| |
|
|

Humanista,
cientista social e escritora Urda Klueger
Foto de Maria de Fátima B. Michels
|
Na BR 101, município de Paulo Lopes, há lugares para se
fazer um lanche restaurador tomando uns dois copos de café para acordar
do marasmo, que é ficar preso dentro do carro. Voltávamos do norte.
Fôramos participar do lançamento de mais um livro de uma escritora
catarinense. Após o que nos serviu de almoço na lanchonete, íamos em
direção ao carro quando avistamos dois cães que descansavam da viagem.
O macho, um beagle de um ano, aguardava a garrafa de água para beber.
Sancho Pança não consegue beber em outro recipiente que não seja na boca
da garrafa segurada por seu dono na inclinação certa, à altura de sua
boca. Anita, de 3 meses, uma encantadora bull mastiff, bebia meio
deitada com a barriga na grama à sombra da árvore, na vasilha de barro
onde água pura lhe fora servida.
Tenho verdadeira paixão por cães.
Tivemos o casal de boxers Fido e Charlot que nos deram
muitos momentos de alegria.
Ver Charlot morta na clínica, vitimada por um tétano, foi
minha exata noção do que é a vida.
Vida é presença de movimento, de som. Vida é a ludicidade
de um cão. Vida é paixão.
Assim como eram apaixonantes Anita e Sancho Pança. Seus
donos, um rapaz e uma moça, escolheram os nomes Anita em homenagem a
Anita Garibaldi e Sancho Pança em homenagem ao amigo de D. Quixote.
O casal não era lagunense e eu, conterrânea de Anita logo
me aproximei da bebezona cadela que fazia festinha refrescando-se bem
espalhada ao solo.
Fiquei olhando aquela cara meio franzida da raça de Anita.
Fiquei pensando o quanto certos seres podiam deixar-me tão fascinada do
modo que os cães me deixam... parece que eu queria ser cachorro para
conversar com eles.
Despedimo-nos, embarcamos no carro e recomecei a analise
que vinha fazendo da escritora.
Já li algumas obras dessa autora. Já li parte de sua
biografia.
Pensava no amor daquele casal por Sancho Pança e Anita, lembrava do amor
que eu e meu marido tivéramos por Fido e Charlot e a eles nos
dedicáramos totalmente, antes do nascimento da nossa filha. Enquanto
isso, a escritora Urda se apaixonara pelos povos sofridos de sua cidade,
seu estado, da sul América e até de africanos, iraquianos, de
palestinos...
Voltei no tempo e fiquei analisando tudo o que ouvira e
lera das opiniões de/e sobre Urda.
Trata-se de uma cientista social, mas não exatamente uma
teórica.
É uma escritora de romances históricos. Urda é uma
cronista. Foi bancária. Possui uma editora. Batalha muito para manter-se
num mercado cada vez mais competitivo que é o editorial.
Ela publica livros impressos, contos e crônicas, em jornais
impressos e virtuais.
Viaja sempre que pode. Graduou-se, pós graduou-se e
continua sempre estudando.
Lá no lançamento de “Encontro com a Infância” estive
observando o quanto era diversificado o público que a prestigiava. Havia
universitários, crianças, amigos, escritores, profissionais liberais,
professores universitários e até a dona do restaurante (local escolhido
para a noite de autógrafos) era sua grande fã e leitora. Estavam
presentes membros dos Movimentos Sociais e do MST. Intelectuais e povão.
Pensei muito no que vira e ouvira por lá. Fiz um
retrospecto do que observei nesta mulher tão sem tempo para nada que não
esteja ligado ao movimento em direção à vida e à dignidade das pessoas
que se sentem injustiçadas. Tudo o que eu e os donos de Sancho Pança e
Anita queríamos de melhor para nossos cães a Urda quer para os que não
têm casa, nem paz, nem dignidade, nem comida, nem terra, nem identidade,
nem vez. Concluí que essa mulher só faz literatura como passatempo. Só
faz arqueologia como curiosidade. Só estuda e viaja para comprovar sua
tese de que a vida só vale a pena quando todos a desfrutam. Em
entrevista, Mercedes Sosa disse certa vez, “ a paz é comermos todos
juntos”.
Que sabedoria, Mercedes, se fizéssemos todos juntos uma
Misa
Criolla
e repartíssemos o
pão...
Ela, a Urda, é tida como uma grande encrenqueira. Uma
briguenta. Ela é de fato. Mas, tudo que de fato ela é, está como rastro
pegadas apenas, de sua vocação/caminho.
Compreendi que trata-se de uma humanista. Quem não quiser
ser atropelado saia da frente pois ela vai com pressa e, se pudesse,
tiraria da forca muita gente. Urda Alice Klueger é, até a medula, uma
HUMANISTA.
(31 de março/2007)
CooJornal
no 522