19/09/2008
Número - 599

arquivo
CRÔNICAS DE SEMPRE

 

Fernando Sabino



TURCO
 

Assim que chegou a Paris, foi cortar o cabelo, coisa que não tivera tempo de fazer ao sair do Rio. O barbeiro, como os de toda parte, procurou logo puxar conversa:

— Eu tenho aqui uma dúvida, que o senhor podia me esclarecer.

— Pois não.

— Eu estava pensando... A Turquia tomou parte na última guerra?

— Parte ativa, propriamente, não. Mas de certa maneira esteve envolvida, como os outros países. Por quê?

— Por nada, eu estava pensando. A situação política lá é meio complicada, não?

Seu forte não era a Turquia. Em todo caso respondeu:

— Bem, a Turquia, devido a sua situação geográfica... Posição estratégica, não é isso mesmo? O senhor sabe, o Oriente Médio...

O barbeiro pareceu satisfeito e calou-se, ficou pensando.

Alguns dias depois ele voltou para cortar novamente o cabelo. Ainda não se havia instalado na cadeira, o barbeiro começou:

— Os ingleses devem ter muito interesse na Turquia, não?

Que diabo, esse sujeito vive com a Turquia na cabeça — pensou. Mas não custava ser amável, além do mais, ia praticando o seu francês:

— Devem ter. Mas têm interesse mesmo é no Egito. O canal de Suez.

— E o clima lá?

— Onde? No Egito?

— Na Turquia.

Antes de voltar pela terceira vez, por via das dúvidas procurou informar se com um
conterrâneo seu, diplomata em Paris e que já servira na Turquia.

— Desta vez eu entupo o homem com Turquia decidiu-se.

Não esperou muito para que o barbeiro abordasse seu assunto predileto:

— Diga-me uma coisa, e me perdoe a ignorância: a capital da Turquia é Constantinopla ou Sófia?

— Nem Constantinopla nem Sófia. É Ancara.

E despejou no barbeiro tudo que aprendera com seu amigo sobre a Turquia. Nem assim o homem se deu por satisfeito, pois na vez seguinte foi começando por perguntar:

— O senhor conhece muitos turcos aqui em Paris?

Era demais:

— Não, não conheço nenhum. Mas agora chegou a minha vez de perguntar: por que diabo o senhor tem tanto interesse na Turquia?

— Estou apenas sendo amável — tornou o barbeiro, melindrado: — Mesmo porque conheço outros turcos além do senhor.

— Além de mim? Quem lhe disse que sou turco? Sou brasileiro, essa é boa.

— Brasileiro? — e o barbeiro o olhou, desconsolado:

— Quem diria! Eu seria capaz de jurar que o senhor era turco. . .

Mas não perdeu tempo:

— O Brasil fica é na América do Sul, não é isso mesmo?


Fonte: Livro Para Gostar de Ler, Crônicas, ed. Didática
Fernando Sabino, SP, Ática, 1978

(19 de setembro/2008)
CooJornal no 599



Fernando Sabino nasceu em Belo Horizonte no dia 12 de outubro de 1923. Era integrante do quarteto mineiro de escritores formado por Hélio Pellegrino (1924-88), Otto Lara Resende (1922-92) e Paulo Mendes Campos (1922-91). Essa amizade inspirou Sabino a escrever "O Encontro Marcado" (1956), seu livro de maior sucesso.
Além de "O Encontro Marcado", suas principais obras foram "O Homem Nu" (1960), "O Menino no Espelho" (1982) e "O Grande Mentecapto" (1979), que deu a Sabino o Prêmio Jabuti.
Faleceu no dia 11 de outubro de 2004, vítima de câncer no fígado.