24/04/2010
Ano 13 - Número 681


 

ENÉAS ATHANÁZIO
ARQUIVO

 

Enéas Athanázio




HOMENS INVISÍVEIS



 

Enéas Athanázio, colunista - CooJornal

O antropólogo Sydney Possuelo é dos poucos brasileiros homenageados pela Royal Geographical Society, da Inglaterra, pela sua luta em defesa dos direitos humanos. Com a aprovação da rainha, ele recebeu em 2004, em sessão solene, a medalha de ouro com que são premiadas personalidades de todo o mundo que se destacam em grandes realizações em benefício dos povos. No caso dele, o prêmio foi conferido em reconhecimento ao trabalho que desenvolve em defesa dos índios isolados que vivem na região amazônica, em constante ameaça por parte de grileiros, madeireiros e garimpeiros ilegais e outros invasores de suas terras. Como funcionário da FUNAI, cabe-lhe chefiar esse setor, o que exige constante vigilância em expedições aos locais habitados por esses índios para verificar se as medidas de proteção estão sendo cumpridas.

Numa dessas expedições, chefiada por Possuelo, integrou-se o jornalista Leonencio Nossa, acompanhando do início ao fim a penosa jornada. Como consequência, escreveu o extraordinário livro “Homens Invisíveis” (Editora Record – 2007), desses que as livrarias costumam esconder, talvez porque retrate um pedaço do país pelo qual os brasileiros em geral não têm o menor interesse – de Manaus para cima. A expedição aconteceu entre junho e setembro de 2002, prolongando-se por quase quatro meses, ou, mais exatamente, por 105 dias, percorrendo 3743 quilômetros em barcos motorizados, canoas movidas a remo e andando a pé pelas matas ínvias da região do Vale do Javari, na fronteira do Brasil com o Peru e a Colômbia. Integrada por 42 pessoas, algumas temporárias, entre indigenistas, pessoal de apoio, ribeirinhos, índios matises, mateiros marubos e kanamaris, e jornalistas, incluindo fotógrafo e repórter, a expedição tinha como objetivo circundar a área habitada por índios isolados, mais conhecidos como flecheiros, aos quais foi destinado um território indispensável à sua sobrevivência e no qual é proibida a presença de não-índios, a extração de madeiras ou minérios, a caça e a pesca realizadas por estranhos. Esses índios, em estágio muito primitivo, temem o branco por fundados motivos, são arredios e desconfiados, e qualquer contato com eles pode ser fatal porque não possuem a menor resistência às doenças dos brancos. Diante disso, a ordem severa era circundar e observar, mas sem ingressar no território proibido e, menos ainda, fazer contato pessoal com os indígenas. Para manter esses propósitos, Possuelo dirigiu a expedição com mão-de-ferro.

O relato contido no volume é saboroso, tem o gosto das boas páginas romanescas. Além dos acontecimentos diários, superando os mais incríveis obstáculos, o autor intercala informações muito curiosas, antigas e recentes, sobre uma região pouco conhecida e que aguça o interesse de toda sorte de aventureiros. Mostra ao vivo aquela gente que vive num passado remoto e que tem sido vítima, ao longo de nossa história, de violentos ataques de brancos portadores de tecnologias letais. E, por incrível que pareça, revela o fato acabrunhante de que a escravidão ainda persiste entre os indígenas e que alguns são submetidos a trabalho servil pelos kanamaris. Mas o livro retrata, em cores vivas, a natureza exuberante, os rios imensos, os igarapés, a vegetação variada e intransponível, a riqueza da fauna, a variedade inacreditável de peixes e insetos, a variação repentina do clima e, enfim, todo um mundo imenso em estado natural. Em meio a tudo isso, as crenças e costumes indígenas, as numerosas línguas faladas e a vigência da lei da selva que, segundo ele, é muito melhor e mais civilizada que aquela das favelas cariocas, por exemplo. Como resultado, depois de tanto esforço e trabalho, concluíram com satisfação que o território dos flecheiros vem sendo respeitado, fato que constitui um alívio nestes tempos de devastação contínua e impiedosa. Eis, enfim, um livro que merece a atenção dos que se interessam pelo Brasil.



(24 de abril/2010)
CooJornal no 681


Enéas Athanázio,
escritor catarinense, cidadão honorário do Piauí
e.atha@terra.com.br
Balneário Camboriú - SC

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