Dagmar Leão
Entrevista / Antonio
Naud Júnior
CONFISSÕES DE UM POETA GRAPIÚNA
Nascido no Sul da
Bahia, Antonio Naud Júnior estreou em 1993, com o volume
independente de poemas “O Aprendiz do Amor”. Desde então publicou sete
livros de poesia, narrativa e entrevista. Nos próximos dias, o autor
cigano lança “Suave é o Coração Enamorado” (Via Litterarum, 176 págs.)
em três cidades baianas: Ilhéus (UESC, durante o VII Seminário
Internacional de Literaturas Luso-Afro-Brasileira, na última semana de
outubro), Itabuna (Quiosque Cultural, 26 de outubro, às 20h) e Salvador
(Casa da Mãe, Rio Vermelho, 01 de novembro). Antes, o livro de poesia
foi lançado em Natal (Rio Grande do Norte) e João Pessoa (Paraíba),
sempre prestigiado por um bom público, performances e show musical.
O poeta discorre
aqui sobre vários temas numa linguagem sincera e poética - e por isso
completamente próxima à sua obra. As respostas de Naud são quase
fábulas, falas um tanto comovidas com a existência. “A minha vida daria
boa poesia”, garante ele.
ABENÇOADO
“Sou um homem de
sorte. Mesmo sem grandes recursos financeiros, vivo perfeitamente
satisfeito, já que não sou ambicioso. Diferente de muita gente dominada
pelo consumismo, nunca senti cobiça por carros último modelo ou mansões
em condomínios fechados. Faz-me muito bem a consciência de que da vida
nada se leva. A futilidade que alimento não é caso para tratamento
psiquiátrico: gosto de morar confortavelmente, vestir-me com requinte,
perfumes franceses e livros. Nada disso me falta. Por onde passo,
encontro gente amável, inteligente e bem intencionada. Talvez por não
ter nenhum complexo de inferioridade, correr todos os riscos e me
oferecer inteiro. São anjos de carne-e-osso suavizando meus caminhos.
Como sei que a vida não tem pena de ninguém, sou grato por essa
gentileza, gerando uma total descrença na inveja, ira, vingança ou
rancor. Ódio, nem falo, é uma doença amaldiçoada. Tô fora. Sou feliz por
conseguir sobreviver do meu ofício. Ou seria da bondade alheia? Creio
que é exatamente isso: sou um homem de sorte, abençoado. Um homem que
terminou por compreender que a maturidade dá a certeza que não
compreendemos nada”
AMOR
“Acredito no poder
transformador do amor. A literatura que escrevo se alimenta dele. Ao
longo da vida tive quatro ou cinco relacionamentos apaixonantes,
inesquecíveis. Casei certa vez e gostei da experiência. Aprendi muitas
coisas, inclusive que a solidão a dois não me interessa. Por meus braços
passaram mais de mil amores, homens ou mulheres. Se todos eles fossem
meus leitores, seria candidato a best-seller. Entretanto, não me
considero promíscuo, pois sinto atração por determinada criatura crendo
que é o amor que tanto espero. Não sou de caça, de ansiedade carnal, os
meus encontros acontecem naturalmente. Afinal não existe nada mais
incomodo do que acordar com alguém que não temos interesse romântico. O
importante é amar e não se angustiar ou sofrer com a impossibilidade de
união. Amei atores, músicos, enfermeiras, escritores, surfistas,
anônimos, drogados, prostitutas, casados, professoras, modelos,
feministas, jornalistas, marinheiros e até políticos. Um deles acaba de
se eleger para deputado federal em São Paulo. O engraçado é que nunca
fui essa beleza toda e jamais banquei o Don Juan, porém cultivo algum
magnetismo e nunca zombei dos sentimentos alheios. Algumas dessas
histórias estão nos meus diários. Se um dia forem publicados muita gente
ficará de boca aberta. Um escândalo digno das Suicides Notes, de
Gerald Thomas. Entretanto, nos últimos dois anos, depois de um romance
bombástico, venho evitando novos relacionamentos. Ando preferindo me
deixar seduzir pela natureza, a literatura e o invisível”
BRASIL
“O Brasil já foi
um país de grande vivacidade intelectual. Basta lembrar dos tempos do
Movimento Modernista, da poesia concreta, Bossa Nova, Cinema Novo,
Tropicália, Arena, de publicações como Realidade e Pasquim. Até alguns
anos atrás era possível ler o new journalism de Paulo Francis, Pepe
Escobar ou Sérgio Augusto, hoje nos resta a estupidez oportunista de
Diogo Mainardi. A inteligência brasileira foi silenciada. É o besteirol
