15/10/2017
Ano 20 - Número 1.049





ARQUIVO
EDUARDO FARES
 

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Eduardo Fares




VIAGEM IMAGINÁRIA A UMA TRIBO INDÍGENA


 

Depois de quase uma vida inteira acalentando este sonho, estava próximo de vê-lo realizado. O difícil era conter a ansiedade. O veículo transitava com cuidado na estrada empoeirada e repleta de buracos. O motorista avisou que em trinta minutos, no máximo, estaríamos adentrando na aldeia. Um turbilhão de pensamentos se atropelava em meu cérebro e eu tentava imputar-lhes um pouco de disciplina, já que a euforia era gigantesca. Sonhei décadas com o momento em que poderia visitar uma aldeia indígena. Agora iria não só conhecer, mas conviver por um mês com uma tribo que mantinha suas tradições seculares.

O Jeep contornou a ocara, que é a praça no centro da taba. Parou frente à maior de todas as malocas.

Um tipo comum, mas imponente pelo olhar severo e provido de significados, estava de pé junto à entrada. Seus braços cruzados no peito denotavam altivez e pureza. Um calafrio percorreu minha espinha dorsal e me senti diante de uma incógnita: "serei bem recebido ou estarei invadindo um espaço cultural que não me pertence?"

O homem que dirigia nosso veículo avisou:
- Este é o morubixaba, o cacique da tribo.

Fui recebido com cordialidade, mas sem demonstrações expansivas de afetuosidade. Alguns indiozinhos se divertiam com um filhote de quati e pararam por minutos para me observar. Apontavam o dedo para mim dizendo:
- Avati, avati -, que depois fui saber era como chamavam gente loura. Logo se desinteressaram de mim e voltaram às suas atividades recreativas.

Fui conduzido em silêncio para uma das ocas. O calor beirava o insuportável e me deram uma bebida que não consegui identificar. Parecia feita de milho fermentado e não colaborou em nada para minorar minha sede. Embora vivessem isolados nos recônditos da floresta, era visível a influência da civilização. Panelas de ferro, rádio de pilha e calções típicos da cidade se misturavam a corpos nus e gamelas artesanais.

Disseram para mim que o pajé era chamado de Apo ema (aquele que vai mais longe). Sua principal característica era a maneira monossilábica de se comunicar. Pouco falava e quando o fazia era com o mínimo de palavras. Confesso que fiquei decepcionado, porque minhas perguntas eram tantas e minha curiosidade era tão monstruosa que não cabiam no silencio do morubixaba. Parece que perceberam minha aflição e designaram um sobrinho do cacique para ser meu tradutor. Este, filho da irmã mais velha, usufruía de uma consideração especial uma vez que sua mãe foi ama de leite do cacique. Eles valorizavam muito este vínculo especial. O rapaz, que não passava de vinte dois anos, era muito falante e gostou da importância que a função de intérprete lhe concedeu. Passou a me acompanhar integralmente e sentia-se orgulhoso desta tarefa de porta voz do Apo ema.

O cacique estabeleceu como primeiro passeio, uma ida ao igarapé que passa ao redor da aldeia. Seguimos por picadas mal delimitadas e o pajé ia descrevendo os arredores. Chegamos a um descampado em meio à mata e ele nomeou: “Coroaci“ . O sobrinho logo traduziu: “terra de frente para o sol”.

Ali pude notar uma cabana coberta com uma espécie de palha seca e estranhei movimento lá dentro. Perguntei ao tradutor quem morava ali. Ele esperou que o cacique se adiantasse um pouco e não pudesse nos ouvir, antes de me informar: “Membira” e logo completou: “filha de pajé". Notou que fiquei sem entender e completou: “Ypurua”, barriga grande. “Txe Purua”, neném.

Só depois de mais entrosado com as crenças, pude compreender os motivos do retiro da filha e do genro. Alguns costumes regulam a gravidez e são levados muito a sério. Devem evitar alimentar-se de alguns itens bem apreciados normalmente. Por exemplo: carne de quati (que eles gostam muito) porque dizem que é lombriguento. Tatu, porque tem casco de proteção e pode prender o feto na hora do parto. Em compensação estimulam o consumo de onça (îagûara) , porque creem que transmite força para mãe e filho.

