23/12/2006
Ano 10 - Número 508

ARQUIVO
FÁTIMA DE LAGUNA

 

Maria de Fátima Barreto Michels

no escurinho do cinema

Faz tempo não entro numa sala de cinema. Para falar a verdade meu jejum foi quebrado com o “código da vinci” o que não chegou a encantar-me, exatamente. Nossa cidade possui um prédio onde já se projetou muita fita, e para as sessões dominicais, eram lotados ônibus nas cidades vizinhas para virem assistir a famosas produções de Hollywood bem como as ingênuas produções nacionais de há quarenta e tantos anos que o Cine Mussi projetava. Daquela que era considerada palaciana construção para a época, se saía muitas vezes com os olhos mareados quando ao final da história, o casal que se amava imensamente, era separado pelo destino.

Era lá no escurinho do cinema que nas poltronas, mocinhos e mocinhas também confessavam suas paixões em prolongados beijos, manifestações que naqueles tempos não eram feitas à luz do sol, em praça pública. Pelo menos aqui na Laguna, onde ainda uma elite cultural e política fazia pose e zelava pelos bons costumes. Apesar dessa moral vigente, eu ainda criança, ouvia dizer que fulana tinha um “filho natural” com sicrano ou beltrano. Concluía na minha imaginação, que se estava comentando dos homens casados que faziam filhos fora do casamento.
Na verdade a expressão “filho natural” confundia minha cabeça. Natural para mim era justamente a coisa mais próxima da legitimidade.

Com a chegada do aparelho de vídeo tive minha fase de copiar filmes. Gravava direto da TV, gravava de um vídeo para outro, até que me aborreci ao descobrir que tais fitas eram tomadas por fungos.
“Feios, sujos e malvados” do italiano Scola, “sonhos” de Kurosawa, “o auto da compadecida”, de Guel Arraes, “frida” de Julie Taymor, “o porteiro da meia noite” de Liliana Cavani, e muita coisa fantástica inclusive do passional Almodóvar, eu vi . Outro dia, na TV,causou-me grande entusiasmo o filme do brasileiro Karim Aïnouz, onde o ator Lázaro Ramos comprova ser hoje o grande talento , do cinema nacional. O filme sobre madame satã foi uma obra construída com arte, técnica, zelo, e talento.
Lázaro Ramos apaixona o espectador com sua impecável interpretação.

Neste ano de 2006 voltei a interessar-me sobre cinema.
No início do ano fui convidada a ir ver as filmagens que Mara Salla fazia baseada em conto da escritora catarinense Urda Klueger.
Fiquei muito empolgada e comecei a ler o dicionário de cinema que havia comprado.
Comecei a ler os artigos do escritor Francisco Carlos Lopes.
Apesar de não ter visto a fita, foi de Francisco Carlos Lopes o melhor artigo que li sobre o polêmico "o segredo de brokeback mountain" no site Verdes Trigos.
Estou lendo o livro sobre os 30 anos do festival de Gramado. Adquiri “Alma Açoriana” de Penna Filho e as obras que Sylvio Back colocou em DVD no mercado. Ambos são cineastas catarinenses, premiados.
Na verdade, ainda não tive tempo de ver nenhuma dessas fitas.

Ontem, fiquei muito feliz quando recebi da cineasta Mara Salla, o convite para o lançamento do filme, “por causa do papai noel” que já obteve premiações em vários festivais.
É natal e um bom filme, um artigo, ensaio, crônica ou resenha bem escritos, uma peça teatral ou o coral Santo Antonio cantando pelas ruas lagunenses são bons motivadores da alegria.
Na última sexta-feira tivemos o prazer de assistir o Grupo Terra de teatro, que fundado em 2002 e sob a direção de Jairo Barcelos, inaugurou o auditório “João da Silva Barbosa” aqui em Laguna. Foram apresentados dois esquetes com vários atores, havendo também ótima atuação de dois jovens que trabalharam interessante texto poético-filosófico de própria autoria.

Tendo vários amigos escritores e outros poetas que gostam do tema natividade, já comecei a receber livros de presente. De autoria deles mesmos e ou dos amigos que eles desejam divulgar. Uma delícia estas “trocas de figurinhas” aliás coisa que invariavelmente, fazia a meninada aos domingos, à saída da matinê. Todos querendo trocar as figurinhas duplicadas por uma novidade...


Ilustração – Aquarela de Marc Barreto Bogo
Foto - Fátima de Laguna

 


(23 de dezembro/2006)
CooJornal no 508


Maria de Fátima Barreto Michels,
escritora
Laguna, SC
fbarreto@bizz.com.br