
26/07/2008
Número - 591
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CRÔNICAS DE SEMPRE
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Carlos Drummond de Andrade
CASO DE RECENSEAMENTO
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O agente do recenseamento vai bater numa casa de subúrbio longínquo, aonde
nunca chegam as notícias.
— Não quero comprar nada.
— Eu não vim vender, minha senhora. Estou fazendo o censo da população e
lhe peço o favor de me ajudar.
— Ah moço, não estou em condições de ajudar ninguém. Tomara eu que Deus
me ajude. Com licença, sim?
E fecha-lhe a porta.
Ele bate de novo.
— O senhor, outra vez?! Não lhe disse que não adianta me pedir auxílio?
— A senhora não me entendeu bem, desculpe. Desejo que me auxilie mas é a
encher este papel. Não vai pagar nada, não vou lhe tomar nada. Basta
responder a umas perguntinhas.
— Não vou responder a perguntinha nenhuma, estou muito ocupada, até logo!
A porta é fechada de novo, de novo o agente obstinado tenta restabelecer o
diálogo.
— Sabe de uma coisa? Dê o fora depressa antes que eu chame meu marido!
— Chame sim, minha senhora, eu me explico com ele.
(Só Deus sabe o que irá acontecer. Mas o rapaz tem uma idéia na cabeça: é
preciso preencher o questionário, é preciso preencher o questionário, é
preciso preencher o questionário) .
— Que é que há? - resmunga o marido, sonolento, descalço e sem camisa, puxado
pela mulher.
— É esse camelô aí que não quer deixar a gente sossegada!
— Não sou camelô, meu amigo, sou agente do censo.
— Agente coisa nenhuma, eles inventam uma besteira qualquer, depois
empurram a mercadoria! A gente não pode comprar mais nada este mês, Ediraldo!
O marido faz lhe um gesto para calar se, enquanto ele estuda o rapaz, suas
intenções. O agente explica-lhe tudo com calma, convence-o de que não é
nem camelô nem policial nem cobrador de impostos nem enviado de Tenório
Cavalcanti. A idéia de recenseamento, pouco a pouco, vai se instalando
naquela casa, penetrando naquele espírito. Não custa atender ao rapaz, que
é bonzinho e respeitoso.
E como não há despesa nem ameaça de despesa ou incômodo de qualquer ordem,
começa a informar, obscuramente orgulhoso de ser objeto, pela primeira vez
na vida, da curiosidade do governo.
— O senhor tem filhos, seu Ediraldo?
— Tenho três, sim senhor.
— Pode me dizer a graça deles, por obséquio? Com a idade de cada um?
— Pois não. Tenho o Jorge Independente, de 14 anos; o Miguel Urubatã, de
10; e a Pipoca, de 4.
— Muito bem, me deixe tomar nota. Jorge... Urubatã... E a Pipoca, como é
mesmo o nome dela?
— Nós chamamos ela de Pipoca porque é doida por pipoca.
— Se pudesse me dizer como é que ela foi registrada...
— Isso eu não sei, não me lembro.
E, voltando-se para a cozinha:
— Mulher, sabes o nome da Pipoca?
A mulher aparece confusa.
— Assim de cabeça eu não guardei. Procura o papel na gaveta.
Reviram a gaveta, não acham a certidão de registro civil.
— Só perguntando à madrinha dela, que foi quem inventou o nome. Pra nós
ela é Pipoca, tá bom?
— Pois então fica se chamando Pipoca, decide o agente. Muito obrigado,
seu Ediraldo, muito obrigado, minha senhora, disponham!
Fonte: Livro Para Gostar de Ler, Crônicas, ed. Didática,
Carlos Drummond de Andrade, SP, Ática, 1978
(26 de julho/2008)
CooJornal
no 591
Carlos Drummond de Andrade nasceu
em Itabira, Minas Gerais, em 31 de outubro de 1902.
Estudou em Belo Horizonte e Nova Friburgo, formando-se em farmácia na
cidade de Ouro Preto.
Com Emílio Moura e outros companheiros fundou "A Revista", para divulgar
o modernismo no Brasil.
Durante a maior parte da vida foi funcionário público, embora tenha
começado a escrever cedo e prosseguido até seu falecimento, em 17 de
agosto de 1987 no Rio de Janeiro, doze dias após a morte de sua única
filha, a escritora Maria Julieta Drummond de Andrade.
Além de poesia, produziu livros infantis, contos e crônicas.
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