
16/09/2006
Ano 10 -
Número 494
ARQUIVO
FÁTIMA DE LAGUNA |
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Maria de Fátima Barreto Michels
De leve
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Minha cabeça está leve.
Não quero nada. Nem um chá. Obrigada. Nada desejo. Nem morrer.
Pois tem gente que às vezes quer morrer, você sabe.
E, você sabe, quando morremos, deixamos a individualidade e retornamos
ao Todo.
Talvez esse Todo seja Deus, então, lhe digo, não tenho pressa de "ser
Deus".
Estou leve, deixe-me ficar comigo. Apenas é o que lhe peço, amigo(a).
Nem para o deserto desejo ir. Para lá só vão os valentes.
Para o deserto, já bati pé que eu iria, mas acho que era só charme,
daquela vez.
Minha cabeça está leve, veja só: nem tudo é tão ruim assim.
Mamãe foi morar na capital. Mamãe está de apartamento novo. Estante nova
e novos livros. Anda lendo. Só o que me incomoda é que ela não se
interessa em aprender a usar o computador. Minha mãe faz amizade fácil
com as pessoas, e conforme disse-me ontem, enquanto escovava a dentadura
(arcada superior, achei-a diferente sem dentadura, há anos eu não a via
sem) "entrei para um grupo tão legal, a gente visita as pessoas idosas,
confecciona peças para bebês carentes, faz passeios...".
Ah! Atualmente minha mãe corta os cabelos em outro salão e vai sozinha
ao Mercado Municipal, comprar tainha. Meu Deus, será que quando eu
passar dos 80, que nem ela, conseguirei ir sozinha ao mercado, comprar
peixes?
Mamãe está mais feliz do que é, acredite. E eu talvez seja mais leve do
que estou!
Filhota é uma mulher linda, mas será sempre minha criança, claro, pois
quem é que se livra de mãe? Com a idade dela (21 aninhos), eu não sabia
usar um computador e muito menos dirigir um automóvel numa cidade de
médio porte, como aquela onde ela mora. Com a idade dela eu não sabia
assar uma anchova, fazer um bolo, um feijão, uma sobremesa e — nem
pensar! — eu saberia suturar a mão de um senhor de 60 anos, como
estagiária num pronto-socorro de hospital. Com a idade dela eu já era a
mesma de hoje. De notória preguiça e leveza. À época, já dizia que
gostaria de estar sempre tecendo considerações acerca do nada. Pura
falta de juízo, pois ignorava que o nada existisse.
Filhota estuda muito, isto me aborrece. Me dá dó. Mas se não estudar,
como poderá ganhar a vida? Está tudo tão difícil hoje. Mas filhota ainda
arruma tempo pra namorar. Porque, convenhamos: namorar, ficar, ir a
festas, é preciso. É como navegar.
E eu tô leve. Minha cabeça está leve. Levemente triste.
Não, obrigada amigo(a), não quero nada. Nem que você me telefone!
Agradeço. Na sinceridade. Eu só quero mesmo é ter o direito de ficar
quieta. Não vou abrir meu "autiluqui". Então você está dispensado(a) de
enviar-me mensagens.
Até meu marido está chateado comigo, pois não quero ver tevê com ele na
cama. Na cama só quero dormir. Não pra sempre, claro! Que a vida não se
livra da gente assim. (A vida se livra da gente é quando ela bem entende
que deve fazê-lo.)
Sim, sei que há casos de pessoas que se desesperam e cometem suicídio,
libertam-se da vida. Mas sou a pessoa mais preguiçosa que mamãe já teve
(e foi ela mesma quem falou). Minha preguiça é tamanha, que gosto de
acordar cedinho pra ter mais tempo de fazer nada. Uma pessoa assim, como
eu, raramente desfaz-se de algo que não esteja indo bem. Mesmo que seja
a vida.
Deixe-me amigo(a), por favor. Deixe-me. O máximo que lhe peço é ter o
mínimo direito de estar triste. Estou apenas leve. Levemente triste.
Pega leve!
Outro dia, liguei para uma amiga muito amada (já passou dos oitenta
também, que nem mamãe), ela falou-me só de coisas boas quando lhe
perguntei se estava bem. Disse-me ainda, em tom muito leve, "Fátima, eu
só preciso de paz". Depois convidou-me a ir vê-la.
Estou leve, levemente triste. A tristeza leve é uma coisa assim meio
aborrecida, porque quando se trata de uma tristeza pesadona os amigos
ajudam a carregar.
Amigos, desculpem-me, não estou com vontade de conversar com vocês. Ah!
E deixem para me visitar em outra ocasião. Se de fato me querem bem.
Tenho a impressão de que o sinônimo mais adequado para a palavra
REALIDADE é: LEVEMENTE TRISTE.
(16 de setembro/2006)
CooJornal
no 494
Maria de Fátima Barreto Michels,
escritora
Laguna, SC
fbarreto@bizz.com.br
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