Carlos Drummond de Andrade
HORÓSCOPO
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- Telefonaram do
escritório, bem. Seu chefe mandou perguntar por que você não foi
trabalhar.
- E você deu o motivo?
- Não.
- Podia ter dado.
- Ora, Alfredinho, isso é motivo que se dê?
- Por que não? Se há motivo, está justificado. Sem motivo é que não cola.
- Então eu ia dizer ao seu chefe que você não trabalha hoje porque o seu
horóscopo aconselha: "Fique em casa descansando"?
- E daí, amor? Se meu signo é Touro, e se Touro acha conveniente que
eu não faça nada, como é que eu vou desobedecer a ele?
- É, mas com certeza seu chefe não é Touro, e não vai achar graça nisso.
- Ele é Áries, está ouvindo? E o dia não está para relações entre Áries e
Touro. Pega aí o jornal. Faz favor de ler com esses belos olhos cor de
pervinca: "Áries - Evite rigorosamente discussões com subordinados".
- Mas se ele evitar, não tem perigo para você.
- Ele pode evitar, sim, deve evitar. E para colaborar com ele, eu
fico em casa.
- Mas se você não comparece, ele pode vir ao telefone e pegar numa
discussão danada com você, dessas de sair fogo.
- Não atendo telefone durante o dia. Não posso atender. Não vê que estou
descansando, que o horóscopo me mandou descansar? É favor não fazer
rebuliço nesta casa. Amor e paz, para o descanso do guerreiro.
- Pra mim você está é com preguiça, e das bravas.
- Posso estar com preguiça, e daí? Preguiça é relaxante, restaura as
energias, predispõe para o trabalho no dia seguinte. Mas uma coisa não tem
nada a ver com a outra. Se eu não faço nada hoje, não é porque estou com
preguiça. É em atenção a um mandamento superior, à mensagem que vem dos
astros, você não percebe?
- Percebo, sim, mas não concordo.
- Pode se saber por que a excelentíssima não concorda com aquilo que
percebe e que está devidamente explicado?
- Pode.
- Então explica, vamos.
- Gozado, Alfredinho, até parece que para você só existem dois signos no
zodíaco: Touro e Áries, você e o patrão.
- Espera lá, você queria que eu não prestasse atenção em Touro? Áries eu
li hoje por acaso, porque está ao lado de Touro, em coluna paralela.
- Coincidência: você saber que seu chefe é Áries, e...
- É sim.
- E por que você guardou na cabeça que ele é Áries?
- Ora por quê! Ele fez anos no mês passado, amorzinho. Até contei a você
que oferecemos a ele uma batedeira. Soubemos que a mulher dele precisava
de batedeira, fizemos uma vaquinha e pronto. Mas por que você diz que para
mim só existem dois signos?
- Pelo menos Sagitário você ignora.
- Como que eu ia ignorar Sagitário, se é o signo de você, minha orquídea
de novembro 25?
- É, mas esqueceu de ler que o dia é propício para reuniões sociais de
Sagitário, e saiba que esta sua orquídea de novembro 25 vai reunir hoje as
amigas aqui em casa. Trate de se mandar, querido.
- Sem essa! Touro me manda descansar em casa, e você me enche a casa com
mulheres?
- É, Sagitário não ia fazer isso comigo! Eu já tinha harmonizado Touro com
Áries!
- Pode continuar harmonizando, se for descansar em casa do Tostes, que é
Virgem, eu sei, ele é nosso padrinho de casamento. O horóscopo do Tostes
recomenda prestar serviço a um amigo. Assim, Touro, Virgem, Áries e
Sagitário ficam inteiramente harmonizados, cada um na sua, um por todos,
todos por um. Ande, vá se vestir rapidinho, rapidinho, e rua, seu
vagabundo!
Fonte: Livro Para
Gostar de Ler, Crônicas, ed. Didática,
Carlos Drummond de Andrade, SP, Ática, 1978
(24 de maio/2008)
CooJornal
no 582
Carlos Drummond de Andrade nasceu em
Itabira, Minas Gerais, em 31 de outubro de 1902.
Estudou em Belo Horizonte e Nova Friburgo, formando-se em farmácia na cidade de
Ouro Preto.
Com Emílio Moura e outros companheiros fundou "A Revista", para divulgar o
modernismo no Brasil.
Durante a maior parte da vida foi funcionário público, embora tenha começado a
escrever cedo e prosseguido até seu falecimento, em 17 de agosto de 1987
no Rio de Janeiro, doze dias após a morte de sua única filha, a escritora Maria
Julieta Drummond de Andrade.
Além de poesia, produziu livros infantis, contos e crônicas.
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