16//06/2018
Ano 21 - Número 1.081





ARQUIVO
EDUARDO FARES
 

Venha nos
visitar no Facebook

 

 

Eduardo Fares



O SUICÍDIO DE SEU CLOVIS

O bairro era pacato. Poder-se-ia dizer também, que era bem horizontal. Poucos prédios existiam na região. Quase todas as ruas eram calçadas com paralelepípedos. Duas ruas principais davam ares de cidade grande: aquela que era chamada de Avenida, simplesmente porque tinha um canteiro no meio e a outra, situada umas doze quadras à direita. Nesta última prevalecia o comércio local. Ali se situavam o açougue, a padaria, a mercearia e demais ramos de atividade.

Seu Clovis era filho de um antigo sargento da policia militar, já falecido, que havia construído a casa que ele herdara, embora não fosse filho único. Ele tinha uma irmã que se casou muito nova com um sírio, converteu-se ao islamismo, para a Síria se mudou e nunca mais deu as caras. Era uma casa considerada boa para os padrões de época. Tinha um muro baixinho na frente que dava acesso a um jardim pré-construído, uma varanda pequena com a porta principal, a janela da sala e uma entrada lateral.

Seu Clovis, antes de casar com D. Marilda, tentou várias profissões. Na polícia não conseguiu entrar, embora tenha tentado várias vezes. Começou um curso de torneiro mecânico que foi abandonado logo no início. Interessou-se pela profissão de motorista, mas não passou nem no psicotécnico. Por fim, arrumou emprego de ajudante em uma oficina de conserto de bicicletas e por lá ficou. Quando o dono faleceu e a viúva não mostrou vontade de dar prosseguimento ao comércio, acabou por comprar-lhe a loja, em suaves prestações mensais. Teve dois filhos: a Creuza e o Clovis Júnior, que era chamado carinhosamente pelos amigos de Clovinho.

Seu Clovis tinha um defeito realmente marcante em sua vida: a bebida. Bebia desbragadamente. Sete horas quando se deslocava para a oficina, já parava no bar do Baiano e bebia um copo de cachaça na risca. No trabalho, ao término de cada conserto, virava mais uma dose. O fato é que, ao final do dia, já estava “pronto”. Voltava então para casa, cambaleando, e não raro deitava no passeio onde cochilava até tomar pé da situação. Vivia nestas condições e a elas já se acostumara. A filha, Creuza, não falava com ele desde que se tornou adolescente. Tinha vergonha das inúmeras ocasiões em que o pai estragou momentos para ela importantes. O Clovinho, este não se abalava. Vezes havia em que ajudava o pai a encontrar o caminho de casa, vezes havia que falava com os amigos: “o velho já deitou no caminho de novo”, e passava direto para o campo de futebol.

Um fato ocorrido mudou a maneira de Seu Clovis encarar a vida. Numa das passadas pelo bar do Baiano, insistiu em beber uma copada de pinga. O dono do bar, vendo o estado de embriaguês em que ele se encontrava, negou-se a fornecer. Tiveram uma breve discussão, durante a qual Seu Clovis falou algum impropério. O Baiano, sangue quente, deu-lhe um tapa na cara. Este momento foi extremamente marcante para sua “dignidade”. Ficou dias repetindo a quem quisesse ouvir: “Tapa na cara, não. Na cara de homem, a gente dá murro e até tiro, mas tapa de mão aberta, não. Isto é muita humilhação”. Reclamava, mas no dia seguinte já estava de volta ao boteco, mandando bala na cachaçada. A esta reclamação agregou um novo bordão: “Vou me suicidar”. Dizia isto quando já estava de cuca cheia e seguia para casa. A meninada o acompanhava, inclusive o Clovinho, e esclarecia para os curiosos: Seu Clovis vai se suicidar”. “É verdade, completava o Clovinho, meu pai vai se suicidar”. Pelo caminho ele sentava no passeio e tirava o costumeiro cochilo. A garotada então se dispersava. Quando melhorava do porre, era muito criticado por este falso ameaço.

Certo dia, contrariado por qualquer motivo, falou na porta da oficina: “Hoje eu vou me suicidar de verdade”. Não se sabe se foi por causa da entonação de voz, ou por ele não estar tão embriagado como de costume, é fato que formou-se uma verdadeira multidão. E eles o seguiram ruas afora. Não parou para deitar no meio-fio e seguiu decidido em direção à sua casa. Inflava o peito e repetia sempre: “Vou me suicidar, hoje eu morro de vez”.

Chegando lá, abriu o portãozinho que dava para o jardim. Todos observando no mais absoluto silêncio. Atravessou a varanda e entrou porta adentro. Somente cochichos eram perceptíveis na rua. Eis que surge “Seu Clovis” na janela da sala. Colocou uma cadeira, por onde subiu até alcançar o parapeito da janela. Lá ele subiu e proferiu estas simbólicas palavras: “Este mundo não me merece!”. Dito isto, pulou rumo ao jardim.

Acontece que a janela não tinha mais que metro e meio de altura e ele caiu de pé, para desengano de todos os presentes.

Neste momento, estava chegando em casa D.  Marilda, que o pegou pelas orelhas e o arrastou, dizendo: “Vai dormir, seu cachaceiro“.

 


_________________________

Mensagens sobre os textos podem ser enviadas ao autor no email eduardojjfares@gmail.com

 



Eduardo Fares
MG



Direitos Reservados