
Combinamos que o café
seria por volta de sete e meia para que o derradeiro sábado de 2006
rendesse uma agradável incursão pelas praias pouco exploradas do outro
lado da barra. Pretendíamos fazer parte do percurso a pé, caso a
temperatura e as distâncias não nos fizessem buscar abrigo no ar
condicionado do carro.
Já passavam das nove
horas quando fazíamos, de balsa, a travessia em direção as praias de
Gravatá, Galheta e Ipuã.
Deixáramos para trás
a entrada da trilha que levaria até Gravatá quando, ao sairmos da estrada
de chão, enterramos as rodas do nosso carro numa pequena duna, a caminho
da Galheta. Um atencioso senhor, da cidade de Brusque, sem nada avisar
foi até a casa de veraneio onde estava e, com sua camionete, nos
recolocou em terra mais firme, na praia semi-deserta, por onde
percorremos Ipuã e chegamos até a ponta da Galheta. Como era agradável
estar ali sobre as pedras em contato quase direto com a água. Havia
pequeno grupo de casas, contemplávamos a imensa massa líquida do
Atlântico, sentindo o refrescante vento do oceano. Estar sobre pedras de
granito rosa por onde podíamos caminhar até juntinho das ondas e ter a
perder de vista a amplidão de praia céu e mar era suficiente para
compreender o estresse que acomete o homem urbano.
Em poucos instantes
estávamos recebendo explicações acerca de um ouriço marinho que morava
ali na pedra, onde vez em quando a água subia.
Em nossa equipe havia
um casal de biólogos, o que tornava o passeio bem mais interessante.
Trocávamos idéias sobre a beleza do lugar enquanto Antônio jurava que
48 corvinas, de nove quilos cada uma, tinham sido pescadas por ele na
região, há uns 15 anos, junto com um amigo. Fui clicando a vegetação
baixa, bem junto ao solo, que brotava e florescia entre as pedras.
Aproveitei para fotografar também, em várias posições, o ouriço-do-mar.
Embora o ouriço-marinho se assemelhe a uma pelota com espinhos, tipo um
fruto de mamoneira, dispensando quase totalmente a hipótese de posições
variadas, cliquei-o em muitos ângulos e numa foto exclusiva para este
texto. O que faria a diferença nas “poses” do tal ser marinho seria a
incidência da luz. Aliás, a luz é tudo em fotografia, princípio básico
que mesmo esta super-amadora fotógrafa reconhece. Por falar nisto
lembro que está me esperando, na estante, a continuação da leitura dos
ensaios “Sobre Fotografia” da nova-iorquina Susan Sontag, uma das
talentosas e importantes mentes, que o mundo infelizmente perdeu em
dezembro de 2004. Ela dizia o que Bush não gostava de ouvir, por serem
verdades. Sontag afirmou em artigo publicado antes de morrer:
"a história
recordará a Guerra do Iraque pelas fotografias e vídeos das torturas
cometidas pelos soldados americanos na prisão de Abu Ghraib."
Mas
retomando as
explicações dos biólogos, descobrimos que o tal ouriço tinha costas e
barriga. Claro, trouxe para esta crônica a clicada tipo “frontal de
corpo inteiro” pois não sou uma estudiosa da zoologia e nem vocês estão
interessados em saber onde fica o umbigo do ouriço-do-mar.
Era hora de
prosseguir viagem, desejávamos aproveitar o clima agradável, havia
outras opções como uma fazenda com fauna nativa de aves, capivaras,
outras com produção de camarão em cativeiro, etc. Um pouco mais adiante
em direção ao Farol de Santa Marta, havia os sambaquis, alguns já em
terras do vizinho município de Jaguaruna, objeto de estudos de
arqueólogos internacionais devido a importância de tais patrimônios da
humanidade.
Mas algo especial nos
fez estacionar! Muito bem sentados ficamos à mesa de agradável
restaurante à beira d’água cujo dono fez questão de nos receber
pessoalmente dizendo que o peixe estava ótimo e nos esperando um
saboroso pirão de caldo. Almoçamos, nos detivemos alguns minutos por ali
a apreciar o movimento do canal da barra, turistas, pescadores, canoas e
o ir e vir das pessoas que o bote transportava ininterruptamente.
Refeitos, tomamos
novamente a balsa e retornamos a parte peninsular da Laguna.
Juntos, os biólogos
da UFPR, o engenheiro lagunense, dois estudantes de Medicina da FURB e
eu, tivemos o prazer de conhecer e visitar uma praia onde havia muita
vida marinha que só especialistas sabem identificar e avaliar a
importância para a saúde do planeta.
No período vespertino
fomos até o vizinho município de Imbituba mostrar aos nossos visitantes
a Praia da Vila onde no início de novembro foi realizado o Festival WCT Brasil
2006 de Surf. Novas fotos fizemos daquele belo lugar, outra ótima opção
para se estar em contato direto com a natureza.
Melhor ainda foi ver
no jornal, uns três dias após nosso passeio, que o Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) pretende implantar
projeto onde a faixa litorânea de Florianópolis até Jaguaruna será
transformada em parque arqueológico e áreas de patrimônio da humanidade.
Da importante
proposta tivemos a alegria de ler na coluna de Raul Sartori do Jornal "A Notícia" de Joinville/SC o seguinte:
“Segundo
o arquiteto catarinense Dalmo Vieira, diretor do Iphan, a idéia é
utilizar essas áreas na exploração turística, como ocorreu com o Caminho
de Compostela, na Espanha. Na caminhada, com pouco mais de cem
quilômetros entre Florianópolis e Jaguaruna, ecologistas e observadores
de pássaros, entre outros, poderão se maravilhar com ecossistemas em
torno das cerca de 50 lagoas, dunas e sambaquis...”
Tal leitura
remeteu-me a uma outra “O povo das conchas”, obra editada pela
Hemisfério Sul. O livro, um paradidático destinado a alunos do ensino
básico, foi lançado no ano passado pela blumenauense Urda Klueger. A
escritora, anualmente, integra a equipe de Madu Gaspar, estudiosa destes
arqueológicos museus a céu aberto que a humanidade possui, na região de
Laguna e Jaguaruna.
Quando crianças, se
estivessem por perto adultos com algum objeto que não identificássemos e
que aguçasse nosso interesse ou algum quitute especial estivesse sendo
preparado que nos provocasse a pergunta "O que é isso?", não raras vezes
ouvíamos uma costumeira e frustrante resposta que integrava o linguajar
aqui do litoral sul. Nossas mães/avós quando desejavam omitir a resposta
ao nosso insistente: “mas o que é isso?”, vinham com a desconcertante
rima “- é chouriço!”
Só vim a descobrir
bem mais tarde que chouriço existe e trata-se de saborosa variedade de
lingüiça muito utilizada na gastronomia de Espanha e Portugal. Por outro
lado fiquei pasma ao descobrir na internet muitas receitas com ouriços-do- mar! Já o ouriço-cacheiro, mais conhecido por porco-espinho, parece
que ainda não teve espaço no mundo gastronômico.
Em tempo, quando
encerrava esta narrativa, minha mãe que já passou dos 80 anos e
encontra-se passeando em Laguna, veio até minha saleta; então, imprimi
este texto para que ela opinasse. Acrescento o que ela relatou-me: “Há
cerca de setenta e poucos anos, porco-espinho, o ouriço-cacheiro, era
comum na Mata Atlântica imediata à fazenda em que nasci. Era um prato
bem apreciado, disse minha mãe, tão saboroso e disputado quanto o tatu-mulinha...
(13 de janeiro/2007)
CooJornal
no 511