15/03/2008
Número - 572

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CRÔNICAS DE SEMPRE

 

José Cândido de Carvalho




REMÉDIO NO CÉU É SEMPRE MAIS BARATO
 

E deu-se que o capitão Nicolino Borba, de Sacopé de Monte Verde, sentiu uma agulhada no peito, caiu e dado como morto foi. Quando era levado paro o cemitério, eis que o capitão dosabrochou por entre flores e grinaldas aos berros e já fazendo inquirições. Como era muito usurário, de não dar bom dia para não gastar o solado da língua, logo entrou de perguntativo em pauta:

- Que negócio é este? Que despautério é este? Enterro de primeira com caixão de veludinho e um jasmim de rosas por cima, é para estuporar. É despesa muita para um defunto só. Desperdício!

Correu gente, veio médico de maleta na mão e no caixão mesmo examinou o usurário. Logo na primeira ouvida que aplicou na armação dos peitos de Nicolino, viu que andava bem vivo e em bom estado de uso. E aproveitou para falar dos perigos que o capitão corria. E com autoridade de receitador de poções:

- Desta vez o capitão escapou. Mas lhe digo que não vai muito longe se não fizer tratamento urgente, como requer sua doença. É o que lhe digo. Não vai muito longe. Bem encastoado no veludo do caixão, Nicolino perguntou:

- Se não é falta de respeito, doutor, em quanto fica essa medicina?

O médico, rapidinho, colocou a mazela de Nicolino na máquina de somar e apresentou a conta:

- Oitocentos contos para um tratamento completo.

E Nicolino:

- Toca o enterro, minha gente. Por esse preço prefiro morrer, que remédio no céu é mais barato.



(15 de março/2008)
CooJornal no 572



José Cândido de Carvalho nasceu em Campos, RJ, em 5 de agosto de 1914, e faleceu em Niterói, RJ, em 1º de agosto de 1989.
Formou-se bacharel em Direito, mas abandonou a profissão no primeiro caso. Trabalhou em diversos jornais cariocas e colaborou com a revista O Cruzeiro.
Sua estréia na literatura foi em 1939, com Olha para o céu, Frederico. 25 anos depois, em 1964, publicou seu maior sucesso, O coronel e o lobisomem, que foi traduzido para o inglês, espanhol, francês e alemão. Deixou inconcluso o seu terceiro romance, O Rei Baltazar.
Em 1974 entrou para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira nº 31, sucedendo a Cassiano Ricardo.