
22/07/2006
Ano 9 -
Número 486
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Maria de Fátima Barreto Michels
A Confraria de Quintana
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Para homenagear o gaúcho Mario Quintana pelo centenário de seu
nascimento, a completar-se neste 30 de julho, andava há alguns dias
relendo-o, pois desejava sentir o mundo o mais próximo possível, à
maneira do poeta.
Nesta busca fiquei conhecendo poesias e frases, que ainda não havia
lido. Confirmei, de uma vez por todas, que Quintana é mesmo um desses
artistas da palavra e, dele, a gente precisa ter sempre um livro ao
alcance das mãos.
Dito pelo próprio autor, a sua obra é sua tradução, fato este que
torna-me mais cativa ao ver transformado em poeta-práxis esse Mário que
embebedou-se de poesia até os derradeiros dias de sua existência. Ele
teve essa coragem, essa determinação.
A sabedoria de Quintana deixou-nos uma herança de valor imenso, porque a
vida que a um só tempo é fantástica, bela e lúgubre, foi comentada em
verso, traduzida em poética-arte mas, sobretudo, feita confissão grávida
de ritmo, graça,e leveza.
Rimou ele vida com paixão, produziu invejável peça polifônica que legou
a tantos que souberem ouvi-lo, para saborear-lhe as sutilezas de tons.
Sua obra é a relação amorosa que Quintana manteve com o cotidiano.
Particularmente aprecio no poeta, a herança de equilíbrio que ele nos
deixa, em não ceder aos encantos da loucura quando sabemos que a sua
sensibilidade foi amante fiel, permanente e confessa da rotina e da
realidade.
Ele é para mim uma forma de espiritualizada alegria, de fé na vida.
Fabulosa forma poética, pois que transmuta para o singelo e doce o que
pode ser mistério ou desatino.
Sou muito suspeita para falar de Mário Quintana, não sirvo pra isso! Na
verdade tenho convicção de que ele é um estilo de vida a ser adotado.
Acredito que Quintana é um curso que todos nós precisamos fazer para que
nos tornemos menos presunçosos, para que aprendamos mais de nós mesmos,
do outro, do amor e do mundo. Com elegância.
Há quem o veja em momentos de surrealismo, outros de simbolismo, etc., o
certo é que os especialistas sempre tentarão fixá-lo a alguma corrente
literária, afinal o apuro acadêmico existe mesmo para atribuir e ou,
pretensamente, desvendar signos.
Para aqueles com quem se aborreceu, o gaúcho poeta fez versos assim:
“...estou triste porque vocês são burros e feios, e não morrem nunca...”
Que, aliás, considero atualíssimos, se aplicarmos a certos poderosos do
planeta.
Durante os últimos dias estive, conforme referi-me antes, envolvendo-me
com a obra de Quintana, cheguei mesmo a fazer duas tentativas de
escrever-lhe algo mas, nada me agradava, como também agora, não me sinto
satisfeita. Jamais me sentirei.
Hoje quando conversava com Luiz Carlos Amorim, poeta catarinense e como
eu, também apaixonado pela obra de Mário Quintana, nos propusemos a
espalhar a idéia da criação de uma confraria quintaniana!
É isto mesmo, uma confraria! Que tal? Não será esta, uma maneira de nos
embebedarmos do que há do bom e do melhor na poesia brasileira?
Adotado feito sabedoria revestida da linguagem poética, é Mário Quintana
um poeta para ser consumido, testemunhado, no exercício do cotidiano.
Ah! Poeta, se eu soubesse dizer coisas lindas, divertidas e inebriantes
como as que nos dizes quando lemos tua obra! Parabéns, soberano das
singelezas!
Construções que só hábeis artífices sabem erguer!
(22 de julho/2006)
CooJornal
no 486
Maria de Fátima Barreto Michels,
escritora
Laguna, RS
fbarreto@bizz.com.br
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