
07/10/2006
Ano 10 -
Número 497
ARQUIVO
FÁTIMA DE LAGUNA |
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Maria de Fátima Barreto Michels
Carta para um cego determinado
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Quem sou eu, caro poeta, para dizer coisas a um escritor da sua
estatura?
Ora, isso não importa! Poetas se compreendem, mesmo quando são anões que
tentam dizer coisas a gigantes.
Sua obra é perturbadora e atemporal, porque diz do futuro, do passado e
do presente, tudo ao mesmo tempo.
Você dá de relho na gente. Bate na nossa cara, nos nossos flancos, no
nosso lombo. Você bate na minha história, no meu sonho, na minha flor.
Diz que por baixo da minha roupa nova tem um corpo que é podre, quase
podre. Quase podre é muito pior do que podre. Você incomoda, porque diz
de si, de mim, de outrem, d'alhures, daqui, dali e talvez até de Dalí.
Quem sabe até, sua obra diga de nenhures, algures, porque merda,
escarro, porra e outras coisas mais, serão pó. Dia desses, pó em
otimista perspectiva, pois dizem que daqui a pouco nem pó vai sobrar
neste planeta que violentamos a cada segundo. E o fazemos às
gargalhadas, admitamos.
Aporrinhações ecológicas à parte, você atormenta o seu leitor e, caso
ele sobreviva aos seus maus tratos, perceberá quem sabe, a ARTE
fabulosa, a espantosa literatura que você produz.
Na horrenda cena que fotografa, com a palavra que esfaqueia na linguagem
destes malditos poemas e poética singulares, você comove-nos.
Arrebata-nos, enquanto constrange, em estética de difícil acesso.
Por fim você põe-nos de joelhos e aí confessamos: Glauco me faz chorar,
e a seco, com o talento que demonstra em sua obra.
Certa vez ouvi contar que Vinicius de Moraes, na platéia de um teatro,
assistia a um espetáculo em que se apresentava Astor Piazzolla. Lá pelas
tantas o poeta brasileiro não se conteve de tanto gozo, de tanta
maravilha que era ouvir aquele bandoneon e (dizem) berrou: "filho da
puta!". Talvez não me faça clara com o que digo aqui, mas suponhamos que
eu tenha sobrevivido ao seu bandoneon, Glauco. Sou uma senhora distinta
de uma pequenina cidade (dizem), e farei minhas as palavras de Vinicius.
(07 de outubro/2006)
CooJornal
no 497
Maria de Fátima Barreto Michels,
escritora
Laguna, SC
fbarreto@bizz.com.br
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