bernúncia em argila – Escola de Oleiros de S.José/SC
Foto da autora do texto, Maria de Fátima Michels
Estava na sala de espera da médica e de lá, através da
vidraça, olhava o cenário possível. A ponte de ferro e as outras, que
unem a ilha de Santa Catarina até a parte continental da cidade de
Florianópolis, me fizeram lamentar não ter a câmera na bolsa. Fui até a
estante onde notei um livro cujo título era exatamente “Ilha de Santa
Catarina”. Não é corriqueiro encontrarmos livros nas salas de espera,
porém, isto vem se tornando um regalo para quem gosta deles, em alguns
consultórios. Folheava o livro onde havia textos de vários autores
acompanhando telas de Juarez Machado. Uma foto da tela onde Juarez
inventou uma bernúncia, atraiu meu olhar: através da bocarra do bicho
via-se um jovem casal fazendo amor. O texto que havia ao lado era de
Aldírio Simões, a quem tive o prazer de conhecer na década de 70. A
crônica muito divertida conta o causo de uma bernúncia que comeu uma
donzela, por vingança. Coisas de mal entendidos entre bois-de-mamão,
assuntos que Aldírio conhecia bem, era manezinho autêntico.
Tal livro é muito bonito e aquela bernúncia me fez lembrar
Calexo. Sim exatamente o Calexo, uma invenção de Urda Klueger na obra
“SAMBAQUI”. Pois tal homem, que viveu há mais de quatro mil anos o
Calexo, confeccionou um cobertor com peles de vários bichos, e sob ele,
passava dias e dias dando atenção prazerosa para as suas várias
mulheres.
O sujeito era considerado talvez um preguiçoso. Analise e
responda: quem tem energia para o trabalho brincando de bernúncia todo o
tempo?
Aliás não sei se você sabe o que é exatamente uma bernúncia
sugiro que pesquise, é interessante!
Calexo comete pecados capitais somados a alguns contrários
aos dez mandamentos. A princípio rejeitamos este tipo de pária, depois
quem sabe o acomodemos naquela sociedade sambaquiana.
Como não compreender a farra de Calexo, uma “bernúncia” em
festa junina doze meses por ano, em uma sociedade aparentemente amoral,
para as nossas “civilizadas” convicções?
Pois é, a questão chamou a minha atenção bem ali. Na
verdade ainda não dei o veredicto final a este personagem que me parece
uma metáfora.
Não li ainda toda a obra, porque estou lendo outras,
paralelamente.
Um desses livros é “55 começos” de Manoel Ricardo de
Lima que, antes de vir para o sul, nascido que é no Piauí já lecionara
Semiótica, alem de outras disciplinas. Garanto que compreender a lavra
de Manoel Ricardo de Lima não é nada fácil, mas muito interessante ler,
porque faz crítica literária. Ele disseca ou começa a dissecar os muito
autores que já leu. Adorei em “55 começos” foi ver algo
assim:“poesia não se vende (ou “não vende”, não recordo ipsis litteris),
ainda bem”.Talvez livros de poesia sejam mesmo artigos que poucas
pessoas comprem.
Gosto de ler poesia para saber o que é que está na cabeça
desses sujeitos teimosos que fazem livros, que talvez não vendam! Gosto
do valor que subestima o dinheiro! Gosto de, da, POESIA.
É por isto que ainda não li todo o Manoel, ainda estou
relendo as poesias de Viegas Fernandes da Costa!
Viegas é um historiador que faz contos, crônicas, poemas,
resenhas, prefácios e qualquer dia, sai o romance! Ele é catarinense da
terra de outro poeta, o Labes, para quem Viegas escreveu há poucos dias,
a orelha do primeiro livro. Do Viegas estou lendo “de espantalhos e
pedras também se faz um poema”.Este título tem muito a ver com o
jeito do autor produzir. Ele pega a pedra e com o cinzel vai fabricando
a ranhura, um detalhe, um mamilo, do qual faz verter o leite. Esse moço
faz mesmo, com espantalhos e pedras também, a sua poesia.
Mas não consegui largar aqueles poemas, desfrutá-los todos
ainda, porque outro jovem lançou na sua Blumenau, o título “Falações”,
que também já comecei a ler.
De “Falações” do Marcelo Labes, contarei por enquanto,
apenas um bonito “SEGREDO” que diz assim: “Eu te amo, mulher,
Mas não
contes a ninguém
Eu te amo sem medo!”
(15 de agosto/2008)
CooJornal
no 594