Desconfio que mamãe foi comunista.
Para confirmar, consultei o Aurélio virtual, e constatei que comunismo é
"qualquer sistema econômico e social baseado na propriedade coletiva".
Bom, então, acho que talvez mamãe não fosse exatamente uma comunista.
Como definir mãe que reparte o pão igual? Que não elogia A em detrimento
de B? Como definir mãe que não deixa seus filhos terem um animal de
estimação por falta de recursos, e não permite que se falte à escola um
único dia durante o ano?
Mamãe não nos fazia festinha de aniversário, impossível regalo para uma
professora primária casada com um pedreiro. Beijos e abraços? Quem pode
levar ao colo 5 crianças quando sua jornada de trabalho é de 3 turnos?
Papai? Minha avó? Todos estavam esgotados ao final do dia e a melhor
coisa a fazer era a nossa refeição, em porções iguais, repartidas
rigorosa e solidariamente, ao redor da mesa. Éramos 8. Comíamos
JUNTOS, SEMPRE! Depois, o terço rezado em voz alta.
Acho que em nossa casa, inauguramos um sistema de comunismo cristão,
digamos assim. Do qual minha definição particular seria "aquele sistema
familiar, em que o pão é repartido, a tarefa escolar é obrigatória,
ninguém usa anéis, não se faz festa de aniversário, reza-se diariamente,
todas as crianças vão dormir às 21 e acordam às 7 horas".
Minha mãe lecionava para crianças no período da manhã, estudava à tarde
e costurava à noite. Minha avó costurava de manhã, à tarde e à noite.
Meu pai rezava, assentava tijolos, fazia reboco, rezava antes de jogar o
salpico na parede, rezava antes de ir à missa e depois de voltar dela.
Quando não havia trabalho meu pai rezava.
Mas conforme ia dizendo, minha mãe era comunista, do jeito dela. Não
falava, tangia-nos em silêncio. "Mãe é mãe. Paca é paca" disse o
roqueiro. Minha mãe é uma vaca sagrada que soube conduzir suas crias.
Comeu, sem reclamar, o pão que o diabo amassou. A minha rainha. A mulher
mais inteligente do mundo.
Um dia, após recolher vidros pelo quintal, fui vendê-los na bodeguinha
do Seu Marcos. Antes de eu sair ela falou lá da máquina de costura:
— Traz uma cocada pra mim!
A venda rendeu-me R$ 6,00 reais. Comprei a cocada e sobrou-me R$ 1,00 de
troco.
— Ó mãe, a tua cocada!
Entreguei-lhe o presente e guardei o troco, meu lucro, enquanto mamãe
comentava:
— Ora, mas que tola! Gastou teu dinheiro todo com a minha cocada?!
Saí satisfeita, ela continuou sua costura, impassível. Ela já me
conhecia há muito tempo, mas eu adorei conhecer-me naquele dia. Na
verdade, adorei compreender que meu coração sabia que ela valia todas as
cocadas do mundo. O pensamento de D. Lourdes estava muito adiante
daquele momento. Mamãe tinha certeza absoluta de que me levaria ao
patamar de quem pode comer mil cocadas de uma vez, se eu quisesse, um
dia.
As mães precisam é desta coragem. Desta determinação, deste comunismo da
minha mãe. Da certeza interior de que conseguirão levar seus filhos à
universidade.
Mães brasileiras, comprem livros! Peçam livros! Exijam livros e
bibliotecas!
Na casa em que vivíamos, não havia nenhum anel, havia livros. Hoje na
minha casa os anéis continuam ausentes. Quanto aos livros, faço questão
de viver esbarrando neles. E minha mãe lê muito: enfim, sobra-lhe tempo,
para apreciar os livros que seus filhos lhe dão de presente.
A propósito, até sábado, véspera do Dia das Mães, no Largo da Alfândega,
no centro de Florianópolis, estará acontecendo a 6ª Feira de Rua do
Livro. Promovida pela Câmara Catarinense do Livro, esta feira está uma
maravilha! Estive lá no último domingo e conheci a Sueli Bittencourt,
que aos 86 anos, está lançando seu primeiro livro.
Meu amigo Pedro Antônio Corrêa também estava lá, lançando a Trilha
dos Miseráveis, romance baseado na Guerra do Contestado. O Pedro é
artista plástico, além de escritor, e já tem mais quatro obras a ser
editadas, inclusive, um dicionário de termos latinos.

Vamos à feira? Feira de livros e coração de mãe são alguns dos melhores
lugares do mundo!
(12 de maio/2007)
CooJornal
no 528