que comanda. A elite semi-analfabeta gasta seu dinheiro em shows bestas
e vaquejadas. Os escritores aceitos pela opinião pública não desfrutam
de competência literária. No Brasil, a voz do povo é o futebol, a
música, a dança. Se voz do povo é voz de Deus talvez Deus goste muito de
dançar. A miséria cultural é uma das facetas trágicas da nossa vida
tupiniquim. Não importa o que sejamos, mas presenciar este estado de
coisas tristes nos humilha, nos ofende e por isso nos desanimamos. Eu
sempre reavalio o que aconteceu comigo e com o meu país. Não há como não
pensar no passado. Estou contente com tudo que fui e fiz. Não me
arrependo de nada. Por que me arrependeria de alguma coisa? Estou
contente com a vida que levei e que ainda levo. Ela me deu mais do que
pedi e mais do que mereci. Aliás, prefiro sempre falar da vida com olhos
de esperança. Meus planos, afinal, são viver ou seja aprender,
escrever, amar. Pretendo continuar lançando minha alma no espaço,
gritando por liberdade e, lembrando Raul Seixas, não ter aquela velha
opinião formada sobre tudo”
CICATRIZES
“Tenho um convívio
conflituoso com Itabuna. Ela nem sempre gosta de mim. Na primeira
juventude fui perseguido nesta cidade, mesmo sendo um legítimo
papa-jaca. Tentaram arruinar minha reputação. Acusaram-me por debaixo
dos panos de atos ilegais, de maledicência, de cartas anônimas, plágio
etc. Houve um tempo em que fui persona non grata em determinadas
festas burguesas. Até espalharam o boato de que eu havia morrido na
Europa vitimado pela Aids. Como o meu santo é forte tais infelizes
caluniadores morreram subitamente um a um ou estão decadentes,
desacreditados. Ainda assim não guardo rancor de ninguém, só que algo se
partiu na cumplicidade com Itabuna. Hoje em dia nem tenho vontade de
lançar livros em terras grapiúnas, pois talvez essas cicatrizes sejam
responsáveis por lançamentos insossos, ao contrário do que acontece em
outros lugares. O lançamento em Natal, no Rio Grande do Norte, no mês
passado, agregou quase 150 pessoas. Foi uma festa da palavra. Não vejo
possibilidade disso se repetir em Itabuna. Espero que esteja enganado e
eu e ela se entregue um ao outro sem restrições”
CIDADES
“Cansei das
grandes cidades impessoais e aterradoras. Voltei às origens. Sou um
animal do mato. Já vivi tudo o que tinha de viver nas metrópoles. Chega
de correria, poluição e exploração em todos os sentidos. Como diz Zé
Rodrix: quero uma casa no campo. Ou numa cidadezinha litorânea.
As grandes cidades brasileiras estão caindo aos pedaços. Não quero sair
outra vez da minha terra, mas não posso ficar aqui vendo que as pessoas
não mudam de mentalidade. Simplesmente institucionalizou a falta de
respeito pela realidade, pelo próximo, pela legalidade. Voltei da Europa
pensando em viver em Salvador, mas ela está numa situação difícil, acho
que cresceu demais. Ficou estranha, distante. Passa por um terrível
processo de descaracterização. A encantadora Natal, embora muito menor,
tem problemas graves: não convive bem com pedestres, despreza o verde e
colabora com um turismo sórdido, além do calor sufocante. Estive
recentemente em João Pessoa e fiquei enamorado: gente amável,
provincianismo poético e ruas planas embelezadas pela natureza. Moraria
tranquilamente nessa terra de poetas como Lau Siqueira, Antônio Mariano,
Astier Basílio e Linaldo Guedes. É uma maravilha. Habito atualmente a
potiguar Pium, na Vila Feliz, entre cajueiros, mangueiras e orquídeas.
Já no próximo verão estarei na bucólica Barra do Cunhaú. Farei saraus
poéticos para pescadores e bordadeiras”
ESTRÉIA
“O Aprendiz do
Amor,
livro de estréia, não dá fulgor a minha poesia. No ano de 1993, eu era
apenas um rapaz que se aventurava a traduzir em versos a solidão que
sentia. Antes eu havia xerocado dois pequenos atentados poéticos –
recordando Jomard Muniz de Britto - com tiragem em torno de cinqüenta
exemplares cada. Um deles, A Vida é Pássaro Negro, exibia na capa
imagem dramática de Sebastião Salgado. Uma brincadeira de adolescente.
Renego sem piedade. Já O Aprendiz do Amor não deixa de ser
interessante, mesmo com toda a sua imaturidade e influências vistosas.
