
26/11/2006
Ano 10 -
Número 504
ARQUIVO
FÁTIMA DE LAGUNA |
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Maria de Fátima Barreto Michels
SE DANUZA PODE, EU TAMBEM QUERO!
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Alô Dona Marisa!
Aqui é a Fátima uma nada ilustre, ao contrário, sou leve sutil e
modestamente desconhecida.
Lógico pois, aqui em Laguna ao sul de Santa Catarina, tem trocentas
Fátimas! Mas garanto que aqui em casa sou a única a reinar, da porta
para dentro claro, o que para muitas mulheres já seria o máximo! Não é
mesmo? Estou escrevendo esta cartinha para a senhora porque há uns vinte
dias andei lendo a que a Danuza também escreveu.
Se a capixaba Danuza pode, não é porque ela é chique e rica que eu uma
modesta barriga-verde não possa escrever também! Não é mesmo, Dona
Marisa?
Na verdade eu gostava e gosto muito mesmo é da Nara, a irmã da Danuza.
Aquela doçura! Voz de tão suave timbre e afinadamente musical por
natureza.
Ai, que saudade me dá! Para minha surpresa outro dia comprei uma coleção
pelo correio e lá veio a Nara. Fico curtindo e nunca me canso. Oh!
delícia!
Sabe Dona Marisa, a Danuza deve ter peculiares motivos para
escrever-lhe, e a senhora como primeira dama por sua vez, deve ter lido
coisa que até Deus duvida.
Sou Maria Ninguém, mas no momento não quero emprego. É, só louco para
dizer que não quer emprego! O que eu não quero mesmo é trabalho.
Sabe o que é? É que ter marido na atual conjuntura
financeira-moral-psico-político-social, é suficiente para manter uma
mulher ocupada. Além do mais já fui professora (da escola pública por
sinal, e vivia nas quadras, na pistas, caixas de saltos, salas de
dança), cumpri minha parte e aposentei-me. E até muita greve fizemos, e
não escolhíamos partido. Trabalhar com nossos jovens é uma das
experiências mais belas, principalmente numa cidade pequena. Depois eles
ficam moços e moças tão lindos e continuam nos chamando de tia.
Bom, sempre gostei de ler e quando Danuza lançou “Na Sala com Danuza” eu
comprei, li inclusive da Constanza Pascolato “ O Essencial”, e também
algo de Glória Khalil . A senhora já sacou que não adquiri essas obras
com meu salário, é lógico, só estou explicando que não andava 365 dias
por ano de tênis e abrigo esportivo, e também me interessava em saber o
que as mulheres chiques pensavam. Inclusive interesso-me em saber o que
pensam os homens, tanto os poetas, quanto os cientistas, quanto os que
me vendem peixe, os que me transportam de táxi, os que consertam meus
eletrodomésticos... e até com os bebuns da cidade eu converso.
Bom, já estou fugindo do assunto, o que queria mesmo dizer, era o que
concluí, depois de muito matutar, ler e reler aquela crônica “carta a d
Marisa” do dia 5 na Folha: faltou assunto pra Danuza, daí ela escreveu
para a senhora.
Sugiro que Danuza escreva também para Luiza Erundina, Marilena Chauí,
Rose Marie Muraro, e outras tantas mulheres, mais ou menos notáveis .
Garanto que essas senhoras (assim conforme presumo que a senhora Dona
Marisa tenha feito), não terão tempo em suas agendas para responder `a
colunista, mas quem sabe eu fique cheia de assunto e consiga lançar algo
tipo assim :
“Lendo e pitacando o lero de Danuza”
O bom mesmo é que a famosa cronista da Folha forneceu mote ao texto que
eu precisava escrever. Sabe Dona Marisa, com a virtualidade a gente
publica para o mundo inteiro rapidinho. Sei muito bem que escrever é uma
coisa e ser lido é outra. Sei também que qualquer pessoa ignorante pode
escrever e publicar na internet, de repente sou um caso desses. Ah!
Deixa pra lá. Livro de papel é macanudo mas precisa grana ou então algum
editor que acredite. A Bruna surfistinha ta vendendo bem. Cá entre nós,
confesso, li aquela gororoba.
Por outro lado, já existe uma faculdade onde a gente pode estudar e ter
diploma de escritor. Bom, mas isto é outro papo, fica para uma outra
cartinha.
Ultimamente, dei para ficar invocada com gente grande. Outro dia
impliquei com Jabor. E ele Dona Marisa, é LÓGICO QUE LEU!!! Deve ter
ficado uma fera comigo.
Mas é o que falei, também preciso de assunto! A diferença é que Jabor e
Danuza são chiques, saem na Revista Caras e eu, nem na Bundas saí,
durante o tempo que a revista foi editada.
A senhora sabe, mais dia menos dia, bundas caem.
Pois é, minha carta está tão simplória né? Fazer o quê?
