15/04/2017
Ano 20 - Número 1.025





ARQUIVO
EDUARDO FARES
 

Venha nos
visitar no Facebook

 

 

Eduardo Fares



A TÊNUE LINHA DO EQUILÍBRIO


 

Até a noite daquela sexta-feira Paulo Emílio era considerado um rapaz normal. Teve seus momentos não muito edificantes, é verdade, mas quem de nós não os teve? Nos seus trinta e dois anos de vida, existiram alguns atropelos, como a separação dolorosa (coisa de casal incompatível), a briga com o Marquinho na saída da escola (coisa de adolescente), o tombo da árvore ao roubar jabuticabas no vizinho (coisa de criança) e a manguaça no dia da formatura, quando se sentou na porta da igreja e mandou palavrões pra todo mundo que passava (coisa de embriaguez juvenil). Mas, tirante estas manifestações pontuais, sempre foi querido pelos amigos, responsável no emprego e bem considerado na comunidade.

Por estes motivos, ficaram todos muito surpresos com seu abrupto comportamento na manhã de sábado.

Sua mãe acabou confessando depois, que durante a noite escutou alguns urros e palavras desconexas vindos do quarto dele, mas atribuiu a pesadelos. Ao alvorecer, ela o viu vestindo uma camisa social branca, que foi abotoada até o pescoço, a calça marrom que ele detestava e calçando o sapato preto. Assustou-se mais ainda, quando Paulo Emilio entrou em seu quarto, ainda meio escuro pela hora, e pegou um paletó verde no guarda-roupa de seu pai. Não estranhou que as mangas ficassem curtas, consequência óbvia, considerando a diferença de tamanho entre os dois. A última coisa que percebeu é que ele colocou debaixo do braço o caderno grosso de receitas, aquele espiral de duzentas folhas, já desbeiçado pelo tempo.

Dona Norma acabara de acordar e não gostou nada de ouvir a campainha ser tocada insistentemente, ainda tão cedo. Ficou cismada quando abriu a porta e viu o Paulo Emílio, com os olhos esbugalhados e aquela roupa esquisita.

- “Posso falar com a senhora? Sou da Comunidade Cívica Devotos da Brasilidade. Nosso propósito é criar uma nova Constituição para o Brasil. Ela só terá dez artigos; pétreos todos eles.”

Dona Norma ouvia boquiaberta, sem entender patavina do que se tratava, enquanto ele ia mandando brasa nos artigos da nova Constituição:

“1º-Todos os campos de futebol serão asfaltados. 2º- Fica proibido esfregar roupas com caroço de manga. 3º- Será instituído, em 23 de fevereiro, o dia da colher de plástico. 4º- Todas as formigas de olhos verdes serão consideradas patrimônio nacional. 5º- Fica proibido olhar para as nuvens após as 16 horas.

Ele falava sem parar, com o caderno solenemente aberto nas páginas que exibiam receitas de bolinho de feijão e canja de galinha para resguardo.

“6º- A depilação só será permitida em uma sobrancelha. 7º- Será multado quem jogar cascas de camarão nas calçadas. 8º- Toda cidade deverá ter uma estátua em homenagem aos urubus. 9º- As televisões deverão ser desligadas, diariamente, no período entre 20h16 e 23h54. 10º”- Revogam-se as disposições em contrário.”

Quando a ambulância do hospital psiquiátrico chegou, Paulo Emílio já havia declarado os novos preceitos constitucionais em mais de quarenta e cinco casas do bairro, deixando para trás um rastro enorme de “cruz credo”, “ Deus defenda” e “exorciza ele”.


Mensagens sobre o texto podem ser enviadas ao autor no email eduardojjfares@gmail.com

 


(15 de abril/2017)
CooJornal nº 1.025



Eduardo Fares
MG



Direitos Reservados