15//04/2018
Ano 21 - Número 1.073





ARQUIVO
EDUARDO FARES
 

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Eduardo Fares




O SÓSIA


 

A perspectiva da viagem deixava Adilson angustiado. Tratar-se da doença progressiva que ataca sua coluna cervical tirando-lhe a mobilidade, não era o motivo desta inquietude. Esta era até uma alternativa que, caso desse certo, iria livrá-lo da temida cirurgia. O que o afligia era a necessidade de ficar em São Paulo por tanto tempo. Além de não conhecer a cidade, sair de sua rotina consolidada ao longo de sessenta e um anos era a razão do descontentamento. Sabia, entretanto, que não lhe restava recurso. Embarcou, afinal.

O hospital ficava na Avenida Paulista. Indicaram-lhe um hotel na Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, uma das transversais da Paulista. Assim sendo, fazia a pé o trajeto entre um e outro. A região é repleta de restaurantes, de tal forma que, neste pequeno circuito, ele supria todas as suas necessidades. Acordava, tomava o café da manhã, assistia ao jornal televisivo e se deslocava para o hospital. Lá fazia seu tratamento experimental e, no trajeto de volta, já parava em dos muitos restaurantes para o almoço. No hotel, descansava por umas duas horas e retornava ao hospital para a segunda sessão diária de tratamento. No retorno, já entrando na noite, parava em algum outro restaurante onde jantava. Após três dias já se acostumara plenamente.

Saiu do hospital e veio andando naquela calçada larga e repleta de pessoas. No primeiro cruzamento, parou à beira da faixa para pedestres, rodeado de muita gente, à espera que a sinalização autorizasse a travessia. Do outro lado,vindo em sentido contrário,um grande grupo também aguardava liberação para travessia. Repentinamente Adilson viu um rosto que lhe pareceu familiar. Não foi possível identificar prontamente, porque o sinal abriu e os grupos avançaram rapidamente rumo a seu destino. Ao se cruzarem, no curso da travessia, Adilson teve uma visão inesperada. O rosto que ele havia visto rapidamente era o dele mesmo, quando tinha vinte e poucos anos. Ficou estático por segundos, até que resolveu retornar e visualizar melhor o rapaz. Não foi possível, porque o semáforo abriu para os veículos e ele teve que saltar para a calçada. De lá, ficou tentando seguir com o olhar, até que os carros parassem e ele pudesse correr atrás do individuo. Demorou, porque o fluxo era grande. Quando foi possível, saiu correndo e procurando nas farmácias, lojas de roupas e outras, a ver se o encontrava. Andou por três quadras, atento às fisionomias, mas foi em vão. Provavelmente o rapaz adentrou algum prédio de escritórios, que ali abundavam. Restou-lhe a lembrança daquela imagem que nitidamente se assemelhava à sua própria imagem, quando tinha aquela idade.

Dois dias após, ao sentar-se em um restaurante que ainda não havia visitado, deu de cara com o rapaz almoçando calmamente, em uma mesa próxima à sua. Pode então confirmar com exatidão a semelhança entre eles. Ficou inerte a prestar atenção e se surpreendeu a cada atitude.

Quando o moço enfiou o dedo indicador nos cabelos da nuca e ficou a enrolá-los num movimento involuntário, lembrou de si próprio que tinha esta mesma mania. No dorso da mão do sósia existia uma mancha grande, coberta por um tufo de cabelos, mancha esta de nascença que ele ainda tinha em sua mão direita. Ficou ainda mais perplexo, quando o rapaz terminou a refeição e esticou as duas pernas por baixo da mesa e cruzou as duas mãos acima da cabeça. Era exatamente sua atitude quando terminava uma refeição e assim agia como se estivesse a se espreguiçar de contentamento. Sua mente divagava em busca de uma explicação plausível. Nunca havia vindo a São Paulo. Ali não tinha parentes. Nunca teve nenhum caso extraconjugal que pudesse gerar um filho desconhecido. Sentia-se impressionado, mas sem coragem de se aproximar e travar conversa com o indivíduo. Pelo grau de intimidade com os garçons e o proprietário, deduziu que ali era onde ele fazia suas refeições. Começou também a se alimentar ali. Esperava na rua que o jovem aparecesse e então escolhia uma mesa estrategicamente localizada, de tal forma que pudesse observá-lo sem ser notado. Esta decisão só serviu para dar-lhe mais coincidências entre os dois. Percebeu que o rapaz mastigava infinitas vezes cada garfada, exatamente como ele. Notou que eles gostavam de suco de morango e, ambos o adoçavam antes de consumir. A repetição de fatos e atitudes, comuns aos dois, se somavam a cada dia. Só não surgia nenhuma explicação lógica para este somatório de afinidades.

O tratamento de Adilson se aproximava do final. Diante desta premência resolveu aproximar-se do jovem e expor toda a angustia dos últimos dias. Para sua agradável surpresa, a conversa foi amena e ficaram horas citando coincidências e buscando algum elo que lhes desse esta gama tão grande de características iguais. Reencontraram-se várias vezes, mas nenhuma explicação plausível surgiu.

Adilson retornou a Belo Horizonte, deixando lá um novo amigo. Até hoje se comunicam e até hoje encontram novas afinidades. Só não encontram nenhuma definição sobre este fenômeno existencial que os acomete..

 


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Mensagens sobre os textos podem ser enviadas ao autor no email eduardojjfares@gmail.com

 



Eduardo Fares
MG



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