
14/03/2009
Ano 12 - Número 623
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CRÔNICAS DE SEMPRE
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Carlos Drummond de Andrade
TIRAR
FÉRIAS |
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A noção de férias está
ligada a figuras de viagem, esporte, aplicações intensivas do corpo; quase
nada a descanso.
As pessoas executam durante esse intervalo aquilo que não puderam fazer ao
longo do ano; fazem "mais" alguma coisa, de sorte que não há férias, no
sentido religioso e romano de suspensão de atividades. Matutando nisso,
resolvi tirar férias e gozá-las como devem ser gozadas: sem esforço para
torná-las amenas. A idéia de viagem foi expulsa do programa: é das
iniciativas mais comprometedoras e tresloucadas que poderia tomar o
trabalhador vacante. As viagens ou não existem, como é próprio da era do
jato, em que somos transportados em velocidade superior à do nosso poder
de percepção e de ruminação de impressões, ou existem demais como
burocracia de passaporte, filas, falta de vaga em hotel, atrasos, moeda
aviltada, alfândega, pneu estourado no ermo, que mais? Quanto à prática de
esportes, sempre julguei de boa política deixá-la entregue a
personalidades como Éder Jofre, Maria Ester Bueno ou Pelé, que dão o
máximo. A performance desses ases satisfaz plenamente, e não seria eu num
mês de férias que iria igualá-los ou sequer realçá-los pelo contraste. Bem
sei que o esporte vale por si, não pelos campeonatos; mas também, como
passatempo, carece de sentido. Pescar, caçar pequenos bichos da mata?
Nunca. Se esporte e morte acabam pelo mesmo som, para mim nunca rimaram.
Havia também os trabalhos, os famosos trabalhos que a gente deixa para
quando repousar dos trabalhos comuns. Organizar originais de um livro.
Escrever uma página de sustância (está pronta na cabeça, falta só botar o
papel na máquina!). Pesquisar em arquivos. Arrumar papéis. Mudar os móveis
de lugar. E os deveres adiados, tipo "visitar o primo reumático de Del
Castilho". A idéia de conhecer o Rio, conhecer mesmo, que nos namora há 20
anos: tomar bondes esdrúxulos, subir morros, descobrir lagoas de
madrugada. Por último, o sonho colorido dos gulosos, sacrificados durante
o ano: comer desbragadamente pratos extraordinários, sem noção de tempo,
saúde, dinheiro. Tudo aboli e fiz a experiência das férias propriamente
ditas, que, como eliminação das atividades ordinárias e exteriores, pode
parecer estado contemplativo ou exercício de ioga. Não é nada disso.
Exatamente porque abrem mão de tudo, as boas férias não devem tender à
concentração espiritual nem à contenção da vontade. São antes um deixar-se
estar, sem petrificação. Levantar se mais tarde? Se não fizer calor; um
direito nem sempre é um prazer. Ir ao Arpoador? Se ele nos chama
realmente, não porque a manhã e a água estão livres. O mesmo quanto a
diversões, muitas vezes menos divertidas do que a noção que temos delas.
Divertir-se é desviar-se, e não convém que nos desviemos das férias,
enchendo o tempo com programas de férias. Deixemos que ele passe, sutil;
não o ajudemos a passar. Há uma doçura imprevista em sentir-se flutuar na
correnteza das horas, em sentir-se folha, reflexo, coisa levada; coisa que
se sabe tal, coisa sabida mas preguiçosa. Se me pedirem para contar o que
fiz afinal nestas férias, direi lealmente: ignoro. Aos convites disse não,
alegando estar em férias, alegação tão forte como a de estar ocupadíssimo.
O pensamento errou entre mil avenidas, não se deteve em nenhuma; cada dia
amadureceu e caiu como um fruto. Nada aconteceu? O não acontecimento é a
essência das férias. E agora, é trabalhar duro onze meses para merecer as
inofensivas e deliciosas férias do não.
Carlos Drummond de Andrade, Cadeira de Balanço,
13a Edição, Livraria José Olympio Editora
(14 de março/2009)
CooJornal
no 623
Carlos Drummond de Andrade nasceu em
Itabira, Minas Gerais, em 31 de outubro de 1902.
Estudou em Belo Horizonte e Nova Friburgo, formando-se em farmácia na cidade de
Ouro Preto.
Com Emílio Moura e outros companheiros fundou "A Revista", para divulgar o
modernismo no Brasil.
Durante a maior parte da vida foi funcionário público, embora tenha começado a
escrever cedo e prosseguido até seu falecimento, em 17 de agosto de 1987 no Rio
de Janeiro, doze dias após a morte de sua única filha, a escritora Maria Julieta
Drummond de Andrade.
Além de poesia, produziu livros infantis, contos e crônicas.
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