A diferença é que Danuza e Jabor fizeram cursos importantes e sabem dar
idéias, sugestões, de como resolver os problemas do Brasil e eu, sou
apenas uma velhinha aposentada que, “quero porque quero” tocar pandeiro
e cantar meu samba na beirinha da praia, comendo siri ensopado com arroz
e mais pirão de caldo de peixe...
Ah! Tambem adoro fotografar!
Bom, ta ficando tarde, e agora preciso ver as mais de 200 fotos que fiz
na linda festa açoriana que aconteceu aqui em Laguna no último final de
semana.
Um dos troféus açorianidade o Ilha das Flores, que sempre é destinado a
um artista plástico, este ano contemplou o Richard Calil Bulos, artista
naif que muito nos orgulha em Laguna e no Brasil.
O Núcleo de Estudos Açorianos da Universidade Federal de Santa Catarina,
a Secretaria de Cultura de Laguna e inúmeras cidades com raízes
açorianas realizaram em conjunto, bonita e cultural festa na nossa
cidade. O evento de nome AÇOR teve neste ano sua décima terceira edição,
e Laguna foi a escolhida da vez. Foram momentos de muita poesia,
congraçamento e alegria em forma de artesanato, gastronomia e danças
típicas baseadas no arquipélago açoriano.
Na quinta-feira quem nos visitou foi Sua Excelência a Senhora Patrícia
Carla Dourado Gaspar – Cônsul de Portugal para os Estados do Paraná e
Santa Catarina.
Muito belos e agradáveis, ela e seu marido. Percebemos o quanto acharam
bela nossa, de invejável historicidade, Igreja de Santo Antonio do
Anjos, na missa em ação de graças. Exodus, Panis Angelicus, Ave Maria de
Gounod, etc, apresentados pelo Coral Santo Antonio, de fato encantaram a
todos, como sempre acontece. No adro da matriz, perfilados estavam os
componentes da Sociedade Musical União dos Artistas, a mais antiga banda
musical do Brasil com 146 anos de existência.
Por falar em missa, estava deveras contagiante a missa açoriana neste
domingo, lotada de delegações com suas bandeiras do Divino, respectivos
músicos e cantadores. Emocionante e alegre evento que tive o prazer de
fotografar e compartir na fé açoriana, que também me atinge .
Agora, peço desculpas por tamanha audácia, Dona Marisa, por escrever-lhe
e à Senhora também Danuza, por inspirar-me em seu texto.
Mas a vida é assim mesmo, somos todos células de um só tecido social.
Agora abusada de vez, parodiando o célebre mineiro poeta Drumonnd eu
diria assim: Marisa que inspirava Danuza, que inspirava Fátima que não
inspirava ninguém ...
Ah! Dona Marisa, o presidente Lula já esteve aqui na tricentenária
Laguna este ano. Estava viajando naquele dia, e não cheguei a vê-lo.
Agora, “in off” queria pedir algo, continue dando aquele seu olhar
carinhoso para Laguna, Dona Marisa. Por favor, nosso povo lagunense está
tão necessitado!
Nossa histórica Laguna precisa de uma atenção especial e nosso prefeito
é bem amigo do seu esposo. A senhora sabe.
Que coincidência, escrevendo esta cartinha madrugada adentro, percebo
que amanhã já é 25 de novembro, quando reverenciamos Santa Catarina de
Alexandria!
A Santa invocada como protetora, pelos estudantes, intelectuais e
filósofos, honra a todos nós catarinenses que a escolhemos para nomear o
Estado. Na Ilha que também leva seu nome , está localizada a cidade de
Florianópolis, nossa capital. Viva Santa Catarina!
Terra de gente valorosa como a médica pediatra, sanitarista e humanista
Dra. Zilda Arns Neumann criadora da Pastoral da Criança.
Abraço da Fatima
P.S.: Aqui nesta revista carioca, chamada RIO TOTAL Dona Marisa, temos
vários escritores com as raízes dos Açores na alma. A maioria dos
colunistas barrigas-verde, viemos para o CooJornal trazidos pelo poeta
Luiz Carlos Amorim, que há 26 anos edita o “Suplemento Literário A Ilha”
, divulgando nossa terra e nossa gente, desde quando ele residia na
também litorânea ilha de São Francisco, importante porto catarinense.
Para ilustrar a crônica desta semana, escolhi uma tela (clicada na festa
décimo terceiro AÇOR) que traz figura típica do folclore catarinense, a
BERNÚNCIA. Em HOUAISS (que também admite ABRENUNÇA), ou mesmo no
AURELIÃO, o Brasil todo encontrará boa descrição do curioso bicho que
nós inventamos.

Óleo sobre tela da pintora
Maria Nazaré Barreto Speck – 13 AÇOR -
Foto: Fátima de Laguna
(26 de novembro/2006)
CooJornal
no 503
Maria de Fátima Barreto Michels,
escritora
Laguna, SC
fbarreto@bizz.com.br
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