12/08/2006
Ano 10 - Número 489

ARQUIVO
FÁTIMA DE LAGUNA

 

Maria de Fátima Barreto Michels

 

Marietinha, minha lesma de estimação

 

A Ecologia, ciência de grande valor para a Terra e para o homem, vem estudando e demonstrando a importância dos encadeamentos na vida de cada ser e suas inter-relações com os demais, para o equilíbrio da natureza.

O mundo da botânica da zoologia nos mares e florestas, possui limites na sua capacidade de suportar a intromissão humana em seus nichos, suas leis e segredos. Recentemente a TV mostrou em um bairro de cidade vizinha a capital catarinense, a proliferação excessiva de um molusco terrestre provido de concha com riscas longitudinais em cores que vão, do lilás ao vinho passando por um tom amarronzado, conhecido por caracol africano, caracol gigante, etc.

A espécie achatina fulica foi trazida da África com intenções comerciais imaginada tornar-se interessante, a exemplo do escargot, que é consumido como especialidade, principalmente pelos franceses. Percebido inviável, o projeto foi abandonado e o molusco artrópode também, virando praga para os agricultores em regiões de vários estados brasileiros. No verão de 2004 após uma chuvarada visitei um quintal em minha cidade e de lá trouxe para um vaso, uma outra espécie, cuja concha de cor esbranquiçada, possui detalhe tal qual uma bainha ao redor de toda a abertura na concha, aspecto anatômico não identificado nas fotos da achatina fulica. A espécie estrangeira tem inclusive cerca de 2 a 3 cortes transversais a mais também na porção calcária, dividindo em maior número de segmentos seu desenho externo. Entretanto, dentre as várias matérias que vi acerca da espécie africana, li a informação de que ambos os moluscos são praticamente iguais em determinada fase de crescimento o que dificulta a sua identificação. Há cerca de quase meio século quando crianças gostávamos de procurar na chácara os ovinhos brancos, tamanho de uma pequena azeitona que, eram considerados de nossas imaginárias mini-galinhas, embora soubéssemos se tratassem de ovos de lesma, conforme explicavam nossos pais.

A espécie nativa brasileira, enquanto não encontra um de seus predadores naturais, dentre os quais aves de rapina, desempenha importante papel na cadeia ecológica semelhante ao de outros bichinhos que vivem no solo como, por exemplo, as minhocas. Lá na África, por certo a achatina fulica não causa estragos e não é praga, a menos que, infectada por Angiostrongylus costaricensis e ou Angiostrongylus cantonensis transmissores de doenças letais ao homem. Endereços na Internet como da UERG, Conchas Brasil, Agrolink trazem excelentes informações sobre o caracol gigante africano. O equívoco e a irresponsabilidade do homem têm ao menos em sua ocorrência o melhor argumento para que eduquemos as crianças com a correta informação. Maria Antonieta, ou Marietinha, como a chamavam os amigos que a conheciam através de fotos que enviei, foi devolvida depois de alguns meses ao seu quintal de origem.

Quanto à Maria Antonieta, majestade francesa que foi levada à guilhotina, devia ter lá seus defeitos porém, inspirou-me a colocar seu belo nome na lesma de estimação. Marietinha, molusco hermafrodita, foi importante para que eu descobrisse a estrangeira achatina fulica.

Outro dia contarei das inúmeras atividades comportamentais de Marietinha enquanto pude observá-la durante os meses em que morou no enorme vaso de flores aqui na varanda.

Maria Antonieta por exemplo, colocou ovinhos e teve cerca de 9 a 12 descendentes dos quais, os sobreviventes da seleção natural, mudaram-se também com ela e o grande vaso de orquídeas.

Hoje sei que Maria Antonieta não será, enquanto viver, uma lesma desequilibrada pois foi devolvida ao seu habitat. Será um dia quem sabe, o suculento jantar de uma coruja buraqueira.

É a lei da vida, seus elos e seu ciclo.


 
(12 de agosto/2006)
CooJornal no 489


Maria de Fátima Barreto Michels,
escritora
Laguna, SC
fbarreto@bizz.com.br