07/04/2007
Ano 10 - Número 523

ARQUIVO
FÁTIMA DE LAGUNA

 

Maria de Fátima Barreto Michels



Você já viu índia estressada?

 


Nós cristãos estivemos/estamos vivenciando a Semana Santa.
Amiga escritora Liane Morais convidou-me a assistir a encenação da Paixão de Cristo, peça teatral onde ela também vai atuar aqui em Laguna, no bairro Cabeçudas.
Acabo de lembrar do livro “O ensaio da paixão” de Cristóvão Tezza, onde o autor narra acontecimentos do tempo em que um grupo encenava em Florianópolis, nas areias da lagoa da Conceição, a Paixão de Cristo.
Isto aconteceu nos anos setenta. Nesta época eu morava lá na terra de Norma Bruno, a desterrense que sabe escrever exatamente do modo como pronunciam a fala, os herdeiros de povos ilhéus e litorâneos de Santa Catarina.
A obra do lageano Cristóvao Tezza me lembra também o nome de Rio Apa, o dramaturgo que dirigia os ensaios. Creio que transformado em roteiro e filme, tal obra traria um retrato muito valioso do Brasil daquela época, de um teatro transgressor e interessante reflexão acerca das muitas paixões, ensaiadas e vividas num local onde depois a garotada inventou um esporte chamado SandBoard.

Na verdade pretendo falar é da índia que vi deitada no banco da praça.

Antes do carnaval estiveram alguns índios em Laguna, para vender seu artesanato. Fiz alguns contatos com eles e uma pequena de dois aninhos que vi em três ou quatro oportunidades me sorria tão bonito que aliviava o sofrimento que a morte de João Hélio causara ao país. Estávamos em choque. O sorriso da indiazinha Letícia me aliviava sempre que a encontrava junto com seu grupo pelas ruas do verão lagunense.

Em uma das oportunidades em que vi os índios, eles estavam na praça do centro histórico, defronte à Igreja de Santo Antonio.
Notei que uma das mulheres deitara seu corpo lateralmente em um banco.
Quando os cumprimentei a índia cansada fez menção de sentar-se mas pedi que permanecesse como estava.

Fico me imaginando olhando e vendo o mundo deitada, lateralmente.

Hoje li um artigo que segundo estudos, o estresse é um dos fatores da obesidade. Adiciono por minha conta que o desconforto, é estressante. Refiro-me ao desconforto trazido pela sensação de “não fazer parte”.
Aquela mulher índia estava estressada. Por inúmeros motivos.

Talvez não interesse a vocês que já têm seus próprios cansaços, que eu aponte razões por que índios se estressam.
Não importa também para senhoras e homens elegantes se as índias estão acima do peso. Pessoas esclarecidas lutam contra sua própria obesidade. E ao final das contas, ninguém encontra tempo para pensar nos mais frágeis.

A Semana Santa é para nós cristãos pensarmos nos nossos pecados.
E pecado não é morrer pelado! Pecado mesmo é a omissão da nossa cidadania, é nossa resistência em parar um pouco para pensar.

Usar um pouco do nosso tempo para sentar com nossos amigos e cantar os versos dos Chicos, dizer orações franciscanas, textos e poemas como fizemos no 31 de março no Carrossel das Letras, nosso grupo de principiantes escritores.
Semana Santa é para pensar no sofrimento do próximo que está vivendo sua via sacra. E o próximo, às vezes, é aquele lá em outro continente.

É para nos recolhermos, refletir e compreender que aquele que nos ofendeu fez exatamente igual o que talvez um dia já fizemos.

Quem sabe seja esta uma semana boa para deitarmos de lado, no banco da praça e olhar o mundo do jeito mesmo que ele está.

Sabemos muito bem que o mundo está com a paisagem, as pessoas, as casas, os veículos etc., seguindo de forma enviesada em direção a um absurdo futuro.

Sinto-me aflita. A índia cansou. Até ela!
E você como está se sentindo?

Apesar de qualquer e/ou toda dor, quero repartir com você meu desejo :

Façamos uma BOA PÁSCOA!



Foto Fátima de Laguna



(07 de abril/2007)
CooJornal no 523


Maria de Fátima Barreto Michels,
escritora e fotógrafa
Laguna, SC
fbarreto@bizz.com.br