
29/09/2007
Ano 11 -
Número 548
ARQUIVO
FÁTIMA DE LAGUNA |

Foto de Fátima de Laguna
Eram beijos jogados para o alto, para os lados, doados para a ensolarada
manhã! A jovem levou a câmera à altura do rosto e começou a se deslocar
buscando ângulos especiais para capturar o maior número de flores.
Ajustando as opções, percebeu que tinha companhia. Vários beija-flores
sorviam os mimos-de-vênus! Cuitelinhos, como também eram conhecidos por
alguns, os colibris se fartavam nos hibiscos que já haviam se aberto. Os
amigos de Aglaé já haviam atravessado a ponte pênsil e do outro lado
organizavam a reunião. Só ela enxergava aquela festa? Cada vez mais se
convencia de que era necessário publicar hibiscos floridos e mostrar
como eram fartamente bonitos. Será que ninguém se apaixonava por tanta
entrega, tantos matizes, tantos mimos, tantos beijos explicitados,
deixando-se agora furtar pelos colibris?
Devagarzinho aproximando-se, a fotógrafa manteve-se quieta olhando as
pequenas aves. Chegavam trissando, pairavam no ar e com seus
privilegiados bicos recolhiam o néctar. Os doces beijos de cada
maria-sem-vergonha (outro nome pelo qual é conhecida também a flor do
hibisco em certas regiões) iam sendo roubados pelos irrequietos
passarinhos. Presa à sua haste, cada flor ondulava, estremecia levemente
quando o beija-flor a invadia de surpresa. Ele ia fundo, aquele bichinho
sabia tudo sobre flores, pensou Aglaé. Rapidinho elas lhe entregavam a
doçura produzida. A moça sentiu-se flor de repente. Lembrou-se do seu
amor e o comparou àquele ousado colibri. Seu bem também a surpreendia
quando buscava seu mel com a mesma vontade do beija-flor.
Aglaé comprimiu forte uma coxa contra a outra quando associou cada
insistência, cada investida do delicado animalzinho...
Retrocedeu uns passos e encostou-se na ribanceira. Imaginou-se um pé de
hibisco sob o sol que enchia de vigor suas folhas, seus ramos, sua
flor... Imaginou-se vegetal, mas sentia que tinha carne... e sangue!
Parecia que os seios lhe cresciam.
Do outro lado do rio, os sons em animada conversa pareciam estar muito
longe. Era extremamente prazeroso estar ali, sentir todo o corpo arder,
sob a roupa, debaixo daquele sol escancarado.
Mantendo as pernas muito unidas, Aglaé permitia-se viajar nas lembranças
de carícias. Fechou os olhos e desejou muito ser um hibisco, uma
maria-sem-vergonha, entregue à celebração dos beija-flores.
Naquela noite, antes de dormir, a repórter consultou outra vez o nome da
flor no computador portátil. Hibisco era também conhecido por
rosa-louca. Relaxar naquela cama do hotel-fazenda era algo muito
difícil. Aglaé, nome com que fora batizada, era o mesmo de uma das Três
Graças, amigas de Vênus, conforme a mitologia grega. Até em seu próprio
nome não deixava de ser um mimo de Vênus!
Rolando em desassossego, cada vez mais rosa-louca, ela ansiava retornar
daquele final de semana. Sentia tanta saudade do seu amor... Na volta
proporia reconsiderar as brigas. Reataria seu namoro. Decidiu-se,
enroscou-se e adormeceu.
(29 de setembro/2007)
CooJornal
no 548
Maria de Fátima Barreto Michels,
escritora e fotógrafa
Laguna, SC
fbarreto@bizz.com.br
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