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28/11/2009
Ano 13 - Número 660

ENÉAS ATHANÁZIO
ARQUIVO
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Enéas Athanázio
O DESTINO DE ANDAR EM CÍRCULOS
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Existem livros cuja função é iluminar caminhos, às vezes obscuros e
vislumbrados de forma confusa, indicando com segurança o rumo a tomar. É o
caso de “Brasil – Síntese da Evolução Social”, de Aluysio Mendonça
Sampaio, que acaba de ser lançado em segunda edição (JB Literatura
Brasileira/Scortecci Editora – S. Paulo – 2004). Trata-se de acurado
ensaio de história social que procura “desvendar as características
fundamentais de nossa formação e desenvolvimento” através de uma análise
científica da realidade nacional lastreada em vasta pesquisa, realizada ao
longo de anos de observações dos atos e fatos que fixaram etapas de nosso
passado e suas conseqüências na vida do país. Em linguagem simples e
direta, debruça-se sobre a história do Brasil, desde a descoberta e as
três décadas iniciais, procurando explicar a formação e as características
de nossa sociedade, suas contradições internas e externas, e as
circunstâncias que conduziram nosso país ao que é hoje.
Mostra o ensaísta que o início de nossa história se resumiu ao encontro do
português com o indígena, colocando frente a frente duas culturas em
estágios muito diferentes: o europeu civilizado e o silvícola na idade da
pedra. Como este nada tinha, na prática, a oferecer nos escambos,
tornou-se ele próprio objeto da cobiça do invasor, transformando-se em
escravo, fornecedor de mão-de-obra barata para as empreitadas lusas. Sem
grande interesse pela nova colônia, os portugueses só se decidiram a
povoá-la ante o risco de perdê-la para os arrojados franceses. Não
dispondo de recursos para tanto, tiveram que apelar à iniciativa privada,
instituindo grandes propriedades territoriais (capitanias e sesmarias).
Dessa forma, conjugando os interesses da coroa com a cobiça dos colonos,
transplantaram para cá um regime fundiário feudal, semelhante ao europeu
da Idade Média, e no qual o donatário detinha quase os mesmos poderes do
senhor feudal. Assim, pelas contingências do momento histórico, a
sociedade brasileira aliou o latifúndio à escravidão, objetivando a
exportação. Em resumo: surgiu uma sociedade feudal-escravocrata do tipo
colonial.
Delineiam-se, nesse contexto, a aristocracia rural brasileira, baseada na
propriedade de escravos e da terra, e abaixo dela as demais classes
sociais (sesmeiros, lavradores livres e obrigados, rendeiros, pessoas
livres e semi-livres – os chamados “práticos” ou “curiosos” – e no
rés-do-chão os escravos índios e negros). Com o encarecimento dos
escravos, o poder aos poucos se transferiu para a terra e o latifundiário
assumiu o domínio do país, por si ou pelos prepostos. Seu poder se media
pelas áreas que possuía, algumas tão grandes que se tornavam
auto-suficientes. Nessas fazendas só se comprova sal, ferro e chumbo –
jactavam-se os proprietários. Sua influência, em conseqüência, se estendia
pelo país como tentáculos que interferiam na máquina governamental e na
ideologia dominante, forjando inclusive o velho mandonismo nacional: “Quem
chegou a ter títulos de senhor, parece que em todos quer dependência de
servos” – escreveu Antonil. Enquanto volviam os anos, o país crescia e a
população aumentava, o fazendeiro ou senhor de engenho mandava e
desmandava, impedindo a todo custo qualquer alteração da propriedade
rural, ao mesmo tempo em que o trabalho constituía objeto de desprezo pela
aristocracia dominante.
Depois de apontar essas características dominantes, parte o ensaísta para
o exame de nossa evolução social, pari passu com a economia e a política
de cada fase. O trinômio latifúndio-escravatura-colinialismo resiste às
tentativas de modernização, mesmo diante de crises mais e menos graves.
Sobrevêm a trasladação da família real, a abertura dos portos às nações
amigas, a independência, o fim do tráfico negreiro, a abolição, a
república, o tenentismo, a revolução de 1930, as Constituições de 1934,
1937 e 1946, com o Estado Novo de permeio, o golpe de 1964 e, por fim, a
Constituição de 1988. Nesse longo e sofrido período, plasma-se uma
população urbana, surgem as massas assalariadas, desenvolvem-se as
preocupações sociais, nascem a previdência social e a legislação do
trabalho, o país passa de “essencialmente agrícola” para a
industrialização e, no entanto, frustradas as tentativas, proclamações de
ordem constitucional, estatutos, leis e movimentos, a estrutura fundiária
permanece quase a mesma, imutável, intangível, au delá du bien et du mal,
desafiando a imperiosa necessidade de uma profunda reforma agrária e de
políticas sérias para a fixação do homem no campo. Até mesmo a legislação
trabalhista, proclamada como das mais avançadas, se restringe ao operário
urbano, não se atrevendo a tocar nos rurais submetidos ao supremo poder do
latifúndio. Nem o êxodo para as cidades, nem a favelização, nem o crime
organizado, nem a corrupção, nem a fuga da juventude para outros países –
nada parece abalar o latifúndio improdutivo presente em todas as regiões
do país. Foram séculos em que o Brasil pareceu destinado a andar em
círculos.
Emergindo a duras penas de duas décadas de autoritarismo explícito, tateia
o país em busca de saídas. Confuso, comete erro sobre erro, frustrando-se
as esperanças uma depois da outra. Nem mesmo o atual governo parece dar à
reforma agrária a prioridade absoluta exigida pelo país, permitindo-lhe,
afinal, encarar o futuro com relativa confiança. Enredado num cipoal que
combina globalização, neoliberalismo, privatização e domínio imperialista,
vive o povo assombrado pelo fantasma do desemprego, asfixiado pelos juros
usurários e temeroso da violência crescente, sem saber como encarar os
dias que virão, mesmo porque, na maioria das vezes, não consegue entender
as razões dos males que o assoberbam. A despeito de tudo, porém, o país
tem saída e futuro, desde que o povo, bem orientado pelos intelectuais e
líderes, saiba interpretar o passado e dele tirar as lições que evitem
erros de conseqüências graves e duradouras. Para isso o livro de Aluysio
Mendonça Sampaio é instrumento indispensável, lançando luzes sobre o que
ficou para trás e iluminando os passos seguintes. Precisa ser lido,
relido, discutido e divulgado nas suas lúcidas lições de Brasil e de
brasilidade por todos aqueles que se preocupam de verdade com nossa terra
e nossa gente.
(28 de novembro/2009)
CooJornal no 660
Enéas Athanázio,
escritor catarinense, cidadão honorário do Piauí
e.atha@terra.com.br
Balneário Camboriú - SC
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