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06/01/2007
Ano 10 - Número 510

ENÉAS ATHANÁZIO
ARQUIVO
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Enéas Athanázio
AMAZÔNIA: QUANDO AS
BORBOLETAS DESAPARECEM
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Nos meus dias de estudante a Amazônia constituía motivo de orgulho e
objeto de intensa curiosidade. Em nossas mentes estava o sentimento
subjacente de que tínhamos algo único e inigualável, a ser tratado como
símbolo da própria pátria. Mas as coisas mudaram, a devastação e a
pilhagem transformam tudo em cinzas e a mais bela floresta do mundo vai se
tornando um pesadelo na alma nacional. Em viagens à região, nestes últimos
anos, vi de perto a política de terra arrasada que lá se pratica. Agem
como quem explora uma fazenda até o limite para depois abandoná-la e
partir para longe.
Mesmo duvidando de que palavras possam alterar a situação, recebi dois
livros a respeito da região, de gêneros diferentes, mas que merecem
atenção de qualquer um que ainda se importe, por mínimo que seja, com o
futuro do país. Trata-se de “A lenda do amor eterno”, romance de autoria
da escritora paraense Sylvia Helena Tocantins, fechando uma trilogia de
obras romanescas marajoaras (Edição IOESP – Belém – 2005) e “Natureza
morta. História viva”, de Renato Ignácio da Silva, historiador e
ficcionista, um dos grandes conhecedores do tema nos dias atuais (Edição
Renig – S. Paulo – 2005). Ambos, de certa forma, se complementam e a
leitura de um interfere na visão do outro. Cada qual em seu gênero,
contribuem para revelar mais um pouco da terra e da gente de uma região
que parece votada à destruição sem ter sido ao menos estudada.
Escritora de fôlego para o romance, Sylvia Helena viveu na Ilha do Marajó
e a conhece muito bem, tanto nos aspectos geográficos, sociais e humanos,
como também na colorida linguagem regional. É nesse meio grandioso,
submisso à ditadura das águas e aos influxos naturais, que ela ambienta a
história fascinante do amor que tudo vence, sobrepujando os obstáculos. Lá
se desenrola, diluído com habilidade no texto, o panorama impressionante
da maior ilha fluvial da Terra, com sua natureza invencível, espaços
assustadores, horizontes inatingíveis, florestas, rios que parecem mares,
animais, pássaros, répteis, insetos, flores. E em meio à natureza
dominadora, o ser humano na sua luta pela vida, às vezes perplexo diante
das adversidades e vítima dos mesmos sentimentos universais, mas que tudo
enfrenta como pode, solitário e isolado na sua pequenez. Escrito com
segurança, dominando o descritivo, o diálogo e a técnica romanesca, a
autora agarra o leitor até o fim e mostra tudo que diz com o Marajó num
romance que é, no fundo, um documento confiável e rico daquele recanto
inigualável do país. A publicação desta obra constitui um marco nas letras
amazônicas e precisa ser conhecida em toda parte.
Misto de história, ciência e ficção, o livro de Renato Ignácio é um ensaio
absorvente sobre o mundo amazônico, conduzindo o leitor, de forma suave,
ao entendimento do complexo sistema que desafia estudiosos de múltiplas
áreas. Através de retratos de cientistas, pesquisadores, viajantes e
observadores, ele mostra como as forças naturais agiram para cimentar a
convivência num sistema interligado e cíclico tão poderoso na aparência
mas tão frágil na realidade. Não é livro ambientalista radical, mas de
alguém que criou uma consciência aguda das circunstâncias atuais da região
e se inquieta com o futuro, cada vez mais visível e próximo, inclusive
diante da recente estiagem. Além disso, imiscuindo-se nas narrativas, o
folclore, as lendas, os casos, as experiências de vida, a fauna e a flora,
a linguagem e a vida no mundo selvático. “Nenhum problema ambiental em
nível mundial é tão grave quanto a devastação da floresta tropical
amazônica – assegura ele. – Quando as borboletas desaparecem e os homens
ficam cercados somente de moscas e mosquitos é sinal de que o homem e a
natureza estão ameaçados...”
É um alerta aterrador de quem entende do assunto e que precisa ser
encarado com seriedade por todos os brasileiros.
(06 de janeiro/2007)
CooJornal no 510
Enéas Athanázio,
escritor e Promotor da Justiça catarinense (aposentado)
e.atha@terra.com.br
Balneário Camboriú - SC
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