Ele fala muito sobre a ausência. Eu já me preocupava em fazer algum
sentido na escrita. Não um sentido convencional. Mas era apenas um
protesto juvenil sem muitas conseqüências. O Aprendiz do Amor é o
primeiro livro de um iniciante, inegavelmente influenciado pela
literatura de Hilda Hilst e Virgínia Woolf. Esta, a verdade. Era louco
por Virgínia, desculpe, retifico, sou louco por Virgínia. A minha voz
própria começa a surgir com Ficar Aqui sem Ser Ouvido por Ninguém,
em 1996, publicado em Portugal”
FAMA
“Não me importa
ser celebrado. Não levo a fama a sério. O escritor que tem a fama como
meta escolheu a profissão errada. Desejo somente continuar escrevendo
com independência, sensibilidade e combatividade. Se desejasse a fama
teria me vendido, puxado o saco de poderosos ou participado de
panelinhas literárias. Nunca topei nada disso. No Rio de Janeiro, o
escritor argentino Manuel Puig, autor de O Beijo da Mulher Aranha,
pediu-me para que fosse viver com ele no México e eu não fui, mesmo
bastante tentando em conhecer a terra de Frida Kahlo. Já em São Paulo,
Pedro Paulo de Senna Madureira, na época o editor mais famoso do Brasil,
mandava buquês de rosas vermelhas e, indiferente, eu apenas comia a mais
formosa flor com mel. No final dos anos 90, uma rica açoriana ofereceu
casa, comida e pequena editora para que eu fosse viver perto dela nos
Açores. Fiquei lá um tempinho, terminando por enjoar da carência piegas.
Ao me apaixonar por uma idosa poeta não planejava utilizá-la com
proveitos oportunistas, como alguns amigos dela insinuaram, apenas
saboreava seu extraordinário encanto. A verdade é que a minha vida daria
boa poesia. Se eu fosse mulher seria concubina, uma deliciosa cortesã,
uma Cicarelli
ou Luana
Piovani com neurônios, mas felizmente sou homem, um poeta que acredita
na liberdade impossível e nas coisas simples da vida. O importante é
estar com o coração sereno, fazer o que gosto e mandar os caretas
plantarem batatas”
HILDA HILST
“Fui protegido por
ela durante dois anos. Hilda lia meus poemas e contos, aconselhando um
mergulho interior sem barreiras, destacando versos, oferecendo livros.
Lia John Donne, Jorge de Sena e Henri Michaux para mim. Enamorado, eu me
deixava embalar por sua voz única de dicção perfeita. À noite, juntos,
víamos a telenovela das oito, acompanhados por um bom uísque escocês e
muitas confissões. Estive ao seu lado durante a criação do soberbo Do
Desejo. Fiz inúmeras fotografias, guardo suas cartas e bilhetinhos.
Sei detalhes de sua vida íntima nunca publicados. Costumava ligar para
as redações de jornais e revistas, pedindo que ela fosse entrevistava,
mesmo consciente de seu horror a entrevistas. Por minha insistência,
topou fazer algumas. Um dia, Hildinha deixou de falar comigo. Fiquei em
pânico, chorei, não sabia como sobreviver sem a sua companhia. Terminei
por aniquilar a dor através da escrita. Quando morreu, não me abalei,
pois a sua morte estava anunciada há muitos anos. Hilda morria a cada
dia desde os anos oitenta. Ela é o maior poeta que já tivemos. O meu
Suave é o Coração Enamorado é dedicado ao seu ser iluminado”
NOVO LIVRO
“Suave é o
Coração Enamorado ainda não é a grande obra que pretendo escrever
antes de partir para o outro lado. Até agora, o meu melhor momento
literário aconteceu com Se um Viajante numa Espanha de Lorca,
tristemente só publicado em Portugal. Sei que não sou um poeta
excepcional, minha prosa tem mais vigor. Tenho consciência disso, mas
não me envergonho da poética que faço, pois ela é mais viva e sincera do
que a de muita gente que se diz poeta. Existe muito gato vendido por
lebre no mercado literário. Realmente contamos com um número reduzido de
brilhantes escritores e poetas para um País tão gigantesco. A literatura
não é produto visceral nas terras brasilis. Antes de tudo, a nossa
sensibilidade é musical. Tem muita celebridade literária fruto de
marketing ou da desinformação. Alguém escreve que tal figura é genial e
essa invenção passa de boca em boca, tornando a lenda realidade, como
nos filmes de John Ford. Não cito nomes porque os mortos merecem ser
deixados em paz e os vivos devem fazer o que acreditam que sabem fazer
melhor, mesmo que pratiquem apenas a imitação da literatura”
POESIA
“A poesia, desde
os gregos, jamais mudou nada no mundo. Mas ela é um luxo necessário, uma
profusão de sentimentos, palavras e coisas que avança misturando as suas
vozes. Privilegiados são aqueles que acreditam na sua beleza. Quando
escrevo poesia ou prosa, minha vontade é sempre dar um passo além. Como
deu Auden, Cummings, Clarice Lispector e tantos outros, só que é muito
difícil dar esse passo, ser original. Por meio da poesia, compartilho
com outras pessoas muitos dos meus delírios. Nela eu não tenho limites.
