Neste 21 de abril nos vem à mente a palavra esquartejado,
aprendida lá na escola primária, que nos remete a Tiradentes. Não paro
para pensar na barbárie. Ela usa óculos e é tão antiga que, como “a dor,
é tão velha que pode morrer olé, olé, olé, olá” canta Chico Buarque.
Hoje resolvi viajar!
“Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar”, já cantava Assis
Valente.
Agora estão dizendo que vai mesmo se ferrar este planeta.
Sério, é pra valer!
Antes que tudo se acabe, antes do índio que “descerá de uma estrela
colorida brilhante... que virá numa velocidade estonteante” conforme
cantam Caetanos, mudei de idéia.
Nem pensar ir-me embora pra Pasárgada, nunca tive amigos
reis e, nem tudo que era bom para Bandeira seria bom para mim.
Antes que o mundo acabe quero descer no trapiche de Imaruí, caminhar em
direção a igreja, antes de chegar a ela, virar à esquerda e depois em um
certo portão, adentrar na morada de Manoel Barreto Bossle.
Lá, sigo pela chácara... laranjeiras, caquizeiros, abacateiros,
goiabeiras, bananeiras, cafeeiros e, no início do pasto há o curral onde
Vinícius, o de Morais dizia que “Nós todos, animais, sem comoção nenhuma
mijamos em comum numa festa de espuma”... mas isto é coisa de menino.
Depois dizem que literatura não tem sexo! Não posso fazer espuma “sem
comoção nenhuma” e nem adiantaria ir para Pasárgada ah! deixa pra lá!
Tem coisa bem pior, digo, melhor.
Bom mesmo é subir naquela pitangueira. Ninguém me chama.
Naquela chácara não tem perigos, só encantos. Só cheiros, só um ar que
tantos corações felizes sentiram e sentem. Quando acabar minha vontade
ainda sobra pitanga demais. Amanhã eu volto. E depois tem o café com
milho cozido. Tem aipim com galinha caipira. Tem biroró, o croissant
tupiniquim, hummmmmmmm...
Não há energia elétrica, é muito interessante olhar da cama
para o teto sem forro, telhas aparentes, escurecidas pelo fogão a
lenha, lamparinas queimando querosene e depois tudo silencia e
escurece, fica o som do relógio da varanda.
Risadas de crianças já caindo de sono.
Isso dá uma saudade insuportável. Uma saudade dos cheiros daquela casa.
Meu Deus, o afeto é feito de cheiros.
Eu era criança e sabia. Férias escolares, meu prêmio ficar uns dias na
casa da madrinha.
Houve o dia em que tia Maurília levou-me ao morro. Presente especial.
Mata nativa, caminho estreito. Facão, cachorro, balaio, e chapéu com
ela. Comigo só leveza de olhar e sentir. Inesquecível nosso silêncio.
Parceria de tia avó criança e canto de passarinho. O cheiro, o cheiro do
mato... nada cheira melhor que o mato!
De repente água nascida do chão, poça de médio tamanho bem conhecida
dela. Para mim surpresa absoluta, aquela água aflorada à superfície.
Primeiro eu e ela, bebida na concha da palma da mão. Depois o cachorro,
feito cachorro.
Agora espero à salvo, no caminho e ela vai mato adentro buscar aquele
cacho de butiá muito grande, quase do tamanho daquela tão pequena enorme
mulher.
Tão calada em geral. Quase toda intuição? Ternura absoluta... Maurília!
- Maurília, aí no céu tem butiá né?
- Tem querida, sim!
- E pirão com camarão ensopadinho?
- Claro!
- No alguidar?
- Sim!
Domingo pegar a pita da bananeira, amarrar pedaços de bofe
de boi e ir na ilha pegar... siri, siri, siri, siri, siri,
siri............. muito siri. Muito. Lá se foram quatro décadas e meia e
a lagoa era rica, tinha de tudo: linguado, salema, guaivira, tainha,
anchova, bagre, pampo, corvina, meragaia, papa-terra, de tudo, de tudo,
e muito, muito camarão. Muito siri.
Um dia aquela casa começou a se encher de música ao som de
um cavaquinho em composições do tipo
“Um tico-tico só, / Um tico-tico lá / Está comendo / Todo, todo
meu fubá”, no choro clássico de Zequinha de Abreu.
“Não há quem possa resistir quando o chorinho brasileiro faz sentir
ainda mais de um cavaquinho (...) Gostei, pulei, e nunca mais esquecerei
o tal chorinho”
em Waldir Azevedo.
O anfitrião mostrava seu talento no autodidatismo que
exercitava com muita paixão naquele gracioso instrumento de cordas.
Manequinha Bossle em breve tornou-se conhecido tocador de cavaquinho.
Apresentava-se na capital e em todas as cidades vizinhas. Formou com
irmãos e amigos um excelente conjunto.
É reconhecido em sua cidade pelo talento, como exímio
instrumentista.
Coisa de família. Ele vem de uma gente musical, que acompanha terno de
reis há mais de século, gente que tocava em seculares bandas.
Pois neste sábado irei lá abraçar o Manequinha, que está de
aniversário. Lá sempre tem abraço, sempre tem acolhimento. É um lugar
onde ainda existem laranjeiras, e cantam sabiás. As aves gorjeiam é
como lá. Sempre há um cachorro muito bem tratado. Manequinha adora seus
cães e faz questão de nos mostrar o atual cachorro, que é sempre o
melhor que já teve.
Foi no engenho que moí um pouquinho de café e vi um tacho
muito grande onde era feito um sabão de noz. Vi a rosca de polvilho no
forno de barro e bolo de milho assar na folha da bananeira sobre a chapa
de ferro.
As melhores viagens fizemos em tardes chuvosas comigo ao volante,
debaixo do imenso pé de jabuticaba na caminhonete sem conserto possível,
deixada há anos, por um conhecido.
Muito interessante o balde subindo cheio d’água. Poço a gente abria a
tampa e fazia búúúúúúúú´e escutava um búúúúúúú que voltava, subindo
pelas paredes de centenários tijolos assentados em círculo. Água de mina
com frescor especial.
Que saudade boa!
Antes que o mundo acabe sintamos os aromas, que vem das chácaras ,que
saem dos cafés moídos. Vamos colher o milho, para o café da tarde!
Fazer limonada com açúcar preto.
Enquanto a sopa não é servida vamos ver o Manequinha fazer mágicas!
Ouçamos no ar, o som do cavaquinho.
Nada se perde no tempo que fica dentro do peito.
Manequinha? É o amor da vida dela, a madrinha que me
crismou.
Seu Manoel Barreto Bossle o ás do cavaquinho.
E, o que importa mais, um aniversariante amado por filhos netos e
amigos. Amoroso pai e avô.
O mundo não acaba em seguida.
Ainda ouviremos muito chorinho dedilhado e movido a talento.
Ia esquecendo de dizer que somos primos e temos uma
particularidade genética:
pertencemos a uma família que não pode pegar vento. Mas
isto eu conto outro dia. Obrigada amigo. Parabéns querido!

Trapiche junto à Lagoa
Imaruí, na cidade de mesmo nome
Santa Catarina
Foto: Fátima de Laguna
(21 de abril/2007)
CooJornal
no 525