16/08/2019
Ano 22 - Número 1.137




ARQUIVO DANIELA ARAGÃO


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Daniela Aragão



Bruma, poesia e burguesia

Daniela Aragão, colunista CooJornal

Subo devagarinho o pequeno morro, que me conduzirá até minha casa. As árvores, intensamente, verdes que recobrem o topo da montanha, nestes dias, despontam enevoadas pela bruma branca do frio. Toca-me o incontrolável impulso de cantarolar, baixinho, os versos de Cazuza “A vida sem bruma/não é vida nenhuma/a tarde sem bruma, ao luar/Por exemplo, um casal de namorados no sol/A garganta seca na praia/A praia da bruma”. Passo levemente a língua pela parte superior de meus lábios rachados e vou trazendo para bem perto, neste fim de tarde de lentidão melancólica, a memória da bruma cantada visceralmente por Cazuza.

Agora, dentro de casa não há sol, mas a bruma branca da paisagem de fora, me incita a mergulhar mais fundo em minhas paisagens de dentro. Talvez ele ainda esteja lá, entre outros vinis com capas amareladas e desgastadas pelo tempo. Supostamente, permaneceu guardado por décadas, até que eu estivesse pronta o suficiente para percebê-lo e retirá-lo do estado de coisa, sem vida.

A vida pulsa em vasta e aguda expressividade de sentidos em “Burguesia”. A homônima faixa título grita em meus ouvidos, como um flash do momento de agora: “A Burguesia fede/A burguesia quer ficar rica/E enquanto houver burguesia/Não vai haver poesia”. Uma avalanche de criminosos que se digladiam por todos os cantos, e o assunto - política – hoje se tornou, consideravelmente, mais banalizado e bestializado. A burguesia entoada por Cazuza conserva seus caracteres perversos, acrescidos, décadas após, de mais requintes seletivos e distintivos: “A burguesia não repara na dor/Da vendedora de chicletes/A burguesia só olha pra si”.

A capa que traz a foto de perfil de um Cazuza quase etéreo. É revestida por uma configuração de formato e cores, que remetem a beleza concisa da arte de Piet Mondrian. O vinil, em capa dupla, traz dois envelopes internos, que abrem suas abas/azas em azul e amarelo, bela alusão a uma das faixas mais belas do disco: “E eu estou de azul e amarelo/De azul e amarelo/Senhores deuses me protejam/De tanta mágoa/Estou pronto pra ir ao teu encontro/Mas não quero, não vou, não quero”.

“Burguesia” é um canto de despedida, composto na urgência do transcorrer das derradeiras horas de vida de Cazuza. Um corpo exposto em sua fragilidade física, simultaneamente, densa gama de riqueza existencial. O fio de voz doído, afinado e revestido de ternura em “Quando eu estiver cantando”, transmuta-se em gravidade rascante em “Filho único”: “Estou na mais completa solidão/Do ser que é amado e não ama/Me ajude a conhecer a verdade/A respeitar meus irmãos/ E a amar quem me ama”.

O amor em sua magnitude de vivências e partilhas é o substrato que perfaz toda a travessia do álbum. O artista parece querer deixar, como legado mais sincero e profundo de sua criação, o reconhecimento de que a frase de San Ruan de La Cruz traz o essencial da vida: a “la tarde devera na l”amour”. Cazuza relê “Esse cara”, de Caetano Veloso, com a mais sublime beleza que um canto enamorado de plenitude calorosa pode trazer. Rendo-me a rouquidão de sua voz, tão bela, de menino terno e rebelde, acompanhada pelo piano enxuto de João Rebouças: “Ah! Esse cara tem me consumido/A mim e a tudo o que eu quis/Com seus olhinhos infantis/Como os olhos de um bandido”.
“Manhatã” surge coma leveza irônica do compositor, que brinca com os deslumbramentos da pequena parcela, que começava a ascender socialmente e se tornar a classe “emergente”. O gosto adocicado e suave, nesta faixa, supera o desgosto entristecido e consciente, de um artista que se sabe elemento integrante da roda viva do modus vivendi capitalista e aniquilador da verdadeira vida, ou seja, do amor: “”Pobre de mim que vim do seio da burguesia/Sou rico mas não sou mesquinho/Eu também cheiro mal”. O arranjo de João Rebouças, coloca em evidência a assinatura Cazuza, com a levada composta com o descolado e sofisticado swing. Bem aos moldes da consagrada “Bete Balanço”. Inconfundível introdução realizada pelo Fluguel Horn de Paulinho Trompete, marca a entrada para os versos de Cazuza: “Cheguei aqui num pé-de-vento/Já tenho carro e apartamento/Sou brasileiro mandingueiro/Estou aqui pelo dinheiro/ Virei chicano, índio americano/Blusão de couro, os states são meus”.

Entre sístoles e diástoles, “Burguesia” alterna momentos de leveza como em “Manhatã”, com manifestações de contenção extrema, a exemplo da claustrofóbica “Cobaias de Deus”, em parceria com Ângela Rô Rô. “Cobaias de Deus” acena para a referida ambiência, criada pelo poeta Augusto dos Anjos. O poeta autor de “Eu e outras poesias”, representou o mundo revestido de tragédia, cujo niilismo se sobressai na visão despida de qualquer encantamento ou transcendência religiosa. O homem “verme” de Augusto dos Anjos renasce na cosmovisão escatológica que predomina no cenário configurado por Cazuza: “Se você quer saber, como eu me sinto/Vá, á um laboratório, ou num labirinto/Seja atropelado por esse trem da morte/ /Me sinto uma cobaia, um rato enorme/Nas mãos de Deus mulher/ De um Deus de saia/Cagando e andando/Vou ver o et”.

Apesar dos recorrentes mergulhos nos recônditos de ânima sombria, “Burguesia” é um álbum que mira mais em direção a solaridade e a esperança na vida e no amor. Afinal “Tudo é amor/Mesmo se for por carma/Tudo é amor”.

“Burguesia” é lirismo amoroso.

- Comentários sobre o texto  podem ser enviados, diretamente, a danielaaragao75@hotmail.com 


Daniela Aragão,
doutora em Literatura Brasileira, escritora, pesquisadora musical e cantora.
Minas Gerais


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