01/05/2017
Ano 20 - Número 1.027





ARQUIVO
EDUARDO FARES
 

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Eduardo Fares



O MUÇULMANO


 

O Brasil recebeu vários refugiados sírios. Eles foram encaminhados para diversas entidades filantrópicas, organizações não governamentais e famílias adotivas. Em nossa cidade, para o bairro onde moramos, foi enviado aquele que denominaram Benjamin. Ele foi hospedado no abrigo da Igreja do Rosário. Bastava olhá-lo para pressentir a carga de sofrimento que aquele jovem havia passado. Seu semblante era o reflexo da amargura. De seu olhar emanava um profundo desânimo, como se a esperança houvesse renegado totalmente aquela alma. Sempre cabisbaixo, ele andava pelas ruas com os ombros arqueados. Embora não falasse português, quando emitia algumas palavras, transmitia a sensação de estar sempre se desculpando, como se não merecesse habitar este mundo.

Os primeiros dias que sucederam sua chegada encontraram uma comunidade curiosa e inquisitiva a respeito do estranho que foi jogado em seu meio. Com o passar do tempo, as pessoas foram se inteirando das informações que envolviam o refugiado. Passaram a saber que tinha vinte e três anos, que viera de um pais em guerra e, principalmente, que, apesar de estar em um abrigo católico, sua religião era muçulmana. Este dado, passado de boca em boca, desencadeou uma onda de protestos e manifestou todos os preconceitos que as pessoas tinham em seu interior. O muro do abrigo amanheceu, certo dia, pichado com a frase: “Fora terrorista.” Benjamin, que mostrava suas habilidades fazendo pequenos serviços no abrigo, não tinha a menor idéia do significado daquela frase. Um domingo, quando passeava pela praça, Benjamin recebeu uma pedrada nas costas que lhe causou muita dor e um hematoma local. Sabedor dos fatos, o padre gestor do abrigo ficou apreensivo com a segurança do rapaz. Andou fazendo umas pregações nas missas, condenando o preconceito, o que não abrandou o ímpeto malicioso que havia se apossado de alguns. Convocou, então, o Nagib, libanês dono de uma mercearia, que falava razoavelmente o nosso idioma. Pediu que orientasse Benjamin para que não saísse à noite, evitasse andar sozinho e tomasse todas as precauções possíveis. Ao receber de Nagib as informações sobre sua real condição, Benjamin ficou absolutamente deprimido. Pensava que estando em um pais sem guerras, repleto de pessoas alegres e dotado de uma fartura abençoada, não seria recebido com esta dose exagerada de maldades.

Naquele pequeno prédio de dois andares e quatro apartamentos, D.Terezinha deixou seu filho de dois anos dormindo no carrinho colocado na área de serviço, por ser o local mais ventilado da casa. Ela desceu apressadamente as escadas, rumo à padaria em busca de leite. Não se sabe o motivo, mas o botijão de gás explodiu e as chamas tomaram conta de toda a cozinha. O calor era tão grande que se podia ouvir os azulejos desprendendo da parede. D.Terezinha se desesperou e suplicava, aos gritos, para salvarem seu filho que estava a poucos metros do incêndio. Aqueles que tentaram não conseguiram passar do corredor, já que as chamas tomavam toda a cozinha.

Benjamin, mesmo não entendendo o que as pessoas falavam, compreendeu de imediato o sofrimento daquela mãe. Apesar do trauma sofrido pelas explosões e incêndios causados por numerosas bombas lançadas em sua cidade natal, subiu as escadas e sumiu no apartamento. Pouco tempo depois, retornou com a criança envolta em um cobertor molhado. A mãe acolheu o menino em seus braços e todos a rodearam felizes pela criança salva. Benjamin, que havia adquirido sérias queimaduras, sentou-se na calçada e pode ver sua pele toda enrugada e os cabelos tosquiados. Uma dor insuportável começou a dominá-lo. Custou para que uma bondosa alma prestasse atenção nele. Chamaram a ambulância e o levaram para o hospital. Quatro dias após, o padre anunciou, durante o sermão, que Benjamin não havia resistido a uma infecção generalizada.

Benjamin, cujos significados são: ”o bem amado – filho da mão direita e filho da felicidade”, só colheu nesta vida o amargor e o desencanto.


Mensagens sobre o texto podem ser enviadas ao autor no email eduardojjfares@gmail.com

 


(1º de maio/2017)
CooJornal nº 1.027



Eduardo Fares
MG



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