Outro motivo de distanciarem-se da comunidade é para evitar alguns sentimentos que podem atingir o feto, gerando aborto. Raiva, tristeza e inveja são sempre mal vistas nestas ocasiões.

Foi um passeio bonito no final da tarde. Voltamos para a aldeia, onde me mostraram onde armar minha rede. Fiquei alojado num canto da oca de onde podia avistar todos os outros. Havia uma fumaça densa em determinado ponto e era possível ver que as mulheres manipulavam panelas e outros utensílios. Repentinamente me chamaram para perto e pude ver nosso jantar:
- Pokeka e Jerimum – disse a matriarca. O sobrinho logo se apressou em informar: “peixe assado e abóbora“.

Todos comeram com as mãos e as mulheres davam risadinhas entrecortadas, como se estivessem a compartilhar algum segredo engraçado. Não pude deixar de achar que eu era a causa das piadinhas.

O melhor veio após o jantar. Descontraídos, alguns índios contavam casos e riam a valer ou demonstravam algum tipo de pavor místico. Ouvi fragmentos de histórias que embalaram minha noite. Ouvi que o sol (kûara) sumiu de repente e os trovões (tupãsununga) faziam grande algazarra, enquanto os raios (tupãberaba) riscavam o céu. Foi tanta água (y) que até o rio ruim (Paraíba) virou rio caudaloso (Paraná). Nesta tarde a água (ig) ficou tão forte que levou menina (cunnantã) e nunca mais foi vista. Eu estava encantado ouvindo atenciosamente tudo que eles falavam, mesmo quando diziam todos ao mesmo tempo e eu não conseguia entender nada. Fiquei fascinado com as expressões visuais que ostentavam. Quando a história era assustadora todos faziam a mesma cara, parecendo que haviam sido ensaiados. Da mesma forma, a alegria se manifestava por igual a todos eles.

Já devia ser tarde quando resolveram encerrar a conversação e se dirigirem para suas redes. Ainda tive tempo de ouvir Apo ema dizer:
- Cari, abaré.

Olhei curioso para meu tradutor e ele disse:
- Homem branco amigo.

Partindo daquele homem tão calado e sisudo, era um elogio considerável.

Passados três dias já me sentia em casa. Os animais da aldeia se acercavam de mim, os meninos não estranhavam mais minha barba e até as mulheres, normalmente muito desconfiadas, me dirigiam a palavra.

A gravidez da única filha do morubixaba era digna de cuidados gerais. O pai da criança também se afastou de tudo, porque eles acreditam que os dois já são espiritualmente ligados ao feto. O espírito do pai já está unido ao menino. Quando a criança nasce, se for menina acompanha a mãe e sendo menino segue o pai. Isto é inevitável até os cinco anos. Se o pai sai sem levar o filho, tem que falar para que o espírito do menino não fique sozinho. Da mesma forma, se passar em rio ou cachoeira deve por vara de pau, para que o espírito também possa atravessar.

No meu quinto dia na aldeia fui despertado com uma estranha movimentação. Levei algum tempo para perceber que se tratava de alguma intercorrência com a gravidez da filha do cacique. Todos andavam apressadamente e pareciam preocupados.

O pajé fumava um cachimbo que exalava forte fumaça e dizia palavras ininteligíveis após cada baforada. Permaneceu assim, agachado e fumando durante todo o dia.

As mulheres, que haviam trazido a filha para a oca grande, ora choravam, ora dirigiam lamentos ao vento. A situação parecia grave e eu me sentia impotente, sem ter como ajudar.

Apo ema não movia um músculo e refazia seu ritual de forma constante e impassível.

Já passava das dezoito horas quando se ouviu um choro de criança. As mulheres gritavam histericamente numa alegria incontida.

Apo ema olhou para a entrada da oca e viu sua mulher apontar a criança na direção do céu.

Levantou-se lentamente e lentamente se dirigiu a um canto da taba. Não olhou para os lados nem para trás. Eu o via pelas costas, ereto e digno. Encaminhou-se para uma passagem entre duas ocas menores.

Antes que desaparecesse no caminho das bananeiras eu podia jurar que o vi pisando nas lágrimas produzidas por seu coração de avô.


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(15 de outubro/2017)
CooJornal nº 1.049



Eduardo Fares
MG



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