Jogo-me de corpo e alma, sem censura. Eu não me escondo atrás das
máscaras das palavras. Estou lá, na primeira pessoa, completamente nu e
indomável, apenas preocupado com o sentido da vida. Procuro o poema em
linha reta, como dizia Fernando Pessoa. Procuro a rebeldia dos
personagens mais famosos de Paul Newman. Escrever poesia – ou prosa – é
uma catarse. O fundamental é não mentir e procurar entender a fúria dos
homens. Estou sempre de olho na poesia do passado e de hoje. Fico feliz
com o reconhecimento alheio. Ao contrário de muita gente, que se corrói
de inveja, creio que o reconhecimento do outro não nos diminui, não
apaga a nossa trajetória, não fecha nossas chances. Muito pelo
contrário. E inveja é areia movediça”
RELIGIÃO
“Sei muito pouco
sobre Deus e não tenho formação religiosa, mesmo nascido numa família
católica. Os rituais e dogmas me aborrecem. Não acredito em nada e
acredito em tudo. Sou devoto de São Sebastião somente por sua história
libidinosa e imagem erótica flechada. Gosto também da simplicidade
revolucionária de São Francisco de Assis. Ao mesmo tempo, beijo os pés
de Oxóssi e Dona Janaína. Se eu tivesse temperamento para me dedicar a
uma religião, ficaria com o candomblé. Acho mágica essa idéia de
unificar deuses com a própria natureza. Também tenho uma queda pela
espiritualidade oriental. Costumo meditar, entoar mantras e cânticos
budistas. Sou totalmente místico. Como Shakespeare, acredito que há
muita coisa entre o céu e a terra que nem sonha a nossa vã filosofia.
Certa vez fiz regressão e, entre outras vidas, vi-me como jovem
curandeira germânica que acabava na fogueira. Talvez venha daí a repulsa
e atração que sinto pelo fogo”
SONHOS
“Mesmo escrevendo
desde menino, eu queria mesmo era ser artista plástico. Porém, não
pintava nada decente, era uma loucura. Meti na cabeça que seria Henri
Matisse. Fiz exposições coletivas e individuais, ganhei prêmios
regionais, vendi umas quarenta telas. Numa das exposições, A Morte do
Futuro, deixei-me fotografar acorrentado e pintado com a palidez e
as olheiras de Rodolfo Valentino. Um dia, de frente a telas de Cézanne e
Gauguin no Masp, disse para mim mesmo: “Você não pinta nada. Acorde pra
vida, Antonio”. Foi o fim da carreira pictórica, pouco antes dos 20
anos. Nos anos seguintes, passei a comprar ou pedir de volta minhas
próprias pinturas e queimá-las. No entanto, não foi possível resgatar
todas elas. Hoje sei que foi a opção acertada e que a literatura estava
destinada para preencher o meu vazio. Cada macaco no seu galho, e o meu
galho não é a pintura. Por mais dedicado que fui, era entretenimento.
Por fim, mesmo realizado por escrever, não tenho uma meta literária, não
tenho nada programado, nada espero. Tanto que nunca envio o que escrevo
para editoras, não participo de concursos literários e os poucos
leitores fiéis surgiram sem qualquer planejamento”
VIDA INTENSA
“Amar, ler,
escrever e viajar são hábitos fundamentais na minha vida. Vivo
intensamente cada segundo da existência. É o principal obstáculo para o
meu desenvolvimento literário. Entretanto não me arrependo. Essa é a
vida que escolhi. Mesmo escrevendo praticamente todos os dias, acato mil
e uma outras aventuras: a boêmia, vejo três ou quatro filmes
semanalmente, vou ao teatro, exposições, museus e shows, cuido de
plantas e insetos, jogo tarot, medito e oro, viajo muitíssimo, tenho uma
rotina doméstica – resultando em moradias impecáveis – e não deixo de ir
à praia ou contemplar rios, árvores, a lua e estrelas. Além disso,
converso banalidades com idosos solitários e sobre cidadania com os mais
humildes. Se eu bancasse o senhor do castelo, como outros escritores,
talvez escrevesse mais ou melhor. Diferentes deles, sou hóspede de uma
alma libertária, sem preconceitos e comunicativa. Tanto que tenho
inúmeras obras inacabadas por absoluta falta de tempo. Eu nem sei quem
sou. Talvez meio maluco, uma criatura discutível, uma metamorfose
ambulante. A minha biografia é interessante, meio cinematográfica, e
assim é como se eu não tivesse feito outra coisa além de procurar viver
intensamente. Por vezes, noto que alguns leitores prestam atenção na
minha pessoa e não na obra. Não me incomodo. Intencionalmente confundo
vida e obra, já que não vejo diferença entre elas”
(18 de novembro/2006)
CooJornal
no 503