
30/09/2006
Ano 10 -
Número 496
ARQUIVO
FÁTIMA DE LAGUNA |
|
Maria de Fátima Barreto Michels
Tarrafas & Rendas lagunenses
|
 |
|

Miniatura de cavalete, almofada
e bilros produzidos em Laguna
por Pinheiro e Maria Carmem.
|
|
Aqui em Laguna, existem localidades para onde se vai de barco ou através
de balsa. Além de banhados pelo Atlântico possuímos várias lagoas que
nos cercam.
Após atravessar para o “lado de lá” pode-se ir até o Farol de Santa
Marta, lugar privilegiado da natureza, mas naquele dia só estávamos
mesmo era querendo conhecer e fotografar o trabalho das mulheres
rendeiras.
Éramos um reduzido grupo de meia dúzia, entre mães e crianças em busca
de entrevista e fotos para um trabalho escolar de nossas filhas. Fomos
até os Molhes da Barra e atravessando de bote o canal, logo caminhávamos
pelas sossegadas ruas do lugar, perguntando pelas rendeiras.
|
A sensação
de estar pesquisando conferia ao objeto do estudo bem como às
estudantes, uma certa notoriedade ao mesmo tempo, ia gerando um clima
agradável de relativa importância que naquela tarde, ia nos envolvendo.
|
Três senhoras rendeiras nos receberam em suas casas com muita simpatia,
gentileza e simplicidade facilitando assim nossas abordagens em diálogos
esclarecedores quanto à arte das rendas de bilros.
Lá na Barra, nome do lugar onde estávamos colaborando com o trabalho
escolar de nossas crianças, sentimo-nos muito bem atendidas pela
comunidade. Geralmente nas casas só se encontravam as mulheres com seus
filhos ou netos menores, pois se tratava de um sábado cheio de sol,
oportunidade quando os demais familiares reuniam-se junto ao campinho de
futebol. Equipes masculinas e femininas vinham de outras localidades se
apresentarem, competindo com as do lugar.
|

Miniatura de cavalete, almofada
e bilros produzidos em Laguna
por Pinheiro e Maria Carmem. |
Só na dona Maria é que encontramos o anfitrião também por casa, seu
Antonio deu-nos boa tarde lá do quintal enquanto fotografávamos sua
esposa manuseando sua arte de fazer rendas.
Por ali nos demorávamos um tanto e seu Antonio veio chegando para perto
do nosso grupo no seu jeito simples de pescador com a experiência lá dos
seus 70 anos mais ou menos. A casa de madeira bem arrumada e dona Maria
a nos mostrar sua produção de toalhinhas até que o homem não se conteve,
e puxou conversa:
“-As senhoras não querem ver meus trabalhos?”
Ao mesmo tempo em que nos dirigia a palavra seu Antonio abriu a porta de
um dos cômodos onde quatro tarrafas novinhas pendiam dependuradas em
pregos nas tábuas da parede.
Tomadas de surpresa inclusive a própria esposa, pela alegria de seu
Antonio em nos mostrar sua arte de fazer tarrafas tomei a iniciativa de
ir logo elogiando o pescador artesão. Percebi que naquele instante ele
sentira necessidade de incluir-se na pesquisa, apesar de sua competência
não ser exatamente o enfoque requisitado no momento.
Devido ao modo reservado de ser, e talvez por isto dona Maria deixasse
transparecer uma certa contrariedade à exibição que nos proporcionava o
dono da casa. Por certo o fato a aborrecera um tanto.
Ela demonstrava acanhamento diante da mostra das tarrafas que seu marido
fazia para as visitantes. Fiz questão de dirigir àquele homem algumas
perguntas relacionadas a tempo, materiais utilizados e custos na
produção de uma tarrafa, ao que ele muito faceiro ia respondendo e
juntando informações.
Despedimo-nos do casal após comprarmos uma toalhinha de renda da dona
Maria e fomos para o trapiche esperar o bote para a viagem de retorno.
As alunas tiraram nota dez no trabalho. Aquele homem, que fazia umas
rendas de nylon para encantar peixes distraídos, ficou em minha mente
tal qual menino que constrói sua pandorga e deseja mostrá-la. Não dá
para esquecer, do velho pescador que fez questão de roubar a cena e nos
apresentar o seu produto. Repartiu conosco o seu saber fazer. O seu
conhecimento é o passaporte para a sua sobrevivência! Sua rede é sua
renda. Obrigada Antonio, parabéns!
(30 de setembro/2006)
CooJornal
no 496
Maria de Fátima Barreto Michels,
escritora
Laguna, SC
fbarreto@bizz.com.br
|
|