31/03/2007
Ano 10 - Número 522

ARQUIVO
FÁTIMA DE LAGUNA

 

Maria de Fátima Barreto Michels



A humanista Urda Alice Klueger


 

   


Humanista, cientista social e escritora Urda Klueger
Foto de Maria de Fátima B. Michels

 

Na BR 101, município de Paulo Lopes, há lugares para se fazer um lanche restaurador tomando uns dois copos de café para acordar do marasmo, que é ficar preso dentro do carro. Voltávamos do norte. Fôramos participar do lançamento de mais um livro de uma escritora catarinense. Após o que nos serviu de almoço na lanchonete, íamos em direção ao carro quando avistamos dois cães que descansavam da viagem.
O macho, um beagle de um ano, aguardava a garrafa de água para beber. Sancho Pança não consegue beber em outro recipiente que não seja na boca da garrafa segurada por seu dono na inclinação certa, à altura de sua boca. Anita, de 3 meses, uma encantadora bull mastiff, bebia meio deitada com a barriga na grama à sombra da árvore, na vasilha de barro onde água pura lhe fora servida.
Tenho verdadeira paixão por cães.

Tivemos o casal de boxers Fido e Charlot que nos deram muitos momentos de alegria.

Ver Charlot morta na clínica, vitimada por um tétano, foi minha exata noção do que é a vida.

Vida é presença de movimento, de som. Vida é a ludicidade de um cão. Vida é paixão.

Assim como eram apaixonantes Anita e Sancho Pança. Seus donos, um rapaz e uma moça, escolheram os nomes Anita em homenagem a Anita Garibaldi e Sancho Pança em homenagem ao amigo de D. Quixote.

O casal não era lagunense e eu, conterrânea de Anita logo me aproximei da bebezona cadela que fazia festinha refrescando-se bem espalhada ao solo.

Fiquei olhando aquela cara meio franzida da raça de Anita. Fiquei pensando o quanto certos seres podiam deixar-me tão fascinada do modo que os cães me deixam... parece que eu queria ser cachorro para conversar com eles.

Despedimo-nos, embarcamos no carro e  recomecei a analise que vinha fazendo da escritora.

Já li algumas obras dessa autora. Já li parte de sua biografia.

Pensava no amor daquele casal por Sancho Pança e Anita, lembrava do amor que eu e meu marido tivéramos por Fido e Charlot e a eles nos dedicáramos totalmente, antes do nascimento da nossa filha. Enquanto isso, a escritora Urda se apaixonara pelos povos sofridos de sua cidade, seu estado, da sul América e até de africanos, iraquianos, de palestinos...

Voltei no tempo e fiquei analisando tudo o que  ouvira e lera das opiniões de/e sobre Urda.

Trata-se de  uma cientista social, mas não exatamente uma teórica.

É uma escritora de romances históricos. Urda é uma cronista. Foi bancária. Possui uma editora. Batalha muito para manter-se num mercado cada vez mais competitivo que é o editorial.

Ela publica livros impressos, contos e crônicas, em jornais impressos e virtuais.

Viaja sempre que pode. Graduou-se, pós graduou-se e continua sempre estudando.

Lá no lançamento de “Encontro com a Infância” estive observando o quanto era diversificado o público que a prestigiava. Havia universitários, crianças, amigos, escritores, profissionais liberais, professores universitários e até a dona do restaurante (local escolhido para a noite de autógrafos) era sua grande fã e leitora. Estavam presentes membros dos Movimentos Sociais e do MST. Intelectuais e povão.

Pensei muito no que vira e ouvira por lá. Fiz um retrospecto do que observei nesta mulher tão sem tempo para nada que não esteja ligado ao movimento em direção à vida e à dignidade das pessoas que se sentem injustiçadas. Tudo o que eu e os donos de Sancho Pança e Anita queríamos de melhor para nossos cães a Urda quer para os que não têm casa, nem paz, nem dignidade, nem comida, nem terra, nem identidade, nem vez. Concluí que essa mulher só faz literatura como passatempo. Só faz arqueologia como curiosidade. Só estuda e viaja para comprovar sua tese de que a vida só vale a pena quando todos a desfrutam. Em entrevista, Mercedes Sosa disse certa vez, “ a paz é comermos todos juntos”.

Que sabedoria, Mercedes, se fizéssemos todos juntos uma Misa Criolla e repartíssemos o pão...

Ela, a Urda, é tida como uma grande encrenqueira. Uma briguenta. Ela é de fato. Mas, tudo que de fato ela é, está como rastro pegadas apenas, de sua vocação/caminho.

Compreendi que trata-se de uma humanista. Quem não quiser ser atropelado saia da frente pois ela vai com pressa e, se pudesse, tiraria da forca muita gente. Urda Alice Klueger é, até a medula, uma HUMANISTA.
 

 
(31 de março/2007)
CooJornal no 522


Maria de Fátima Barreto Michels,
escritora e fotógrafa
Laguna, SC
fbarreto@bizz.com.br