
11/08/2007
Ano 11 -
Número 541
ARQUIVO
FÁTIMA DE LAGUNA |

Acrílico sobre tela de Richard Calil Bulos - Foto de
Fátima de Laguna
A natureza, inúmeras vezes, junta homens e mulheres com elevado grau de
conhecimento, os transforma em casais que procriam, que em excelentes
condições materiais conseguem educar e encaminhar sua prole. Outras
vezes a mesma natureza junta pessoas que procriam mesmo sem atestado
qualquer que comprove sequer seu perfeito equilíbrio mental.
A questão da paternidade responsável é das mais importantes em qualquer
lugar ou época, mas essa importância aumenta num país cujo povo se depara
com dificuldades de emprego, saneamento e principalmente com a questão
básica da educação.
Tem pai maluco de todo tipo! Há os irresponsáveis e atrasados, que junto
com suas companheiras não são capazes de controlar a natalidade e vão
gerando os filhos que eles não conseguem educar nem alimentar.
Mas tem pai “certo” e bem de vida que é pior pai e, por vezes até
idiota, se comparado ao que é tido por maluco.
Sem dúvida, as cidades de pequeno porte são os lugares onde a caridade
ainda conserva as características da afetividade.
Nos grandes centros as pessoas conseguem, através de entidades, minorar
a pobreza dos necessitados, mas em geral não chegam a ver quem recebeu
sua caridade. Moro numa cidade pequena e, por incrível que pareça, já
temos crimes, roubos e favela por aqui. E o que é mais triste, já há
muitos jovens dependentes de drogas. Muitos!
A droga é o grande medo dos pais responsáveis. O caminho de volta, todos
sabemos, é um processo doloroso e às vezes sem opção.
Não creio que tenha passado pela mente daquele pai maluco que conheci
alguma preocupação com droga. Na verdade o conhecia de vista.
Pois aquele maluco era marido de uma Maria e ambos geraram seus filhos.
Foi num desses nascimentos, ocorrido na maternidade da nossa terra que,
segundo amiga nossa narrou, houve uma cena que serve bem para certos moços que
se consideram muito inteligentes, competentes e os tais.
Já era perto do meio dia quando ele passou com seu carrinho de mão e foi
morro acima em direção ao hospital. Esse homem, nas vezes que observei,
usava sapato e paletó, mas a cidade toda sabia da sua humilde condição
material. Acredito que boas almas ajudavam aqueles dois. Só sei que
comentava-se das deficiências de ambos e que eram muito pobrezinhos
materialmente também.
Não estive presente, mas houve quem o viu “estacionar” seu carrinho de
mão na portaria da casa de saúde e todo faceiro segurou seu filhinho
enquanto a mulher se ajeitava no diminuto veículo.
Semana passada fiz questão de falar com a professora Dulce Beatriz que
me confirmou a história: “Fátima, eu estava na esquina do Jardim e vi
quando ele descia a ladeira do hospital conduzindo o carrinho com sua
mulher e seu filho dentro...”
Fiquei pasma embora já tivesse ouvido essa história há alguns anos, mas
insisti:
- Dulce, você confirma então que isto aconteceu? E Dulce acrescentou que
(além de presenciar a cena, a princípio tão dramática), aquele simplório
homem vinha visivelmente satisfeito e dizendo aos que encontrava :
“- Olhe só! Este é meu filho! É meu filho! É meu filho!”
E ela? Pergunto-me hoje. Como estaria se sentindo aquela mãe?
Garanto que no seu modo de interpretar a vida a parturiente de horas
atrás se sentia protegida, viajando pelo centro histórico de Laguna em
primitiva charrete!
Com Maria estava o melhor do mundo: seu bebê e seu marido, que os levava
para casa.
Estranha sociedade onde o amor por um filho e a decência, às vezes,
moram no coração dessa gente considerada lixo por engravatados canalhas, que
roubam de forma descarada o que ao povo pertence.
(11 de agosto/2007)
CooJornal
no 541
Maria de Fátima Barreto Michels,
escritora e fotógrafa
Laguna, SC
fbarreto@bizz.com.br
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