15/08/2008
Ano 12 - Número 594

ARQUIVO
FÁTIMA DE LAGUNA






Fátima de Laguna
em Expressão Poética

 

Maria de Fátima Barreto Michels



Bernúncias, Espantalhos e Falações



 

   
bernúncia em argila – Escola de Oleiros de S.José/SC
Foto da autora do texto, Maria de Fátima Michels

 

Estava na sala de espera da médica e de lá, através da vidraça, olhava o cenário possível. A ponte de ferro e as outras, que unem a ilha de Santa Catarina até a parte continental da cidade de Florianópolis, me fizeram lamentar não ter a câmera na bolsa. Fui até a estante onde notei um livro cujo título era exatamente “Ilha de Santa Catarina”. Não é corriqueiro encontrarmos livros nas salas de espera, porém, isto vem se tornando um regalo para quem gosta deles, em alguns consultórios. Folheava o livro onde havia textos de vários autores acompanhando telas de Juarez Machado. Uma foto da tela onde Juarez inventou uma bernúncia, atraiu meu olhar: através da bocarra do bicho via-se um jovem casal fazendo amor. O texto que havia ao lado era de Aldírio Simões, a quem tive o prazer de conhecer na década de 70. A crônica muito divertida conta o causo de uma bernúncia que comeu uma donzela, por vingança. Coisas de mal entendidos entre bois-de-mamão, assuntos que Aldírio conhecia bem, era manezinho autêntico.

Tal livro é muito bonito e aquela bernúncia me fez lembrar Calexo. Sim exatamente o Calexo, uma invenção de Urda Klueger na obra “SAMBAQUI”. Pois tal homem, que viveu há mais de quatro mil anos o Calexo, confeccionou um cobertor com peles de vários bichos, e sob ele, passava dias e dias dando atenção prazerosa para as suas várias mulheres.

O sujeito era considerado talvez um preguiçoso. Analise e responda: quem tem energia para o trabalho brincando de bernúncia todo o tempo?

Aliás não sei se você sabe o que é exatamente uma bernúncia sugiro que pesquise, é interessante!

Calexo comete pecados capitais somados a alguns contrários aos dez mandamentos. A princípio rejeitamos este tipo de pária, depois quem sabe o acomodemos naquela sociedade sambaquiana.

Como não compreender a farra de Calexo, uma “bernúncia” em festa junina doze meses por ano, em uma sociedade aparentemente amoral, para as nossas “civilizadas” convicções?

Pois é, a questão chamou a minha atenção bem ali. Na verdade ainda não dei o veredicto final a este personagem que me parece uma metáfora.

Não li ainda toda a obra, porque estou lendo outras, paralelamente.

Um desses livros é “55 começos” de Manoel Ricardo de Lima que, antes de vir para o sul, nascido que é no Piauí já lecionara Semiótica, alem de outras disciplinas. Garanto que compreender a lavra de Manoel Ricardo de Lima não é nada fácil, mas muito interessante ler, porque faz crítica literária. Ele disseca ou começa a dissecar os muito autores que já leu. Adorei em “55 começos” foi ver algo assim:“poesia não se vende (ou “não vende”, não recordo ipsis litteris), ainda bem”.Talvez livros de poesia sejam mesmo artigos que poucas pessoas comprem.

Gosto de ler poesia para saber o que é que está na cabeça desses sujeitos teimosos que fazem livros, que talvez não vendam! Gosto do valor que subestima o dinheiro! Gosto de, da, POESIA.

É por isto que ainda não li todo o Manoel, ainda estou relendo as poesias de Viegas Fernandes da Costa!

Viegas é um historiador que faz contos, crônicas, poemas, resenhas, prefácios e qualquer dia, sai o romance! Ele é catarinense da terra de outro poeta, o Labes, para quem Viegas escreveu há poucos dias, a orelha do primeiro livro. Do Viegas estou lendo “de espantalhos e pedras também se faz um poema”.Este título tem muito a ver com o jeito do autor produzir. Ele pega a pedra e com o cinzel vai fabricando a ranhura, um detalhe, um mamilo, do qual faz verter o leite. Esse moço faz mesmo, com espantalhos e pedras também, a sua poesia.

Mas não consegui largar aqueles poemas, desfrutá-los todos ainda, porque outro jovem lançou na sua Blumenau, o título “Falações”, que também já comecei a ler.

De “Falações” do Marcelo Labes, contarei por enquanto, apenas um bonito “SEGREDO” que diz assim: “Eu te amo, mulher,
             
Mas não contes a ninguém
                             Eu te amo sem medo!”



(15 de agosto/2008)
CooJornal no 594


Maria de Fátima Barreto Michels,
escritora e fotógrafa
Laguna, SC
fbarreto@bizz.com.br
http://www.riototal.com.br/expressao-poetica/fatima_laguna.htm
 
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