
20/01/2007
Ano 10 -
Número 512
ARQUIVO
FÁTIMA DE LAGUNA |
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Maria de Fátima Barreto Michels
Vamos curar nossas vidas?
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Mais uma
violência sexual contra uma criança foi cometida por um adulto, por
estes dias de início de ano, em cidade próxima. No último semestre a
imprensa publicou três casos na mesma cidade (um deles com o assassinato
da criança).
São alarmantes as variedades de circunstâncias e os relatos dos
criminosos, quando são presos.
São variadas as classes sociais e as idades desses homens que estão
tomados pelas mais estarrecedoras formas de comportamento violento.
Absolutamente desumana e incompreensível a maneira como agem essas
criaturas.
Em geral alegam estarem sob efeito de álcool e ou drogas. E há casos em
que agem em conivência com suas desequilibradas companheiras contra a
criança que pode ser filha de ambos ou de um dos dois.
A sociedade está doente. Muito doente. Isto não é novidade para ninguém.
Há bebês deixados em lixeiras. Há crianças perambulando pelas ruas
tentando abrir veículos (presenciei isto em Laguna). Há bebês deixados
dentro de carros enquanto os pais vão para a balada. Há o padrasto e o
próprio pai que violenta suas crianças.
Há crianças quebrando o vidro do seu carro no sinal e saindo correndo
com a bolsa que você deixou sobre o banco, como aconteceu com minha
prima em Florianópolis e minha sobrinha em Curitiba.
Há um imenso e generalizado desrespeito pela vida e dignidade da
criança, de um modo geral nas classes empobrecidas, mas nunca soube de
tantos casos de violência sexual contra crianças como nos últimos
tempos.
Precisamos curar nossa sociedade ela está com a saúde precária. Muito
doente.
Um adulto que alega estar embriagado para explicar danos físicos e
psicológicos cometidos em forma de violência sexual a uma garota vizinha
de apenas quatro aninhos, certamente não pensa que será compreendido por
nós.
O que nós podemos admitir é que, indivíduos, fazemos parte de um mesmo
tecido social. Da mesma forma que qualquer organismo vivo, a sociedade
precisa buscar seu equilíbrio como um todo. Sabemos muito bem, se um
pedaço de nós encontra-se necessitado de cuidados todo o corpo e a mente
estarão envolvidos na cura.
Em seu livro lançado no ano passado “Pelos Caminhos da Vida”, a
humanista e poeta Vânia Moreira Diniz nos dá um testemunho comentando
caso verídico onde a intensidade das seqüelas requerem tratamento
terapêutico atencioso. Vânia analisa a intensidade dos traumas, dos
malefícios que sobrevém quando uma criança é vítima da violência sexual.
Vânia Diniz é escritora, humanista e além dos sites na internet onde
divulga textos de sua lavra e inúmeros autores, também co-edita a
revista “Honoris Causa” direcionada para os temas da área pedagógica.
No conto “Violência na Infância” a escritora Vânia nos traz o caso real
ocorrido há algumas décadas onde sinais da insana sociedade, que vemos
ficar cada dia pior, já se faziam evidentes.
Não é possível que fiquemos indiferentes ao sofrimento de seres
indefesos como as crianças.
Outros casos, ficcionais talvez, mas reveladores e denunciadores desta
brutal realidade também li em “Como nascem as estrelas” de Cibeles S.L.
Puglisi na Revista Rio Total. O editor e escritor Muller Barone na
revista Palanque Marginal também publicou recentemente um chocante
retrato da violência sexual contra crianças no conto “Um dia como outro
qualquer”.
Por certo não teremos como pagar o alto preço a que chegarão as
conseqüências da desatenção para com esses fenômenos tão freqüentes de
homens (principalmente), que estão agindo bem pior do que feras
irracionais.
Lembremos, todos nós temos a ver com tudo o que ocorre na sociedade.
Existem estudiosos, existem pesquisas e existem propostas para que se
diminua consideravelmente a violência sexual contra crianças e a
violência generalizada que se expande pelas festas, pela vida nossa de
cada dia.
Precisamos ouvir aqueles que estudam, que vão até as vítimas e inclusive
o próprio criminoso. Precisamos apoiar as pessoas que apontam
alternativas para uma vida mais digna, mais preventiva dos males que nos
espreitam desde que o mundo é mundo. A questão é levar ao menor índice
possível o número de crimes em geral, e contra as crianças em
particular.
Tudo isto passa por EDUCAÇÃO, por CIDADANIA, por investimentos sérios em
projetos onde TODOS sejam vistos como parte do mesmo tecido social que
interage com cada um de nós. Projetos que priorizem a segurança, a
integridade física e psicológica das crianças. Impossível não
conseguirmos combater tal barbárie.
Não dá mais para suportar tanta notícia de criança violentada. Há uma
neurose, um drogado, um desocupado, um homem desequilibrado que
perambula a fim de colocar seu ódio, sua agressividade, sua mente tomada
pela droga, contra um menino, ou uma menina. Às vezes é um maltrapilho,
desempregado e às vezes é um aparente bem apessoado homem que parece
decente, monstros disfarçados de gente. Às vezes são sujeitos da
periferia que em criança já foram também vítimas de outrem. E por
incrível que pareça, às vezes são engravatados em carrões, homens
ligados a instituições e ou profissões renomadas.
Isso nos entristece imensamente.
Sofrem as crianças terríveis humilhações e igual a nós, milhares de
pessoas ficam incrédulas com nossa incapacidade de protegermos nossos
pequeninos brasileiros.
Envergonhados e arrasados ficamos todos, por fim.
Uma sociedade deprimida não terá futuro. Uma sociedade que não se unir
na busca da própria cura, condenada estará. Adoecidos de tristeza nos
contaminaremos uns aos outros. Talvez ainda sejamos capazes de nos
assumirmos como viajantes de um mesmo trem, de buscarmos soluções, de
sermos saudável
tecido social. Um organismo inteiro. Vamos curar nossas vidas?
(20 de janeiro/2007)
CooJornal
no 512
Maria de Fátima Barreto Michels,
escritora e fotógrafa
Laguna, SC
fbarreto@bizz.com.br
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