É importante que conheçamos poetas quando ainda temos 16 anos.
Foi durante o curso de normalistas que nossa professora de Literatura
apresentou-nos o simbolista catarinense João da Cruz e Sousa.
Por uma década talvez, ainda guardei aquela folhas de papel almaço onde
a jovem mestra escrevera o número 10 como nota e uma inesquecível
observação:
“não ouso criticar seu trabalho”. Exagero? Claro, mestra Lúcia
Baungarten! Convenhamos, não se escreve um elogio assim ao lado de uma
nota 10 num trabalho tão modesto. Mas a senhora cometeu talvez uma das
coisas mais importantes para a cabeça de uma adolescente.
Eu me encontrei, me abriguei naquele desespero que vertia em gotas, por
toda a sinfônica obra daquele João da Cruz e Sousa.
Era ritmado, sideral, divino, sepulcral, belo e terrível!
E na minha mocidade era bom fugir com ele para um lugar sem limites.
A verdade é que a professora Lúcia não quis se envolver na comunhão, na
minha cumplicidade com aquele louco poeta que me levava junto para o seu
delírio.
Com Cruz e Sousa voávamos nos altiplanos de outras galáxias e logo no
instante seguinte já estávamos enfrentando seres marinhos tenebrosos.
A morte se alternando com o espírito e este, sempre a superá-la.
Uma agonia a confrontar-se todo o tempo com a resistência.
É preciso conhecer Cruz e Sousa, mesmo quem já não tem 16 anos.
Estudá-lo talvez seja interessante. Não me interessa muito saber a que
movimento ou tendência literária o poeta pertenceu. Importante sim,
observar o quanto foi desprezado por ser negro. O preconceito. Sempre o
preconceito. Que vergonha do passado. Que vergonha, do presente.
Importante observar a atualidade de seus versos que incomodam!
Não falam claro mas são transparentes. Tudo dizem. Incomoda como tudo o
que é elegante, erudito, e gentil quando podia/devia (?) ser áspero,
atrasado e violento.
Nesta segunda feira, dia 19 de março completam-se 109 anos da morte do
poeta.

Foi na semana passada, que pude ver o filme de Sylvio Back:
“CRUZ E SOUSA O POETA DO DESTERRO”.
Quem produziu uma obra tal qual o catarinense Cruz e Sousa, é imortal.
Entretanto, apesar de sua universalidade, o poeta não é fácil de ser
traduzido. Os outros idiomas são pobres para dizer os versos do
simbolista brasileiro. Quem sabe Teilhard de Chardin, Antoine de Saint-Exupéry... o primeiro pela ânsia da transpessoalidade, o desejo de
ascender em rota de convergência e o segundo pela capacidade de pilotar,
embrenhar-se nas alturas e fazer com que príncipes conversassem com
raposas...
Sylvio Back fez a mágica. Back fez a arte. O filme está longe de ser o
tipo comercial, é sim para estar em destaque nas universidades de
qualquer país ou, onde se ensine/aprenda arte.
O cineasta blumenauense foi grande tradutor reinventando na imagética
forma, o que era verso. O filme sobre Cruz e Sousa é por certo O GRANDE
POEMA DE SYLVIO BACK.
É preciso conhecer-se o verso aos 16, e ver várias vezes o filme, após
os 18. A paixão geralmente é na adolescência.
É da experiência entretanto, que se extrai a fruição, com o coração
alado.
Quem sabe em outro dia eu conte alguma das leituras que fiz da fita.
Obra que Sylvio Back conseguiu tão bem cinepoetisar o que antes era arte
literária. A música em apurado tratamento foi trabalhada pela maestrina
Silvia Beraldo, referência respeitável. A atriz Maria Ceiça faz Gavita a
esposa do poeta. O filme inclui na equipe atores como Léa Garcia,
Danielle Ornelas e Guilherme Weber, dentre outros.
Garanto que o Cisne negro de algum lugar onde está, sorriu de
felicidade, quando “viu” o filme, conforme sorria o ator Kadu Carneiro
nas cenas finais. E, em muitos cantos do mundo os milhões de confrades
do
“Pacto de Almas” disseram, dizem e dirão:
"Ah! para sempre! para sempre! Agora
não nos separaremos nem um dia...
Nunca mais, nunca mais, nesta harmonia
das nossas almas de divina aurora".
(...)
Cá nesta humana e trágica miséria,
Nesses surdos abismos assassinos
Teremos de colher de atros destinos
A flor apodrecida e deletérea
O baixo mundo que troveja e brama
Só nos mostra a caveira e só a lama,
Ah! só a lama e movimentos lassos...
Mas as almas irmãs almas perfeitas,
Hão de trocar, nas Regiões eleitas,
Largos, profundos, imortais abraços!”
(do livro ÚLTIMOS SONETOS- Cruz e Sousa)
(17 de março/2007)
CooJornal
no 520