16//08/2018
Ano 21 - Número 1.089





ARQUIVO
EDUARDO FARES
 

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Eduardo Fares



DOLORIDAS REFLEXÕES

Da cama do hospital ele via, através da janela semi aberta, o piscar continuo e multicor do letreiro da farmácia vizinha. Seus pensamentos ora peregrinavam por cavernas longínquas da memória, ora faziam constatações dolorosas sobre a irrefutável e atual realidade. O quarto, condizente com qualquer ambiente hospitalar, vivia imerso numa penumbra sombria capaz de toldar os mais primários sentimentos de euforia. Tudo conduzia para a monotonia absoluta, como se o sofrimento fosse obrigatoriamente parte integrante da vida. Pobres de espírito, pensava ele. Somos pobres de espírito, consumia-se. Incapazes de altruísmos, de gestos grandiosos ou de semear frugalidades. Apenas vegetativos seres que se amofinam com constância e sofrem com suas próprias incapacidades.

O enfermeiro chegou para conduzi-lo ao banho. Sempre independente, via-se agora manipulado por estranhos, apalpado, despido de vestes e de pudor. Seu conceito de dignidade sofrera mutações severas e de difícil absorção. Vezes havia em que não se reconhecia mais, sentia-se inerte e entregue aos ditames das circunstâncias. Procurava dar a si próprio a compensação de achar que tudo isto era transitório, que ao cabo de algum tempo retornaria ao cotidiano que lhe era tão caro e tão familiar. Simples engodo, no fundo avivava a certeza de que nada mais seria como antes. O que fazer ante este dilema que o tornava refém de um destino tão impositivo? Apequenar-se, colocar-se de joelhos?

Regurgitar para muitos é apenas um movimento do metabolismo que permite a expulsão de excessos e incômodos gástricos. Regurgitar para ele exprimia um esforço gigantesco na direção de expelir lembranças marcantes, que confrontadas com as limitações atuais, faziam dele um pêndulo que vivia a oscilar entre vitórias e derrotas, numa luta monumental que trazia prazer e dor.

A memória quando mantém resquícios de honestidade consegue perpetrar lembranças que se desviam da manipulação gratuita e focam verdadeiramente os fatos risíveis, enaltecedores ou fétidos do passado. Desta forma, o passear por estas paragens do antecedente, nos transporta do riso às lágrimas com uma eficiência invejável. Esta dicotomia perversa costuma reavivar feridas não cicatrizadas, assim como promover sorrisos inebriantes.

Daqui, de meu modesto anfiteatro, me solidarizo com ele. Dou-lhe a compaixão que nada me custa. Dou-lhe meu desejo para que a vida seja mais acessível, o que também nada me custa. Enfim, dou-lhe o que me sobra, ciente de que é muito pouco perante as angústias que o afligem.


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Mensagens sobre os textos podem ser enviadas ao autor no email eduardojjfares@gmail.com

 



Eduardo Fares
MG



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