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26/09/2008
Ano 12 - Número 600

ENÉAS ATHANÁZIO
ARQUIVO
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Enéas Athanázio
A GRANDE AVENTURA
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Passei alguns dias mergulhado nos
“Diários Índios”, de Darcy Ribeiro (Cia. das Letras – S. Paulo – 1996 –
600 págs.), livro que li com cuidado há uns dois anos e sobre o qual
escrevi dois ensaios, ambos já publicados. Escrito em forma de diário,
como longa carta enviada à esposa, Berta, que ela só leria depois de
publicada, é recheado de fatos, mapas, desenhos e fotografias, tornando a
leitura agradável, apesar do tamanho. É um dos livros menos conhecidos e
comentados do autor de “O Povo Brasileiro.”
Nele o autor narra as duas expedições que realizou ao território dos
índios urubus-kaapor, visitando suas aldeias, uma por uma, espalhadas no
mais profundo da selva amazônica no Pará o no Maranhão. A primeira partiu
de Vizeu, na foz do rio Gurupi, ou seja, do norte para o sul. A segunda
teve trajeto oposto, partindo do rio Pindaré para o norte. Chegou a
permanecer por dez meses na região, longe de tudo, isolado do mundo,
dormindo em ranchos improvisados ou ao relento, comendo mal e sofrendo o
assédio dos mosquitos e outros insetos. Venceu correntes de rios pouco
conhecidos em batelões velhos e precários, cruzando corredeiras perigosas,
tendo às vezes que andar dentro da água, mergulhado até a cintura, para
empurrar o barco. Fez caminhadas que chegaram aos mil quilômetros, dentro
da selva, cruzando picadas abertas a golpes de foice e machado, ou em
caminhos abertos pelos índios, cruzando igarapés, furos e igapós
desconhecidos. Muitas vezes molhado até a alma, sem enxergar um palmo de
céu, encoberto pela mataria verdejante, percorreu regiões nunca pisadas
por brancos, das quais inexistiam mapas e informações seguras.
Nunca se desgarrava da caderneta de campo, tudo anotando, mapeando e
desenhando. Mais tarde passava para cadernões de capa dura, enquanto ainda
fresco na memória, procurando manter a maior fidelidade. É admirável que
tenha feito uma obra literária, escrevendo em condições tão precárias, em
cima da perna ou de algum tronco caído (os índios não usavam mesas), na
semi-obscuridade ou cercado de índios que não cessavam de falar e lhe
tomavam a caneta das mãos porque também desejavam fazer seus rabiscos e
desenhos. Mesmo assim, em alguns momentos chega a atingir o nível da boa
prosa poética. Graças ao seu esforço e à sua coragem, deixou-nos um
retrato sem retoque daquela inóspita região, seus habitantes e seu modo de
vida.
Com 27 anos de idade, na época, Darcy Ribeiro estava no auge da forma
física e do entusiasmo intelectual. Tudo o cientista social queria ver,
observar, entender e registrar. Nada de informes requentados, de segunda
mão; sua meta era examinar in loco. Exercitando atilado senso de
observação, nada deixava escapar e tornou seu livro um manancial único e
inesgotável sobre aquela região do país. Ao lado das observações de
caráter científico, emergem do texto o sentimento humano, o amor ao país,
a dedicação à ciência que abraçou e a preocupação com a sorte daquele povo
abandonado, já então vítima de invasores e exploradores (os regatões). Viu
os primeiros efeitos do contato dos civilizados com os indígenas e alertou
para as conseqüências futuras, aquelas que nós todos hoje conhecemos.
Além de tudo, o livro relata uma aventura única e insuperável. Não vejo
como um homem de nosso tempo possa realizar aventura igual ou parecida,
dentro do território nacional, sem contar com recursos tecnológicos e
dispondo de tão parcos recursos. Parece-me de todo impossível.
(26 de setembro/2008)
CooJornal no 600
Enéas Athanázio,
jurista e escritor
e.atha@terra.com.br
Balneário Camboriú - SC
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