15/08/2017
Ano 20 - Número 1.0413





ARQUIVO
EDUARDO FARES
 

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Eduardo Fares




COMPADRES


 



Os casais Ana/Nicolau e Lucia/Antonio nasceram naquela pequena e isolada cidadezinha, que pequena e isolada permaneceu através dos anos. Brincaram na mesma rua estreita, estudaram na mesma escola rural e se casaram na mesma capela. Compartilharam todos os acontecimentos que o marasmo permitiu ocorrer naquele ermo lugarejo. Depois de casados, tornaram-se compadres e consolidaram a amizade que o destino enunciou.

Certo dia, Nicolau recebeu convite de um tio para morar no Rio de Janeiro. Iria ajudá-lo na administração da rede de padarias. Receosos pelo absoluto desconhecimento da vida atribulada de uma grande cidade relutaram em aceitar. O tio insistiu, porque precisava de alguém de confiança. Estava cansado de ser ludibriado por funcionários inescrupulosos. Mesmo tomados por medo natural, resolveram aceitar. Partiram...
  
Passaram-se os anos, preenchidos por cartas e telefonemas poucos.
  
Nicolau satisfez as necessidades do tio e tornou-se gerente geral de todas as atividades do conglomerado. Antes de falecer, o tio o transformou em sócio, como prêmio pela inestimável ajuda. Melhoraram muito de vida e souberam aproveitar as benesses que o dinheiro pode proporcionar. Continuavam a trocar correspondências com os compadres que permaneceram na roça. Ao lerem carta recebida de Lucia/Antonio, pensaram quase simultaneamente em convidar os dois para passarem uns dias na cidade grande. Riram muito ao pensar nas caras de surpresa e  nos sobressaltos que os dois teriam diante de tantas novidades . Claro que este gesto tinha embutido em si uma certa dose de sadismo. Mesmo amando os compadres, não iriam perder a chance de se divertirem com o “caipirismo” dos dois. Fizeram os convites e fizeram questão também de arcar com todos os custos da viagem.

O ônibus encostou no local devido e os dois matutos foram os últimos a descer. Abraços e mais abraços. Comentários esperados, tais como “quantos ônibus”, que tantão de carro”. Seguiram para o apartamento dos anfitriões, ouvindo “Oh!” durante todo o percurso. A viagem quase ficou prejudicada, porque Lucia/Antonio se recusavam a entrar no elevador panorâmico. Tremiam como se estivessem diante de uma onça feroz. Ana/Nicolau se divertiam a valer, a cada presepada dos dois. Durante a noite o casal fazia planos de passeios que pudessem deixar os visitantes abismados ou boquiabertos.  Embora gostassem dos compadres, estavam se divertindo muito com o desconforto que sentiam. No dia seguinte, o desespero foi a situação constante durante todo a manhã. Subiram ao Cristo Redentor porque a fé foi mais forte que o medo. Mas foi só. No bondinho do Pão de Açucar não quiseram nem chegar perto. Na ida e na volta, Lúcia atravessou a ponte Rio-Niterói com os olhos fechados e o rosto coberto por duas mãos.
   
Chegando em casa, Ana/Nicolau descobriram uma nova maneira de se divertirem às custas dos inocentes. Programaram uma partida de buraco bem longa, valendo dez mil pontos, quando poderiam dar uma surra inesquecível nos dois incautos. Desafio feito, foi aceito até com certa euforia por Lucia/Antonio.
  
Iniciado o jogo, os dois roceiros arrumaram uma tamanha conversação que chegou a incomodar os anfitriões. “Sabe D. Clotilde, mulher do Orozimbo? Morreu.”  “ Lembra do Nhô Chico? Ficou tuberculoso.”  “Sabe aquele cavalo de estimação do Seu Roberto? Foi atropelado lá na ponte.” “ Foi na ponte não, Lucia, foi no brejinho.”

E as cartas correndo soltas na mesa. Terminada a primeira rodada, o placar mostrava 1.890 a 75 para os caipiras.  A segunda rodada já indicava a balaiada: 4.300 a 470.  E a conversa comia desembalada. “Lembra de Dona Matilde, que fazia tapetes?  “Fazia tapete só não, muié. Fazia bolsa também.” Resultado final da partida: 10.530 a 840.
  
Os dois “civilizados”, “aculturados”, não entendiam o acontecido. Como foi possível tomarem uma lambada destas dos dois matutos? Inexplicável! Foram dormir contrariados.
  
Lucia e Antonio, por sua vez, estavam felizes. Sentiam-se vingados de todos os apertos que passaram naquela cidade maluca.
  
“Benhê, eles nem desconfiaram que nos usamos os nomes das pessoas e lugares, para mostrar as cartas que nós precisávamos. Cada vez que você me falava um código da carta que você queria, eu pensava: eles vão desconfiar”.



Mensagens sobre os textos podem ser enviadas ao autor no email eduardojjfares@gmail.com

 
(15 agosto/2017)
CooJornal nº 1.041



Eduardo Fares
MG



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