15/11/2017
Ano 21 - Número 1.053





ARQUIVO
EDUARDO FARES
 

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Eduardo Fares




ASILO
(ONDE NINGUÉM ACREDITA QUE VÁ MORAR)


 



Valda estava apreensiva ao se locomover rumo ao primeiro dia de trabalho no Asilo Bom Pastor. Ansiava por esta vaga já alguns meses. Não teve a oportunidade de conhecer o sistema de trabalho com antecedência, nem tampouco pôde se familiarizar com os moradores. Foi tudo muito repentino. Vinha andando e pensando nos comentários que ouvira de diversas pessoas. Uns diziam que lá só moravam malucos. Alguns afirmavam que os moradores eram muito agressivos. Outros citavam exemplos de velhinhos que tinham uma cultura invejável. Tudo isto aguçava a curiosidade de Valda.

Chegou ao portão, tocou a campainha e teve que aguardar bons minutos até que viessem recebê-la. Lá do fundo surgiu uma senhora com a cabeça coberta por um tecido colorido e um pano de prato pendurado no ombro direito. Apresentou-se como a nova funcionária e foi atendida com uma simpatia radiante:

- Meu nome é Valda, mas todos me conhecem como Zoca.

- Prazer, o meu é Conceição, mas todos me conhecem como Conceição mesmo - brincou. - Já não era sem tempo! Entre, estávamos esperando por você. Seja bem vinda.

Valda foi se inteirando do ambiente. Notou uma rede colocada à esquerda, numa espécie de varanda, onde também se encontravam duas cadeiras de balanço. O chão estava reluzente, sinal que a limpeza era feita com cuidado.

Repentinamente surgiu de uma porta aberta, uma velhinha que se agarrou à roupa de Valda e repetiu incansavelmente:

- Não deixe ela tomar minha filha. Por favor, faça esta caridade.

Conceição balançou a cabeça num gesto de quem exala toda paciência do mundo e sussurrou para a novata: “é a boneca dela, se não tomarmos vez em quando ela nem almoça, toma banho ou faz qualquer atividade.“

Gradativamente a novata foi se entrosando e conhecendo os meandros do serviço. Assim como alguns outros funcionários, ela não tinha dever específico. Exerciam o que era solicitado: uma hora na limpeza, outra na cozinha e outra mais no atendimento direto aos internos.

Eles eram vinte moradores no total.

Vou tentar me lembrar de alguns...

Aquela que implorava para que não lhe tomassem a filha, era a Nazaré. Estava locada no asilo desde quando ele ainda ficava na casa velha. A filha a internou, veio visitá-la umas duas vezes e nunca mais voltou. Talvez este abandono seja causa do exagerado apego à boneca, a quem ela chama de filha.

Mora lá também, a Donata. Esta tem gênio difícil, reclama de tudo: a comida está quente, a comida está fria. O colchão é muito mole, o colchão é tão duro que machuca os ossos. A Nazaré fica me olhando o tempo todo, a Nazaré me ignora.

O Pedrinho, assim carinhosamente chamado, apesar dos mais de oitenta anos é o sobressalto em pessoa. Quando cisma tira toda a roupa e não tem o menor constrangimento em desfilar nu pelo pátio. Se encontrar o portão aberto se manda imediatamente. A atenção tem que ser redobrada quando vêm entregar o gás ou alguma medicação. Antes de abrir o portão é preciso verificar se ele não está por perto, porque ao menor descuido ele se escafede para a rua.

A Mariana é a expressão da gentileza. Chama a todas de querida, gosta de fazer carinhos e vive a se importar com as funcionárias:

- Querida, você está com a carinha triste hoje. Não fique assim, vai passar.

Dias há em que ela acerta na mosca o estado de espírito de algumas. Realmente a pessoa a quem ela se refere está passando por algum momento desagradável ou relativamente difícil. Todas gostam muito dela, por este temperamento ameno e cordial.

A Rosinha vive a cantar. Canta com voz de soprano músicas antigas e saudosistas. Seu único inconveniente é quando resolve soltar a voz durante a madrugada afora.

O mais típico e excêntrico de todos é o Carlos, que gosta de ser chamado de Charles. É profundamente apaixonado pela língua francesa e se veste com um paletó já esgarçado pelo tempo e não abre mão da gravatinha borboleta. Quando Zoca chega cedo para trabalhar e o encontra comenta:

- Já de pé, Seu Charles ? E ele responde:

- Le monde appartient à ceux qui se lèvent tôt.  O mundo pertence àqueles que se levantam cedo).

Quando alguém comenta que ele comeu pouco e vai ficar fraco, a resposta vem em francês:

- Il faut manger pour vivre et non pas vivre pour manger. (Deve-se comer para viver e não viver para comer).

Entre estes e outros tipos Zoca vai exercendo seu ofício. Ela se sente útil e gosta do que faz.

Um dia Nazaré acordou e não deu bola para a boneca. Tomou café e nem perguntou por ela, a quem chamava de filha. Passou o dia sentada na cadeira de balanço, absorta, completamente desligada do entorno. Tentaram entregar-lhe a filha e ela a deixou caída no chão. Não respondia às tentativas de conversa e tinha o olhar perdido no infinito.

No final da tarde alguém se deu conta que ela havia falecido. Sem um gemido, sem uma reclamação, como se o pavio de sua vela houvesse sido extinto por absoluto fim de curso.

Ninguém conseguiu falar com a filha. No telefone de referência que ela havia deixado ninguém a conhecia.

Colocaram o caixão de Nazaré em uma mesa improvisada, no local que chamavam de capela. Ali ela foi velada pelos funcionários e alguns internos que se importaram ou tiveram a curiosidade de passar por lá. O enterro foi num jazigo pertencente ao asilo.

Da filha não tiveram noticias e acreditam até hoje que ela nem saiba que a mãe já não pertence a esta existência.


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(15 de novembro/2017)
CooJornal nº 1.053



Eduardo Fares
MG



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