16/04/2019
Ano 22 - Número 1.121




ARQUIVO DANIELA ARAGÃO


Venha nos
visitar no Facebook



 

Daniela Aragão



O inventário da criação

Daniela Aragão, colunista CooJornal



Desde menina, sou fascinada pelos bastidores que envolvem o universo da criação. Aprendiz de bailarina, postava-me curiosa nas coxias do teatro a observar as bailarinas mais velhas se maquiarem, calçarem suas meias, tutus e sapatilhas de ponta. Inesquecível cena me persegue há mais de três décadas, após um pás dês deux ovacionado por uma plateia em peso, a sílfide bailarina corre para a coxia e derrama sobre seus pés ferventes baldes e mais baldes de água gelada. Um virtuoso violonista me confidenciou que dormia com elásticos entrelaçados em seus dedos, para criar mais abertura entre eles no desempenho dos acordes. Um pianista, muito consagrado, revelou-me que colocava peso sobre suas mãos, para treinar as justaposições entre leveza e densidade. Cedo e com espanto, entrevi por detrás das cortinas o tortuoso processo que submerge nos recônditos do criador.

Entre a aurora e a escuridão, o jornalista e escritor José Castello em “O inventário das sombras”, toca com luvas de pelica nas entranhas da criação de Clarice Lispector, Ana Cristina César, Manoel de Barros, Nelson Rodrigues, Caio Fernando Abreu, Hilda Hilst, entre outros escritores que na atualidade são condecorados como totens.

“O inventário das sombras” é uma obra a qual recorro com frequência, quando desejo me reportar à inquietude que assola o vasto mundo interior dos artífices da palavra. Castello retoma, em narrativas de tom memorialístico arguto, os tempos de juventude, quando se equilibrava na corda bamba, no ofício de jornalista. Uma atitude corajosa de auto desvelamento, que se constrói no processo audacioso de tentativa de desmascarar as personas que revestem as entidades, que se refugiam-camuflam no reino sinuoso da escritura.

Este ano proliferam homenagens a Caio Fernando Abreu, que há duas décadas partiu deixando uma obra que tem sido cada vez mais revisitada por críticos, acadêmicos e atores. Os leitores de Caio certamente identificam a simbiose arte-vida em sua escrita, contudo, talvez pouco saibam sobre a misteriosa travessia do homem-autor. Caio converte-se de escritor negativo a positivo. Se me faço entender, após descobrir-se soropositivo, ele inversamente encontra a leveza e a luminosidade da existência. O outrora ressaqueado sobrevivente, que viveu boa parte de seus quarenta e sete anos de vida enamorado da morte, contemplativo cultivador de atmosferas sombrias e depressivas, torna-se solar entusiasta da vida nos últimos anos que lhe restam.

Castello, no capítulo “O poeta negro”, percorre com delicadeza analítica o caminho existencial e criativo de Caio Fernando e elucida a fragilidade das linhas, que entrelaçam e embolam o novelo da vida e da arte: “O vínculo entre esses dois Caios, o saudável e o negativo de um lado, o doente e passivo do outro, vem reafirmar que as relações entre vida e morte, assim como entre vida e literatura, mesmo estando sempre a agir, não guardam as proporções mecânicas que, por desleixo intelectual, por preguiça, lhe emprestamos. Esses laços são irregulares, e a ficção pode apontar exatamente o contrário do que se passa na vida, o que não significa dizer que o vínculo foi desfeito”.

Nelson Rodrigues, o anjo pornográfico tão bem delineado na biografia de Rui Castro, nas palavras de Castello é despido em sua natureza de homem solitário. É com a crueza e arrependimento da maturidade, que o escritor-jornalista retoma sua própria persona inocente e por vezes arrogante, que não foi capaz de compreender a grandeza do humano que submergia ao “depravado” Nelson: “Naquela noite, meditando no escuro, comecei a refletir sobre a imensa solidão de Nelson Rodrigues. Esse era um aspecto que me escapara por completo em minha reportagem. Toda a minha suposta sensibilidade de repórter, minha capacidade de formular boas perguntas e de saber ouvir as respostas adequadas e em seguida retirar delas novas perguntas ainda mais pertinentes, tudo isso, agora, começava a desmoronar. Eu agira às cegas: estivera cinco vezes com o dramaturgo Nelson Rodrigues, e a sua paciência me envaidecera, mas fora incapaz de estar com o homem chamado Nelson, e ele, agora, sem ter a intenção, vinha denunciar essa falha. A solidão de Nelson Rodrigues, seu isolamento trágico do mundo que nos cercava me escaparam”.

Castello tenta passar a limpo o irremediável, ao agachar-se com humildade e reverência diante de esfinges. Reconhece o exercício inútil, tentar reunir peças dispersas de complexos quebra-cabeças, composto de emaranhados de impressões, que fomentaram seu imaginário sobre os escritores. A dicotomia aparência/essência, contribuiu para que o jovem jornalista criasse em sua mente ideais de humanos, que correspondiam apenas a sua fantasia especular das narrativas lidas. Nelson Rodrigues, com seu conhecimento denso e perturbador, das torpezas e desejos de indivíduos repletos de conflitos, era no fundo um homem gentil e solitário, oprimido no sufocamento do cotidiano banal. Não por acaso, Nelson deixou como conselho “Aos jovens, que envelheçam.”

- Comentários sobre o texto  podem ser enviados, diretamente, a danielaaragao75@hotmail.com 


Daniela Aragão,
doutora em Literatura Brasileira, escritora, pesquisadora musical e cantora.
Minas Gerais


Direitos Reservados
É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor.