13/01/2007
Ano 10 - Número 511

ARQUIVO
FÁTIMA DE LAGUNA

 

Maria de Fátima Barreto Michels



Mas, que é isso? É ouriço!

Foto de Maria de Fátima Barreto Michels - ouriço do mar

Combinamos que o café seria por volta de sete e meia para que o derradeiro sábado de 2006 rendesse uma agradável incursão pelas praias pouco exploradas do outro lado da barra. Pretendíamos fazer parte do percurso a pé, caso a temperatura e as distâncias não nos fizessem buscar abrigo no ar condicionado do carro.

Já passavam das nove horas quando fazíamos, de balsa, a travessia em direção as praias de Gravatá, Galheta e Ipuã.

Deixáramos para trás a entrada da trilha que levaria até Gravatá quando, ao sairmos da estrada de chão, enterramos as rodas do nosso carro numa pequena duna, a caminho da Galheta. Um atencioso senhor, da cidade de Brusque, sem nada avisar foi até a casa de veraneio onde estava e, com sua camionete, nos recolocou em terra mais firme, na praia semi-deserta, por onde percorremos Ipuã e chegamos até a ponta da Galheta. Como era agradável estar ali sobre as pedras em contato quase direto com a água. Havia pequeno grupo de casas, contemplávamos a imensa massa líquida do Atlântico, sentindo o refrescante vento do oceano. Estar sobre pedras de granito rosa por onde podíamos caminhar até juntinho das ondas e ter a perder de vista a amplidão de praia céu e mar era suficiente para compreender o estresse que acomete o homem urbano.

Em poucos instantes estávamos recebendo explicações acerca de um ouriço marinho que morava ali na pedra, onde vez em quando a água subia.

Em nossa equipe havia um casal de biólogos, o que tornava o passeio bem mais interessante. Trocávamos idéias sobre a beleza do lugar  enquanto Antônio jurava que 48 corvinas, de nove quilos cada uma, tinham sido pescadas por ele na região, há uns 15 anos, junto com um amigo. Fui clicando a vegetação baixa, bem junto ao solo, que brotava e florescia entre as pedras. Aproveitei para fotografar também, em várias posições, o ouriço-do-mar. Embora o ouriço-marinho se assemelhe a uma pelota com espinhos, tipo um fruto de mamoneira, dispensando quase totalmente a hipótese de posições variadas, cliquei-o em muitos ângulos e numa foto exclusiva para este texto. O que faria a diferença nas “poses” do tal ser marinho seria a incidência da luz. Aliás, a luz é tudo em fotografia, princípio básico que mesmo  esta super-amadora fotógrafa reconhece. Por falar nisto lembro que está me esperando, na estante, a continuação da leitura dos ensaios “Sobre Fotografia” da nova-iorquina Susan Sontag, uma das talentosas e importantes mentes, que o mundo infelizmente perdeu em dezembro de 2004. Ela dizia o que Bush não gostava de ouvir, por serem verdades. Sontag afirmou em artigo publicado antes de morrer: "a história recordará a Guerra do Iraque pelas fotografias e vídeos das torturas cometidas pelos soldados americanos na prisão de Abu Ghraib."

Mas retomando as explicações dos biólogos, descobrimos que o tal ouriço tinha costas e barriga. Claro, trouxe para esta crônica a clicada tipo “frontal de corpo inteiro” pois não sou uma estudiosa da zoologia e nem vocês estão interessados em saber onde fica o umbigo do ouriço-do-mar.

Era hora de prosseguir viagem, desejávamos aproveitar o clima agradável, havia outras opções como uma fazenda com fauna nativa de aves, capivaras, outras  com produção de camarão em cativeiro, etc. Um pouco mais adiante em direção ao Farol de Santa Marta, havia os sambaquis, alguns já em terras do vizinho município de Jaguaruna, objeto de estudos de arqueólogos internacionais devido a importância de tais patrimônios da humanidade.

Mas algo especial nos fez estacionar! Muito bem sentados ficamos à mesa de agradável restaurante à beira d’água cujo dono fez questão de nos receber pessoalmente dizendo que o peixe estava ótimo e nos esperando  um saboroso pirão de caldo. Almoçamos, nos detivemos alguns minutos por ali a apreciar o movimento do canal da barra, turistas, pescadores, canoas e o ir e vir das pessoas que o bote transportava ininterruptamente. 

Refeitos, tomamos novamente a balsa e retornamos a parte peninsular da Laguna.

Juntos, os biólogos da UFPR, o engenheiro lagunense, dois estudantes de Medicina da FURB e eu, tivemos o prazer de conhecer e visitar uma praia onde havia muita vida marinha que só especialistas sabem identificar e avaliar a importância para a saúde do planeta.

No período vespertino fomos até o vizinho município de Imbituba mostrar aos nossos visitantes a Praia da Vila onde no início de novembro foi realizado o Festival WCT Brasil 2006 de Surf. Novas fotos fizemos daquele belo lugar, outra ótima opção para se estar em contato direto com a natureza.

Melhor ainda foi ver no jornal, uns três dias após nosso passeio, que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) pretende implantar projeto onde a faixa litorânea de Florianópolis até Jaguaruna será transformada em parque arqueológico e áreas de patrimônio da humanidade.

Da importante proposta tivemos a alegria de ler na coluna de Raul Sartori do Jornal "A Notícia" de Joinville/SC o seguinte:

Segundo o arquiteto catarinense Dalmo Vieira, diretor do Iphan, a idéia é utilizar essas áreas na exploração turística, como ocorreu com o Caminho de Compostela, na Espanha. Na caminhada, com pouco mais de cem quilômetros entre Florianópolis e Jaguaruna, ecologistas e observadores de pássaros, entre outros, poderão se maravilhar com ecossistemas em torno das cerca de 50 lagoas, dunas e sambaquis...”

Tal leitura remeteu-me a uma outra “O povo das conchas”, obra editada pela Hemisfério Sul. O livro, um paradidático destinado a alunos do ensino básico, foi lançado no ano passado pela blumenauense Urda Klueger. A escritora, anualmente, integra a equipe de Madu Gaspar, estudiosa destes arqueológicos museus a céu aberto que a humanidade possui, na região de Laguna e Jaguaruna.

Quando crianças, se estivessem por perto adultos com algum objeto que não identificássemos e que aguçasse nosso interesse ou algum quitute especial  estivesse sendo preparado  que nos provocasse a pergunta  "O que é isso?",  não raras vezes ouvíamos uma costumeira e frustrante resposta que integrava o linguajar aqui do litoral sul. Nossas mães/avós quando desejavam omitir a resposta ao nosso insistente: “mas o que é isso?”, vinham com a desconcertante rima  “- é chouriço!”

Só vim a descobrir bem mais tarde que chouriço existe e trata-se de saborosa variedade de lingüiça muito utilizada na gastronomia de Espanha e Portugal. Por outro lado fiquei pasma ao descobrir na internet muitas receitas com ouriços-do- mar! Já o ouriço-cacheiro, mais conhecido por porco-espinho, parece que ainda não teve espaço no mundo gastronômico.

Em tempo, quando encerrava esta narrativa, minha mãe que já passou dos 80 anos e encontra-se passeando em Laguna, veio até minha saleta; então, imprimi este texto para que ela opinasse. Acrescento o que ela relatou-me: “Há cerca de setenta e poucos anos, porco-espinho, o ouriço-cacheiro, era comum na Mata Atlântica imediata à fazenda em que nasci. Era um prato bem apreciado, disse minha mãe, tão saboroso e disputado quanto o tatu-mulinha...

 

 
(13 de janeiro/2007)
CooJornal no 511


Maria de Fátima Barreto Michels,
escritora e fotógrafa
Laguna, SC
fbarreto@bizz.com.br