Na rua Almirante Lamego, no espaçoso terreno daquela casa, criaram-se
diversos filhotes de animais domésticos e até nos visitaram outros
bichinhos menos desejados mas, todos com direito ao seu pedaço no
ecossistema, por certo .
Gatos, cães, lagartos, gambás, aranquãs, sapos, galináceos, grilos,
morcegos, corujas, lesmas, minhocas, borboletas, joaninhas, canários,
joões-de-barro, louva-a-deus, etc
A oportunidade que aqueles bichinhos ofereciam de nos mostrar seu modo
de vida era uma escola, até porque, tínhamos criança crescendo junto e
se encantando com a vida.
Logo que acordava, nossa filhota ia até o quintal olhar os pintinhos que
bicavam farelos de ração.
Com quatro sarrafos servindo-lhe de pés, a uns oitenta centímetros do
chão, aquela caixa de metro quadrado, com um telhadinho de amianto e
parede frontal feita com tela de arame, adquiria aspecto de um...
sobrado-galinheiro!
Pela portinhola retirávamos as três pequenas aves para um passeio pelo
chão. Ali permanecíamos acompanhando os graciosos pintos que,
presenteados pela professora Beatriz a vizinha, catavam os minúsculos
comestíveis. Enquanto descobriam o mundo observávamos seus ir e vir.
Tempo e comida agindo juntos e os hospedes do mini-aviário foram
crescendo e se identificando, ou seja: tínhamos duas futuras galinhas e
um anunciador das manhãs.
Artur! Assim chamaríamos o galo, pois este nome, o mesmo do líder dos
cavaleiros bretões, faria jus ao futuro rei do terreiro. As frangas, por
questões éticas culturais não seriam agraciadas com nomes de gente. Em
nosso país o substantivo galinha pode transformar-se em pejorativo
adjetivo...
Antes do que supúnhamos, talvez por precocidade, característica genética
ou para honrar o nome recebido, Artur cresceu exageradamente. Revelou-se
também um galo de maus modos, correndo atrás de crianças e ameaçando-as.
Nossa filha já não se enternecia com Artur que enorme e desengonçado, um
dia alcançou-a dando-lhe forte bicada na perna. Após o susto e o breve
choro da pequena, começamos todos a rir da estupidez e ousadia daquele
galo. Planejá-lo como o prato principal do almoço de domingo foi decisão
unânime e imediata.
Já no sábado, tia Jaci, nossa chefe de cozinha para cardápios especiais,
deixou Artur temperado na geladeira. Colocar o galo no forno (com
batatas e ervilhas) e cuidar até ficar bem assadinho seria minha tarefa
matutina do dia seguinte.
Nesta época, Fido e Charlot, nossos cães da raça boxer, usavam parte do
quintal onde tinham casa e canil além de área livre. Um motor puxava
água do subsolo para uma caixa-reservatório ou conforme a opção
desejada, para uma grossa mangueira que oferecia forte jato, ideal para
lavação de calçadas, canil, carro, etc. e também abastecia a máquina de
lavar roupas.
Lá pelas dez da manhã, no ensolarado domingo, com o cheirinho delicioso
do tempero feito pela tia Jaci, foi o Artur para o forno. Lavei os
legumes, as folhas, encaminhei o arroz, deixei a mesa posta e fui para o
varal estender umas peças. Lá da rua, no quintal eu espiava através e
para a porta de tela o forno, onde o galo assava.
Sabia que era uma ave grande, mas não imaginei que começava a destilar
muita gordura a qual se acumulava e aquecia na fôrma, e que gradualmente
ia escorrendo ao seu redor.
No quintal, Fido e Charlot faziam-me companhia quando de surpresa, fui
atraída por uma claridade que vinha do fogão. Percebi de imediato, Artur
entrava em combustão!
A gordura quente que dele se derretera, atraíra o fogo.
Um perigoso e incendiário galo punha em risco a minha cozinha com os
utensílios e meus eletrodomésticos!. Agitada voei até a lavanderia e
acionei o motor da bomba d’água. Corri para a horta onde ficavam os
registros sob a caixa d’água abrindo totalmente o do mangueirão que já
esguichando água, desenrolava-se aos pinotes.
Fido e Charlot interpretaram tudo como um convite à brincadeira e
seguiram-me aos saltos, em clima de emergência. Foi assim que empunhando
o jato em vazão máxima, junto com Fido e Charlot corremos pelo piso
encharcado na direção da cozinha. Perdi-me na curva e ao invés de
adentrar à porta fui no escorregão já deslizando sentada abalroando
Charlot que em ritmo de festa saltou sobre mim, sendo imitada por Fido.
Ambos me davam lambidas pela cara, faceiros enquanto Artur estava em
chamas.
Consegui livrar-me dos bagunceiros e de quatro (acho que eu já era
cachorra também, naquele instante), entrei na cozinha, abri a porta do
forno, apaguei o galo, fechei o gás e desliguei o forno. Talvez não
nesta exata seqüência.
Nessa hora, com os riscos e perigos controlados, sentei-me. Ri, e ri
muito. Desatei a rir sozinha. Ri muito de mim mesma. Sentada,
encharcada, com a cozinha inundada e uma mangueira digna de uma
corporação de bombeiros , ainda ligada nas mãos.
Fido e Charlot atônitos, com a língua de fora excitados de alegria,
olhavam-me.
Imóveis. Aguardavam por certo um mínimo próximo movimento para recomeçar
outra aventura, outra agitada diversão.
Custei a dar jeito naquele forno e naquele assado.
Felizmente a única vítima foi o galo que pôde sim, ser perfeitamente
aproveitado para o almoço.
Os que dormiam na preguiça da manhã dominical, duvidaram das tantas
aventuras que narrei e lamentaram não me terem visto na função de
bombeiro.
Fido e Charlot nossos adoráveis cachorros, demonstraram mais uma vez sua
disposição e saúde, para travessuras na maioria das vezes, bem como seu
inesgotável caráter lúdico que afinal é o que nos deixa apaixonados, por
certos cães.
Quanto a mim só uma boa soneca vespertina recuperou do susto que me dera
o “rei” Artur. Um galo saboroso pra chuchu.

Foto de Artur antes de “entrar em combustão”
– Por Fátima de Laguna
(28 de outubro/2006)
CooJornal
no 500