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08/09/2007
Ano 11 - Número 545

ENÉAS ATHANÁZIO
ARQUIVO
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Enéas Athanázio
CRIADOR E CRIATURA
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Os leitores de Georges Simenon
(1903/1989), já cansados de passar e repassar os livros publicados em
português, podem agora saborear mais uma de suas obras, em tradução de
Paulo Neves. Trata-se de “Memórias de Maigret” (Nova Fronteira/L&PM Pocket
– 2006), uma das mais originais e instigantes produções do criador do
célebre Comissário Jules Maigret, da Polícia Judiciária Francesa, e
personagem central de nada menos que 75 romances e 28 contos e que compõe,
com Sherlock Holmes e Hercule Poirot, o maior e mais célebre trio de
investigadores policiais do mundo e cujo autor André Gide considerava “um
grande romancista, o maior e o mais verdadeiro da literatura francesa
contemporânea.” Segundo julgamento unânime, Maigret é o mais humano e
compreensivo dos detetives de ficção, não se limitando apenas a desvendar
o crime e apontar seu autor à Justiça, mas tentando compreender os
tortuosos motivos que levaram um ser humano àquele ato. É verdade que
muitas vezes fica a impressão de que ele adivinha, tão diminutos são os
elementos com que conta na investigação. Mas essa é outra história.
Neste romance tudo é surpreendente. Embora intitulado como memórias, na
verdade é pura ficção, uma vez que nele a única figura real é o autor.
Depois de longos anos de atividade policial que lhe valeram fama
universal, Maigret – o personagem fictício – decide escrever suas
memórias, relembrando os grandes casos em que atuou e sua vida de
policial, desde o início, incluindo-se aí seu contato com Simenon – o
autor – e a profunda amizade que entre eles se firmou. Na história,
portanto, o autor se transforma em personagem de sua própria criatura e, o
que é mais interessante, Simenon é descrito como sendo mais jovem que
Maigret, o que implicaria em imaginar que a criatura nasceu antes do
criador. Para completar, o texto vai fazendo menção a fatos verídicos da
vida de Simenon, coincidentes mais ou menos com as datas reais, o que
provoca surpresas muito curiosas. Como exemplo, basta lembrar que Louise,
a mulher de Maigret, pede que ele comunique a Simenon que ela está
tricotando sapatinhos para Jean, primeiro filho de Simenon e Denyse Ouimet,
nascido em 1949.
Outro aspecto curioso é a análise retrospectiva que Maigret faz de sua
própria vida conforme ela é narrada nas obras de Simenon. É um personagem
de ficção analisando a obra de ficção na qual ele é o personagem. Nesses
relances sobre o passado, ele relembra como o destino o levou à carreira
policial, mais ou menos por obra do acaso e graças a um vizinho que o
ajudou nos primeiros passos. E conclui que estava no lugar certo, no seu
lugar, sem ambicionar um destino além de sua capacidade. A pessoa fora de
seu lugar, conclui ele, vai se debatendo pela vida a fora porque na vida
real é raro encontrar um consertador de destinos, como ocorre na ficção.
Por isso, na sua vida modesta, ao lado da discreta Louise, Jules Maigret
sente-se feliz e realizado.
(08 de setembro/2007)
CooJornal no 545
Enéas Athanázio,
escritor e Promotor da Justiça catarinense (aposentado)
e.atha@terra.com.br
Balneário Camboriú - SC
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