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18/08/2007
Ano 11 - Número 542

ENÉAS ATHANÁZIO
ARQUIVO
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Enéas Athanázio
AS ÁGUAS DE
SIMENON
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O escritor belga Georges
Simenon foi um dos mais lidos do mundo. Autor de mais de duzentos
romances, inúmeros contos, novelas e escritos diversos, criou a figura do
Comissário Maigret (Jules), da Polícia Judiciária Francesa, um dos
detetives mais conhecidos e filmados da história do cinema. Usando o
método dedutivo, Maigret não portava arma e nem agia com violência,
valendo-se de meios pouco ortodoxos para chegar ao criminoso. Num cenário
de indícios mínimos, quase inexistentes, ele desvendava mistérios
impenetráveis, mais adivinhando que descobrindo. Ao contrário da maioria
dos autores do gênero, Simenon escrevia muito bem, em estilo elegante e
literário, comparando-se a grandes autores de língua francesa. Afirma-se
mesmo que nunca recebeu o Prêmio Nobel em virtude do preconceito contra a
literatura policial, considerada por muitos críticos como gênero inferior.
Diversos livros de sua autoria foram traduzidos e publicados no Brasil,
onde ele tem grande número de leitores, como em todo o mundo.
Sempre que me sinto cansado de leituras pesadas, Simenon é o meu “relax”.
Volto aos livros dele, policiais ou não, a maioria dos quais li e reli
várias vezes. Para ele, o romance não deveria ser grande, massudo, para
que o leitor não tenha que interromper com freqüência a leitura,
diminuindo seu impacto. O ideal é que seja lido do começo ao fim, de uma
assentada. Uma concepção original do gênero romanesco, que ele levou a
capricho até o fim, exceto em poucos casos. Seus romances quase nunca
ultrapassam as duzentas páginas.
Mas há na obra de Simenon um aspecto curioso, observado em numerosas de
suas histórias. Refiro-me à presença da chuva, da garoa, da tempestade, da
neve e do frio – a presença das águas, enfim. Quase sempre o pobre Maigret
tem que solucionar seus casos sob umidade constante, com o chapéu e os
ombros molhados pela intempérie. Em “O Medo de Maigret”, que acabo de
reler, ele não apenas se vê envolvido na investigação de seguidos crimes
quando visita um amigo numa cidadezinha do interior, como tem que
enfrentar o frio intenso, a chuva que não cessa, o vento gélido que varre
as folhas do chão e até uma pesada tempestade. As nuvens carregadas
obscurecem o céu, os trovões ribombam, as pessoas se recolhem e a umidade
é geral. Mas nada impede que ele prossiga nas investigações e chegue sem
aparentes dificuldades ao criminoso, mesmo que seja o castelão da cidade,
vencendo o repentino medo que o acomete naquele meio gélido e lúgubre.
Como sempre, porém, Maigret “penetra na alma dos implicados” e eles não
lhe escapam, porque o célebre Comissário entende como poucos o ser humano.
(18 de agosto/2007)
CooJornal no 542
Enéas Athanázio,
escritor e Promotor da Justiça catarinense (aposentado)
e.atha@terra.com.br
Balneário Camboriú - SC
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