15//02/2018
Ano 21 - Número 1.065





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EDUARDO FARES
 

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Eduardo Fares




OUVINDO A LUA


 


A noite estava mais que propícia para este momento. O céu era límpido, as estrelas brilhavam em forma de salpicos e se alternavam no mister de tornar fulgurante aquela visão noturna. Eu, sentado na varanda da velha fazenda, tendo a meus pés a companhia do querido Veludo, observava inebriado o espetáculo majestoso que a natureza oferecia. A Lua apresentava uma claridade diferente com tons de prata e reinava absoluta, apesar de cercada por bilhões de estrelas que se esforçavam para exibir qualidades. Nela meu olhar se fixava e sentia-me atraído, tão emocionalmente envolvido que tinha a nítida sensação de estar me aproximando fisicamente. Esta percepção parecia aumentada com o decorrer do tempo e me deixava cada vez mais preso à sua imagem bela, mas atemorizante.

Um feixe de luz intenso me conectou com a Lua. Apesar do enorme brilho, me pareceu invisível a outros olhos. Nem Veludo, dono da potente visão típica dos cães, pareceu perceber. Permaneceu quieto e imóvel.

Neste instante ouvi a voz da Lua. Era clara e potente, mas tinha embutida em si uma dose inconfundível de mágoa. Invadiu meus tímpanos, adentrou em meu cérebro e se apossou de minha atenção:

“Conheço vocês por observá-los durante milhões de anos. Assisti desde quando se dispuseram a andar eretos. Assisti à descoberta do fogo, a extinção dos dinossauros, a forja das primeiras ferramentas, a criação das religiões. Vi Átila com sua horda invadir e destruir civilizações. Acompanhei a ascensão e queda do império romano, as cruzadas, o domínio otomano da Europa, a reforma de Lutero, a chegada dos europeus à América e outros tantos eventos da humanidade. Eu os conheço, portanto. Conheço com a profundidade de quem presenciou todos os eventos.

Quanto a mim, entristece-me verificar que vocês não me conhecem. O que é pior, na ausência deste conhecimento abusam do direito de inventar estórias a meu respeito. Chegaram ao desrespeitoso conceito de difundir que sou feita de queijo. Quanta maldade!

Posso entender, com mais benevolência, a visão dos índios tupis, que em sua ingênua e bondosa elaboração me atribuem o nome de Jaci (mãe dos frutos ou mãe dos vegetais). Posso olhá-los com mais carinho, porque eles acreditam que eu recolho seres e os transformo em estrelas. Gentil imagem!

Muito mais depreciativo é afirmar que em minha fase cheia, transformo os homens em lobisomens. De onde tiraram esta idéia mórbida?

Tudo me atribuem. Se estou plena, os cabelos crescem viçosos e, quando estou na míngua, os mesmos cabelos se atrofiam. Nada tenho a ver com a calvície ou profusão de pelos nas cabeças humanas. Outra invencionice!

Por absurdo que pareça, vocês plantaram em mim a imagem da eterna figura de um guerreiro montado em cavalo branco, munido de lança a matar um dragão que permanece imóvel por séculos, tal qual um zumbi místico. Existe quem creia na veracidade disto.

Imagine outra injusta avaliação: em uma das minhas quatro fases, exatamente aquela em que estou mais completa, portanto mais realizada, mais feliz, dizem que causo loucuras na Terra. Afirmam, sem a menor cerimônia, que as pessoas têm acessos de loucura na 'lua cheia'. Eu daqui só observo e sofro com as pedras que me atiram. Injustas, muito injustas.

Já vieram aqui com naves espaciais. Gesto de cortesia? Que nada! Avaliam minhas crateras com a ganância de quem quer retirar de meu corpo as riquezas que os satisfará. Mal sabem eles que estas crateras são feridas doloridas que os meteoros me causaram no transcurso dos anos.

Conceitos revoltantes, repletos de injúrias a quem nada fez para merecê-las. Já pensei em cobrar por estes anos de massacrantes idiotices.

Poderia, por exemplo, interferir nas marés dos oceanos. Acredito que tenha alguma influencia neste evento. Seria uma maneira de me ressarcir por tanto tempo assistindo impassível esta enxurrada de mentiras e difamações. Já pensei em provocar tsunamis grandiosos ou enchentes massacrantes a ponto de extinguir cidades inteiras.

Mas...

Paradoxalmente a todas estas aberrações, vocês me deram uma incumbência que me orgulha, me enobrece e enternece meu coração: 'A Lua é dos namorados'.

Sendo assim, convidada a prover de amor esta terra repleta de animosidades, guerras e incompatibilidades, passei a sentir-me responsável por cada casal no banco da praça, cada choro infantil na maternidade, cada gesto expresso de fraternidade e cada romance que se inicia aproveitando o pratear de meus raios.

Isto me conforta o suficiente para continuar sofrendo injúrias por mais alguns milhões de anos.“


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Mensagens sobre os textos podem ser enviadas ao autor no email eduardojjfares@gmail.com

 
(15 de fevereiro/2018)
CooJornal nº 1.065



Eduardo Fares
MG



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