
10/06/2006
Ano 9 -
Número 480
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Maria de Fátima Barreto Michels
Breve aqui, diplomas para escritores!
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Temos aí na imprensa a notícia de um Curso de Formação de Escritores e
de Agentes Literários.
Várias pessoas afinadas com o mundo dos livros estão se manifestando.
O assunto é interessante e vários escritores, intelectuais, leitores e
também os naïf das letras (artesãos da palavra, turma esta na qual me
incluo), estão a discutir sobre a presença do escritor diplomado na
sociedade brasileira. De um pouco, tudo se diz no papo virtual da
revista Cronópios, mas há muita discussão ainda a ser feita.
Cheguei a escrever uma página onde via como válido um curso para
formação de agentes literários mas depois de reler meu texto, dar uma
volta pela casa, ouvir música e dançar, fiquei bem leve, foi quando me
veio à mente a palavra CÂNONE.
Esta palavra foi suficiente para me dar uma sensação de aborrecimento
pois me fez lembrar do episódio onde uma doutora empanturrou-se tanto de
cânones que até seus olhos ficaram embaçados. Tal senhora assim
canonizada, ameaçou processar criminalmente uma escritora que, defendia
pontos de vista diferentes dos seus e, quanta audácia, fora dos cânones
do ofício!
Ai ai ai que canseira me dá certa gente diplomada.
Me lembrei das pessoas que me incentivam a publicar e demonstram que
escrever é também praticar o exercício da cidadania. É pensar antes,
durante e depois da ação de escrever. Escrever é compor, há uma música
que vem ao ouvido. É coisa muito íntima, exílio, solidão que não se
ensina. É de abrangência tão mais ampla e multifacetada do que um curso
possa suprir. Ser escritor não é muda que dê de semente, nem de galho.
Será bem difícil criar em cativeiro essa categoria. E olha que eu gosto
de tecnologia!
Alguém disse que o dinheiro compra até amor verdadeiro. Quem sabe em
laboratório super-equipado orientados por escritores consagrados se
formem escritores de sucesso?
Já os componentes dialéticos propulsores (que só o sujeito e sua própria
história em processo ininterrupto são capazes de gerar), do vômito da
palavra, daquilo que diferencia o ser que escreve, do ser escritor, são
desafios da fabricação in vitro.
Me lembrei que o escritor diplomado poderá vir a ser o opositor do homem
que não fez escola, não tem diploma, não é treinado, não tem um discurso
coerente, decente.
Me lembrei que o escritor sem diploma não tem decência, não tem
coerência com o já estabelecido, não tem o aval dos cânones e, aí mora a
sua roça. Exatamente na instância do escrever descaradamente é que
reside a genuinidade do sujeito escritor. Esse “desqualificado” sem
diploma fazendo arte e ou provocando sua cidadania desgarrado de
qualquer professor, é mestre de si. Quem vai julgar sua competência pode
ser o leitor, pode ser o tempo.. . E os poetas, estariam livres? Ou será
que alguém vai ensinar outrem a se emocionar assim e assado?
Mas, pensei também, se uma universidade bem conceituada junto com a ABL
o que, em tese, é a nata da literatura no Brasil, decidem por bem
inaugurar um curso para diplomar escritores não é esta dona de casa aqui
ao litoral sul do Brasil, que vai empombar!
E olha gente, sei valorizar um diploma, agora mesmo estou voltando aos
bancos escolares para iniciar um curso, só não consigo simpatizar com
uma “facul” para diplomar escritores. Ainda não me convenci. Quem sabe
daqui a uns tempos.
Que venham os escritores diplomados, ninguém há de conter o “de tudo um
pouco” que se cria e criar-se-á neste grande mercado que viraram nossas
vidas.
Quando as “faculdades por correspondência” afixarem seus cartazes “BREVE
AQUI, DIPLOMAS PARA ESCRITORES!” por certo uns e outros irão torcer seus
nasais.
Por fim vale lembrar de Lima Barreto, e Cruz e Sousa, escritor e poeta
enlouquecidos de dor e desamparo que morreram no abandono. Homens que
embora imensamente talentosos, não faziam parte da plêiade oficial, dos
“diplomados” da época.
Enquanto a internet ainda não é privilégio dos diplomados canônicos, vou
teclando, me misturando aos saltimbancos e menestréis. De preferência,
sem reis para louvar.
(10 de junho/2006)
CooJornal
no 480
Maria de Fátima Barreto Michels,
escritora
Laguna, RS
fbarreto@bizz.com.br
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