNICA |
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A caminho de casa,
entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na
realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta.
Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca
do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas
recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da
convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial,
ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de
esquina, quer nas palavras de uma criança ou num incidente doméstico,
torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada
para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se
repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta
e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem
os assuntos que merecem uma crônica. Ao fundo do botequim um casal de
pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da
parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e
palavras, deixa se acentuar pela presença de uma negrinha de seus três
anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou
também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curvas ou correr os olhos
grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno
à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo,
porém, que se preparam para algo mais que matar a fome. Passo a
observá-los.
O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso,
aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira e aponta no balcão um
pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel,
vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Esse ouve,
concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher
suspira. olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua
presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem
atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho -
um bolo simples, amarelo escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A
negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de coca-cola e o
pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer?
Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa a um discreto
ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira
qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha
aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além
de mim. São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta
caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a coca-cola, o pai
risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha
repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas.
Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num
balbucio, a que os pais se juntam discretos: ''parabéns pra você, parabéns
pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A
negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a
comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura, ajeita lhe a fitinha
no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai no colo. O pai corre
os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do
sucesso da celebração. De súbito, dá comigo a observá-lo, nossos olhos se
encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a
cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso. Assim
eu quereria a minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.
(22 de dezembro/2007)
CooJornal
no 560
Fernando Sabino nasceu em Belo Horizonte no dia 12 de outubro de 1923.
Era integrante do quarteto mineiro de escritores formado por Hélio Pellegrino
(1924-88), Otto Lara Resende (1922-92) e Paulo Mendes Campos (1922-91). Essa
amizade inspirou Sabino a escrever "O Encontro Marcado" (1956), seu livro de
maior sucesso.
Além de "O Encontro Marcado", suas principais obras foram "O Homem Nu" (1960),
"O Menino no Espelho" (1982) e "O Grande Mentecapto" (1979), que deu a Sabino o
Prêmio Jabuti.
Faleceu no dia 11 de outubro de 2004, vítima de câncer no fígado.
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