28/10/2006
Ano 10 - Número 500

ARQUIVO
FÁTIMA DE LAGUNA

 

Maria de Fátima Barreto Michels

 

ARTUR era galo pra chuchu!
 

 

Na rua Almirante Lamego, no espaçoso terreno daquela casa, criaram-se diversos filhotes de animais domésticos e até nos visitaram outros bichinhos menos desejados mas, todos com direito ao seu pedaço no ecossistema, por certo .
Gatos, cães, lagartos, gambás, aranquãs, sapos, galináceos, grilos, morcegos, corujas, lesmas, minhocas, borboletas, joaninhas, canários, joões-de-barro, louva-a-deus, etc
A oportunidade que aqueles bichinhos ofereciam de nos mostrar seu modo de vida era uma escola, até porque, tínhamos criança crescendo junto e se encantando com a vida.
Logo que acordava, nossa filhota ia até o quintal olhar os pintinhos que bicavam farelos de ração.

Com quatro sarrafos servindo-lhe de pés, a uns oitenta centímetros do chão, aquela caixa de metro quadrado, com um telhadinho de amianto e parede frontal feita com tela de arame, adquiria aspecto de um... sobrado-galinheiro!

Pela portinhola retirávamos as três pequenas aves para um passeio pelo chão. Ali permanecíamos acompanhando os graciosos pintos que, presenteados pela professora Beatriz a vizinha, catavam os minúsculos comestíveis. Enquanto descobriam o mundo observávamos seus ir e vir. Tempo e comida agindo juntos e os hospedes do mini-aviário foram crescendo e se identificando, ou seja: tínhamos duas futuras galinhas e um anunciador das manhãs.
Artur! Assim chamaríamos o galo, pois este nome, o mesmo do líder dos cavaleiros bretões, faria jus ao futuro rei do terreiro. As frangas, por questões éticas culturais não seriam agraciadas com nomes de gente. Em nosso país o substantivo galinha pode transformar-se em pejorativo adjetivo...

Antes do que supúnhamos, talvez por precocidade, característica genética ou para honrar o nome recebido, Artur cresceu exageradamente. Revelou-se também um galo de maus modos, correndo atrás de crianças e ameaçando-as. Nossa filha já não se enternecia com Artur que enorme e desengonçado, um dia alcançou-a dando-lhe forte bicada na perna. Após o susto e o breve choro da pequena, começamos todos a rir da estupidez e ousadia daquele galo. Planejá-lo como o prato principal do almoço de domingo foi decisão unânime e imediata.

Já no sábado, tia Jaci, nossa chefe de cozinha para cardápios especiais, deixou Artur temperado na geladeira. Colocar o galo no forno (com batatas e ervilhas) e cuidar até ficar bem assadinho seria minha tarefa matutina do dia seguinte.
Nesta época, Fido e Charlot, nossos cães da raça boxer, usavam parte do quintal onde tinham casa e canil além de área livre. Um motor puxava água do subsolo para uma caixa-reservatório ou conforme a opção desejada, para uma grossa mangueira que oferecia forte jato, ideal para lavação de calçadas, canil, carro, etc. e também abastecia a máquina de lavar roupas.
Lá pelas dez da manhã, no ensolarado domingo, com o cheirinho delicioso do tempero feito pela tia Jaci, foi o Artur para o forno. Lavei os legumes, as folhas, encaminhei o arroz, deixei a mesa posta e fui para o varal estender umas peças. Lá da rua, no quintal eu espiava através e para a porta de tela o forno, onde o galo assava.
Sabia que era uma ave grande, mas não imaginei que começava a destilar muita gordura a qual se acumulava e aquecia na fôrma, e que gradualmente ia escorrendo ao seu redor.
No quintal, Fido e Charlot faziam-me companhia quando de surpresa, fui atraída por uma claridade que vinha do fogão. Percebi de imediato, Artur entrava em combustão!
A gordura quente que dele se derretera, atraíra o fogo.
Um perigoso e incendiário galo punha em risco a minha cozinha com os utensílios e meus eletrodomésticos!. Agitada voei até a lavanderia e acionei o motor da bomba d’água. Corri para a horta onde ficavam os registros sob a caixa d’água abrindo totalmente o do mangueirão que já esguichando água, desenrolava-se aos pinotes.
Fido e Charlot interpretaram tudo como um convite à brincadeira e seguiram-me aos saltos, em clima de emergência. Foi assim que empunhando o jato em vazão máxima, junto com Fido e Charlot corremos pelo piso encharcado na direção da cozinha. Perdi-me na curva e ao invés de adentrar à porta fui no escorregão já deslizando sentada abalroando Charlot que em ritmo de festa saltou sobre mim, sendo imitada por Fido. Ambos me davam lambidas pela cara, faceiros enquanto Artur estava em chamas.
Consegui livrar-me dos bagunceiros e de quatro (acho que eu já era cachorra também, naquele instante), entrei na cozinha, abri a porta do forno, apaguei o galo, fechei o gás e desliguei o forno. Talvez não nesta exata seqüência.

Nessa hora, com os riscos e perigos controlados, sentei-me. Ri, e ri muito. Desatei a rir sozinha. Ri muito de mim mesma. Sentada, encharcada, com a cozinha inundada e uma mangueira digna de uma corporação de bombeiros , ainda ligada nas mãos.
Fido e Charlot atônitos, com a língua de fora excitados de alegria, olhavam-me.
Imóveis. Aguardavam por certo um mínimo próximo movimento para recomeçar outra aventura, outra agitada diversão.
Custei a dar jeito naquele forno e naquele assado.
Felizmente a única vítima foi o galo que pôde sim, ser perfeitamente aproveitado para o almoço.
Os que dormiam na preguiça da manhã dominical, duvidaram das tantas aventuras que narrei e lamentaram não me terem visto na função de bombeiro.
Fido e Charlot nossos adoráveis cachorros, demonstraram mais uma vez sua disposição e saúde, para travessuras na maioria das vezes, bem como seu inesgotável caráter lúdico que afinal é o que nos deixa apaixonados, por certos cães.
Quanto a mim só uma boa soneca vespertina recuperou do susto que me dera o “rei” Artur. Um galo saboroso pra chuchu.
 

Foto de Artur antes de “entrar em combustão”
– Por Fátima de Laguna



(28 de outubro/2006)
CooJornal no 500


Maria de Fátima Barreto Michels,
escritora
Laguna, SC
fbarreto@bizz.com.br