01//05/2019
Ano 22 - Número 1.123






ARQUIVO
EDUARDO FARES
 

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Eduardo Fares



CRÔNICAS DE CASAMENTO
(primeira)

Tudo começou com um lenço caído ao chão. Antenor se abaixou, apanhou o objeto e apressou o passo até encontrar a senhorita que o perdeu. Tudo bem, dirão vocês, já vi isto em dezenas de filmes. A bem da verdade, eu também. Só que neste caso a cena foi real. Quando a abordou e vislumbrou aqueles olhos verdes, a luminosidade que emitiam, ele apatetou-se e não encontrou palavras para justificar o encontro proposital. Margarida já se preparava para dar uma chamada no atrevido, mesmo que tivesse se simpatizado com sua fisionomia, quando Antenor conseguiu balbuciar uma frase conexa:

– Se... se... seu lenço.

Salvou-se por pouco. Ela, séria como convinha à época, agradeceu comedidamente e seguiu seu caminho.

Esta foi a primeira vez que se viram.

Dois meses se passaram até que o destino começasse a fazer o que mais lhe apetece: manipular vidas. O colégio no qual Margarida dava aulas ganhou um terreno contíguo para construir um anexo. Antenor, na função de escrivão do único cartório da cidade, foi escalado para providenciar a documentação.

Margarida, substituta da diretora que viajava, ficou encarregada de receber o funcionário e representar a escola. Obviamente se reconheceram, porque o primeiro encontro foi muito intenso. Transitaram por ali, no gabinete, selecionando papéis e providenciando assinaturas. Os olhares eram furtivos. Observavam-se discretamente, com aquela curiosidade de alguém que percebe do outro lado algo que fará parte importante em sua vida.

O namoro e o noivado foram restritos como havia de ser nos idos de 1940, desprovidos de intimidades e respeitando protocolos rígidos. Casados, foram sedimentar o futuro. Era de se admirar o companheirismo daqueles dois. Invejável a maneira que se tratavam, o carinho que emanava em cada palavra, em cada gesto. A prioridade de um parecia ser a felicidade do outro. Nem mesmo quando vieram os dois filhos esta máxima deixou de prevalecer. Primeiro se atendiam e posteriormente se doavam aos outros. Isto, para alguns, pode denotar desamor pelas crias e pouco caso com os demais, porém este lema possibilitou que vivessem um matrimônio que desconheceu desavenças. Os filhos reconheciam e admiravam esta maneira harmônica de viver, mesmo sendo relegados a segundo plano.

Os anos foram dando cambalhotas na ampulheta da vida. Continuaram a sair de mãos dadas para a padaria. Nas noites de frio, um acordava para recobrir o outro e ela sempre assistia às novelas com a cabeça recostada no ombro do marido. Nas bodas de prata, um dos filhos já apresentou neto. Nos trinta anos de casados, puderam contar três netos. Assim, sem maiores sobressaltos, comemoraram os quarenta e cinquenta anos de casados.

Nesta ocasião, uma dúvida existencial começou a perturbar os pensamentos de Margarida: “Não conheço nenhum casal que tenha uma vida inteira sem passar por dificuldades. Aliás, não conheço ninguém que tenha vivido tanto como nós, gozando somente de alegrias. Será que teremos que pagar por isto? Será que a vida nos exigirá alguma contrapartida?” Comentou com Antenor seus temores.

Ele tentou livrá-la desta onda pessimista:

– Não se preocupe com estas bobagens. Nós fizemos por merecer a vida que temos. – Mesmo negando, ficou patente que a indagação o deixou apreensivo.

Margarida, deste dia em diante, passou a dividir suas horas de amenidades com momentos de sofrimento mental. Tanto exercitou o hábito de cultivar estas ideias negativas, que um dia colheu a dúvida final: “Qual de nós morrerá primeiro?” As reflexões sobre este tema foram se avolumando em seu cotidiano. O realismo desta situação imaginária causava-lhe tanta dor que interferia em todos os seus sentidos, a ponto dela gemer durante os pesadelos. “E se ele morresse primeiro? Meu Deus, eu não suportaria uma dia sequer sem sua presença. E se fosse eu a ir embora? Quem cuidará de meu marido? Ninguém saberá atender as necessidades dele!“

Vê-se aqui, nesta convivência, pseudos malefícios do excesso de felicidade. Não seremos nós programados para usufruir de uma vida plena de gozos e alegrias? Que estranhos casuísmos colaboram para dar finitude a nossos bons momentos? Conspiram, por acaso, os vizinhos infelizes para destruir as realizações alheias? Se é difícil de concluir, pior é assistir a infelicidade tentar, ferreamente, violentar a paz e a alegria daquela casa.

O primeiro a ser convidado por um dos filhos foi o pároco da região. Fez ele uma bela explanação sobre os desígnios de Deus, dando ênfase à bondade divina. Citou Santo Agostinho, que chamava a atenção para o medo infundado de acontecimentos futuros. Benzeu o casal, a casa e se foi. Pouco progresso resultou desta visita.

O segundo filho trouxe um psicólogo amigo de um amigo. Fez este muitas perguntas ao casal, notadamente sobre a infância. Com má vontade evidente, responderam algumas. Contou-lhes uma bela estória sobre o otimista e o pessimista. Enfatizou a necessidade de lutar contra os maus pensamentos, não deixar que assumam porte de realidade, quando, na verdade, são apenas centelhas de abstrações. Disse ao filho que necessitaria de algumas sessões para atingir o cerne do problema.

Margarida mesclava momentos de aparente tranquilidade com surtos medonhos, durante os quais dava berros, empurrava o marido e depois se entregava ao mutismo total. Antenor desdobrava-se em carinhos e gentilezas, atribuindo a si próprio alguma culpa desconhecida pelo abatimento da esposa. Mesmo assim, segurava-lhe as mãos, dava beijos e fazia carinhos. Morria um pouco a cada dia, vendo-a sofrer de forma tão surreal.

Quero poupá-los do desfecho desta tragédia. Deixarei que cada um decida o desenlace da vida destes dois seres que se amaram acima de tudo.

De minha parte, vivo a conjeturar se não merece a instituição casamento um convívio infinito e repleto de harmoniosa convivência. Será que é necessária uma pitada de sofrimento, um fundinho de desavença entremeando o cotidiano, para nos lembrar que não passamos de meros mortais? Caminho pelas praças a contar o número de casais idosos que ainda passeiam de mãos dadas. Posso afirmar, com profundo pesar, que são poucos, muito poucos. Infelizmente.

 



Eduardo Fares (i.m)
MG



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