04/11/2006
Ano 10 - Número 501

ARQUIVO
FÁTIMA DE LAGUNA

 

Maria de Fátima Barreto Michels

 

Conchas marinhas
 

 

Da primeira vez que te vi, eu procurava conchas e búzios pela praia.
A onda escoou, avistei um e juntei-o. Uma carninha alva recolheu-se para dentro dele. Teria que respeitar aquela forma de vida. Renunciaria aquele pequeno búzio tão lindinho. Ele, seu inquilino e o mar mantinham um caso perfeito de vital relação. Antes que o tridente mitológico (guardião e governador do oceano) me garfasse, devolvi a calcária formação ao seu habitat.
Caminhando... te aproximaste, sorrindo, fones ao ouvido (conchas te confessando intimidades?), trazias no olhar um jeito safado. Sem nunca ter me visto, me entregaste uma grande concha vazia de marisco. Aceitei. O cintilante porta-jóia fora domicílio de algum saboroso mexilhão. Sem palavra dita, me estendeste a mão direita que ficou retida, envolvida pelas minhas. Levemente pressionada (tua mão ficou presa por segundos) na concha bivalve, na repentina flor carnívora em que se transformavam minhas mãos. Eu disse “obrigada!”, e tu nada respondeste. Partiste.

Sempre tive uma certa fraqueza por mãos.
Um dia até falei para o médico. Ele era cardiologista e estava mais preocupado com a minha hipertensão. Não tive coragem de explicar, de contar tudo. É que em lugares públicos olho furtivamente para as mãos das pessoas. Considero especiais mãos com veias aparentes. Este fetiche me constrange, preciso fazer terapia. Teve uma época, inclusive, que eu beijava muito as mãos do meu amor. Certo dia, contei-lhe que me imaginava comendo mãos, ele se mostrou aborrecido e contrariado. Para não intimidá-lo, passei a beijar seus olhos, sua testa, sua boca, sua concha auditiva...
Na praia, conforme eu dizia, tive uma recaída, surtei mesmo, com tua mão entre as minhas. Se voltar a te ver...

Olha só, em casa, corri para o livro de Machado, o de Assis. Folheei bem rápido, tentando localizar alguma cena especial. Algo que descrevesse detalhadamente o exato momento (se é que ele existia) da mão saindo da luva, ou dentro dela se escondendo. Invejo a luva, venero a mão. Já madrugada, busquei descobrir quem fora Eurídice. Por que suas mãos teriam merecido o texto teatral de Pedro Bloch? O que explicaria o sucesso da tal peça? Nada me deu alento e fiquei contemplando minhas próprias mãos, lendo-as por puro regalo. Não as palmas, como qualquer quiromante. Aprecio é o dorso das mãos. Sem dúvida adoro mãos de todo tipo. Gosto até de simiescas mãos.

Gosto até das pequeninas mãos em forma de pinça dos caranguejinhos.
Se as pessoas se massageassem mais, umas às outras, todo o planeta seria mais descontraído. Imaginemos o uso poderoso e terapêutico das mãos em e, a favor da paz e do carinho.
Amanhã, pela tardinha, voltarei à praia, buscarei novas conchas e aumentarei minha coleção. Se vieres me trazer uma casa vazia de algum bichinho do mar? Se me trouxeres uma estrela? Se eu me trair diante de tuas mãos? Se eu me descontrolar?
Tenho uma alternativa. Não me leves a mal... Com relação às tuas mãos... tomá-las-ei postas entre as minhas. Em conchas, vou conduzi-las para aquele triângulo (não o de bermudas), e embora em rota de perdição, estarão protegidas do meu ataque canibal. Por lá, tuas mãos-concha acharão um berbigãozinho que, em nicho próprio, habita num discreto mimetismo. Abraçar-te-ei com ternura. Brincaremos igual às carninhas do mar. Esqueceremos as cracas-marcas que a vida e o tempo infligiram às nossas próprias cascas. Seremos e faremos como mexilhões apaixonados, namorando em simbiose perfeita. Ludicamente, interpretaremos para uma platéia seleta e boquiaberta de filhotes de siris, de savelhas, talvez, de gordinhos, ou peixes-rei em miniatura, tatuís e até curiosos maçaricos, típica fauna da beirinha rasa do mar.
Serei um navio naufragado, cujo tesouro incerto os tentáculos teus, de um polvo sem juízo, investigam. Quem sabe queiras representar Ulisses, te debatendo inteiro, bravamente derrotando os demônios de um insano mar-mulher por mim personificado? Ou então, ser meu Amyr e eu teu catamarã. Neste caso, velejaríamos em preguiçosa cabotagem pelas ilhas de Parati. Por fim, já lerdos, ficaremos, ensopados mexilhões exóticos, até quando anciã prostrar-se a noite.
Por atitudes assim, de desfrute e despudor tamanhos, afinal, Netuno levemente corado, há de nos expulsar das cercanias do seu reino.
Falsos melindres daquele soberano. Certamente ele também se rende a libidinosos carinhos.
Garanto que legiões de sereias circulam direto em sua colossal festa líquida. Na mansidão de praias desertas, com águas muito claras, senhor e súditas, enamorados, riem à toa, com tanto privilégio.

“...me entregaste uma grande concha vazia de marisco...”
Foto: Fátima de Laguna

 

(04 de novembro/2006)
CooJornal no 501


Maria de Fátima Barreto Michels,
escritora
Laguna, SC
fbarreto@bizz.com.br