15/03/2017
Ano 20 - Número 1.021





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EDUARDO FARES
 

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Eduardo Fares



VIDA REVERSA


 

 

“Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura.”
Friedrich Nietzsche


Quando perderam os pais, Alzira já era adulta e André pouco havia passado dos cinco anos. Não foi necessária nenhuma ingerência externa para que ela assumisse prontamente seu papel de mãe postiça. Gradativamente o namorado foi se tornando secundário e as amigas foram perdendo importância na mesma proporção que André ganhava espaço. Circunstâncias que inicialmente pareciam sacrificantes viraram corriqueiras. Continuou a dar aulas, mas conseguiu vaga no anexo para o filho-irmão. Até as mais comuns atividades só eram feitas na companhia do menino. Como era de se esperar, André esbaldou-se na cômoda vida que o excesso de zelo permitia. Fazia suas traquinagens ciente que a mãe-irmã iria perdoá-lo. Alzira, por seu lado, foi descobrindo paulatinamente os truques que o garoto utilizava para conseguir seu perdão. O mais usado era chegar caladinho e deitar a cabeça em seu colo. Ela dizia com ar de reprovação: "Fez arte lá fora, né Dézinho?" Ele dava alguns muxoxos sabendo que logo tudo seria esquecido. Quando vizinhos vinham reclamar de uma janela quebrada, ela prometia castigá-lo severamente, mas ambos que haviam passado pelo ritual da cabeça no colo, sabiam que o castigo seguiria promessa enquanto o perdão já era fato. Os anos foram se sucedendo e até os treze ou quatorze anos, André cultivou o hábito de correr para casa antes da notícia ruim e deitar a cabeça no colo. "Dézinho, fez arte de novo, né Dézinho! Desta vez não tem perdão!" Pura encenação daquele coração amolecido...

Recentemente, no reverso da vida, André cuida da loja de calçados que instalou na frente da moradia. Abriu uma porta na parede dos fundos e dali vê a irmã na cadeira de balanço. Várias vezes por dia abandona a loja e vai até a sala contigua verificar se ela precisa de algo. Alzira sofre do mal de Alzheimer e os momentos de lucidez são quase inexistentes. Dézinho chega de mansinho e acaricia seus cabelos, como um pai-irmão repleto de doçura e responsabilidades. A ausência mental da filha-irmã causa muita tristeza, mas ele procura resignação nas lembranças que a convivência proporcionou. Vez por outra deita a cabeça em seu colo na esperança que ela pergunte: " Dézinho, fez arte de novo?" Mas ela mantém o silêncio e aquele olhar vazio que o deixa repleto de sofrida solidão. Seu maior consolo é pensar que sendo bem mais novo, sempre estará por perto. Isto significa que ela nunca precisará ir para algum asilo, nem ser cuidada por terceiros correndo risco de maus tratos e negligências. Os dias se sucedem enquanto ela vai se exaurindo fisicamente naquela penumbra mental, impenetrável e inexplicável. Certa noite, depois de fechada a loja, André dedicou-se como de hábito a preparar a alimentação da filha-irmã. Serviu, como sempre fazia, dando-lhe na boca as colheradas e limpando o queixo escorrido. Carinhosamente acomodou sua cabeça no encosto da cadeira antes de ir tomar banho. Enquanto a água quente descia pelo corpo, sentiu um aperto acima do estômago, que foi subindo pelo peito e atravessou o pescoço até a ponta do queixo. Nem fechou o chuveiro. Saiu nu, cambaleante, zonzo em direção ao local onde estava a mãe-irmã. O medo era muito maior que a insuportável dor.

Os vizinhos repararam que a loja de calçados não foi aberta como de costume. Estranharam o silêncio advindo da casa.

Arrombado o imóvel, lá estava Alzira na cadeira de balanço. André, nu, enrijecido, com a cabeça em seu colo...

" Dézinho fez arte outra vez. Dézinho fez arte outra vez-" - repetia ela, naquela cadência mórbida e constante.



(15 de março/2017)
CooJornal nº 1.021






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