
10/11/2007
Ano 11 -
Número 554
ARQUIVO
FÁTIMA DE LAGUNA |

“Molhes da Barra – Laguna/SC” - foto de Fátima de Laguna
A tela onde Richard pintou aquela procissão eu não conhecia.
Vi no blog da filha dele, a poeta Jacqueline Bulos Aisenman.
Lembrei-me daquela letra “olha lá vai passando a procissão, se arrastando
que nem cobra
pelo chão...” (Gilberto Gil)
Esse cara, o Richard Calil Bulos, atraiu minha atenção. Primeiro pela
própria figura. E o olhar. Depois vieram as letras, o malho nos jornais
que ele criava, os traços, as charges. Depois as cores, e por fim toda
uma obra que Richard deixou em arte plástica.
Uns dias antes da revoada dele para o reencontro com o Grande Pássaro
Pai-Mãe, toquei sua
mão e ele me disse doçuras, como um poeta. Meu Deus que valente ele se
mostrou a mim.
Claro, puro charme de um bom franco-libanês.
Que impressão boa ele me deixou na sua arte onde traduz a via-crucis de
uma classe. A classe
das gentes ribeirinhas, das gentes ao redor das lagoas, dos homens que se
lançam ao Atlântico, que ele retratou febrilmente até os últimos dias.
Mas foi além. O Richard compôs um documentário. A cabeça dele alçava vôos
e escrevia, mas
isto não explicava, então... os pincéis. A leitura que fazia da realidade
passava para a tela.
Forjando o sujeito que se via, que se enxergava no outro sujeito. Na
bigorna o tempo todo. Chachá.
Compreendo cara, você lia o mundo em grego, em javanês, aramaico? Mas
traduzia em tempo real para a sua gente. E nós, a sua gente, ficávamos a
olhar, a nos espelhar, e muitas vezes olhando sem ver. E mesmo vendo, sem
crer...
Chachá gosto daquela frase do Sartre "o inferno são os outros".
Não tive tempo de dizer pra você o quanto eu gosto tanto, desta frase.
Mas nos olhamos longamente. Querido. E a Tetê sabia da nossa pureza,
amigo. A Tetê sabia que depois dela e os filhos, só as telas
eram sua paixão. Sabe guerreiro, enquanto foram sepultar seu corpo fiquei
em casa ouvindo Piaf cantar La Marseillaise.Combinava mais com o contexto
daquela manhã. Piaf é divina. A marselhesa já era, mas eu não queria o
momento. Queria ouvir a marselhesa, então fiquei em casa. Você me chamou
de eufórica lembra? Então, me comportei como tal. E fiquei arriada...
marchemos, marchemos dizia Piaf.
Mas esta cartinha hoje vai incompleta, pois tenho mais a dizer-lhe .
Preciso dizer da galera que você retratou .
Fátima.
P.S: Ah! O quibe de forno que lhe prometi, encomendei.
Rosana Kafouri fez. Eu comi, certo?
Vou anexar uma foto inédita que cliquei lá nos molhes.
Olha só Richard, é para você!
(10 de novembro/2007)
CooJornal
no 554
Maria de Fátima Barreto Michels,
escritora e fotógrafa
Laguna, SC
fbarreto@bizz.com.br
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