
21/06/2008
Número - 586
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CRÔNICAS DE SEMPRE
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Rubem Braga
NEIDE
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O céu está limpo, não há nenhuma nuvem acima de nós. O avião, entretanto,
começa a dar saltos, e temos de pôr os cintos para evitar uma cabeçada na
poltrona da frente. Olho pela janela: é que estamos sobrevoando de perto
um grande tumulto de montanhas. As montanhas são belas, cobertas de
florestas; no verde escuro há manchas de ferrugem de palmeiras, algum ouro
de ipê, alguma prata de embaúba, e de súbito uma cidade linda e um rio
estreito. Dizem me que é Petrópolis.
É fácil explicar que o vento nas montanhas faz corrente para baixo e para
cima, como também o ar é mais frio debaixo da leve nuvem. A um passageiro
assustado o comissário diz que "isso é natural". Mas o avião, com o
tranqüilo conforto imóvel com que nos faz vencer milhas em segundos, havia
nos tirado o sentimento do natural. Somos hóspedes da máquina. Os motores
foram revistos, estão perfeitos, funcionam bem, e temos nossas passagens
no bolso; tudo está em ordem. Os solavancos nos lembram de que a natureza
insiste em existir, e ainda nos precipita além dela, para os reinos azuis
da Metafísica. Pode o avião vencer a montanha e desprezar as passagens
antigas que a humanidade sempre trilhou. Mas sua vitória não pode ser
saboreada de perto: mesmo debaixo, a montanha ainda fez sentir que existe
e à menor imprudência da máquina o gigante vencido a sorverá de um hausto,
e a destruirá. Assim a humilde lagoa, assim a pequena nuvem: a tudo isso
somos sensíveis dentro de nosso monstro de metal.
A menina disse que era mentira, que não se via anjo nenhum nas nuvens. O
homem, porém, explicou que sim, e pediu que eu confirmasse. Eu disse:
— Tem anjo sim. Mas tem muito pouco. Até agora desde que saímos eu só vi
um, e assim mesmo de longe. Hoje em dia há muito poucos anjos no céu.
Parece que eles se assustam com os aviões. Nessas nuvens maiores nunca se
encontra nenhum. Você deve procurar nas nuvenzinhas pequenas, que ficam
separadas umas das outras; é nelas que os anjos gostam de brincar. Eles
voam de uma para outra.
A menina queria saber de que cor eram as asas dos anjos e de que tamanho
eles eram. O homem explicou que os anjos tinham as asas da mesma cor
daquele vestidinho da menina;
e eram de seu tamanho. Ela começou a duvidar novamente, mas chamamos o
comissário de bordo. Ele confirmou a existência dos anjos com a autoridade
de seu ofício; era impossível duvidar da palavra do comissário de bordo,
que usa uniforme e voa todo dia para um lado e outro, e além disso ele
tinha um argumento impressionante: "Então você não sabia que tem anjos no
céu?" E perguntou se ela tinha vontade de ser anjo.
— Não.
— Que é que você quer ser?
— Aeromoça!
E começou a nos servir biscoitos; dois passageiros que estavam cochilando
acordaram assustados porque ela apertou o botão que faz descer as costas
das poltronas; mas depois riram e aceitaram os biscoitos.
— A Baía de Guanabara!
Começamos a descer. E quando o avião tocava o solo, naquele instante de
leve tensão nervosa, ela se libertou do cinto e gritou alegremente:
— Agora tudo vai explodir.
E disse que queria sair primeiro porque estava com muita pressa, para ver
as horas na torre do edifício ali perto: pois já sabia ver as horas.
Não deviam ter lhe ensinado isso. Ela já sabe tanta coisa! As horas se
juntam, fazem os dias, fazem os anos, e tudo vai passando, e os anjos
depois não existem mais, nem no céu, nem na terra.
(21 de junho/2008)
CooJornal
no 586
Rubem Braga
Nascido em Cachoeiro do Itapemirim (ES), em 12 de janeiro de 1913, Rubem
Braga é considerado o maior cronista brasileiro, desde Machado de Assis.
Bacharel pela Faculdade de Direito de Minas Gerais, dedicou-se ao
jornalismo, atuando nos Diários Associados. Cobriu o Movimento
Constitucionalista de 1932 e foi correspondente de guerra na Itália,
durante o segundo conflito mundial. Morou no Recife, em Porto Alegre e
em São Paulo, antes de se estabelecer no Rio de Janeiro. Combateu o
Estado Novo e, por isso, foi preso, algumas vezes. Fundou, com os
escritores Fernando Sabino e Otto Lara Resende, a Editora Sabiá,
responsável pelo lançamento no Brasil de autores como Pablo Neruda,
Jorge Luís Borges e Gabriel Garcia Márquez. Foi chefe do Escritório
Comercial do Brasil em Santiago (Chile) e embaixador do Brasil no
Marrocos. Nos últimos anos de sua vida, trabalhou na TV Globo. Morreu no
Rio, em 19 de dezembro de 1990. Deixou muitos livros de crônicas, entre
eles: O Morro do Isolamento; Com a FEB na Itália; A Borboleta Amarela;
Ai de Ti, Copacabana; O Conde e o Passarinho; A Traição das Elegantes; O
Menino e o Tuim e Recado de Primavera. Escreveu, ainda, os romances Um
Cartão de Paris e Casa do Braga. Traduziu para o Português Terra dos
Homens, de Antoine de Saint-Exupéry.
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