
24/11/2007
Ano 11 -
Número 556
ARQUIVO
FÁTIMA DE LAGUNA |

PÔR-DO-SOL - LAGOA SANTO ANTONIO – LAGUNA/SC
FOTOGRAFIA de Ma. de Fátima Barreto Michels
Faltam cinco minutos para as sete horas. Já estamos em novembro de
2007!!!
Entro no elevador e um rosto de criança surge no rosto da moça que me dá
bom dia.
Estou na capital para exames médicos e dirijo-me cedo ao laboratório. A
moça que foi minha aluna até a adolescência em nossa cidade, conta-me que
seu local de trabalho é bem longe do centro. No térreo abro e seguro a
porta, minha ex-aluna se despede e segue com passos rápidos. Observo que
a garota muito ativa nas quadras de esporte continua o jogo da
sobrevivência na cidade grande. Agora fazer gols vai além do lúdico, a
competição é pra valer ! A minha menina, a que eu gerei na barriga, deve
estar saindo para ir às aulas, em outra cidade, naquele momento também.
As nossas crianças crescem e não brincam mais nos sábados esportivos.
Sinto uma leve tristeza. No laboratório peço minha “vampira” preferida.
Ela atende no segundo andar e acerta a minha veia. Sempre começa
cantarolando bem baixinho e quando percebo já colheu meu sangue. Talvez
cante um mantra.
Eu mentalizo uma ave-maria e fico quieta, para colaborar. Ufa! Foi fácil
e rápido.
Retorno caminhando devagar e vejo florinhas que mereciam umas clicadas.
Dentro de alguns dias voltarei a capital e não esquecerei a câmera, na
luz matinal de dezembro hei de colher essas cores.
Dali a pouco saio novamente para a rua, olho os portões acionados por
controle. Um cão akita no prédio ao lado me observa e dá alguns passos,
aparentemente conformado. Mais adiante um buldogue inglês passeia com sua
dona . Esta raça me fascina pela quantidade de dobras que tem ao redor do
focinho. Não resisto, pergunto o nome e me abaixo até junto de Boris.
Fico “conversando” e ele feliz da vida quer subir em meus joelhos
balançando o possante e atarracado corpo, me despeço.
Que coisa mais amorosa tal cachorro!
Noto uma criança que junto com a babá está num jardim-redoma. As crianças
têm que ficar vigiadas porque há o trânsito, hás os dementes, há tantos
perigos, que elas não mais podem correr e brincar livres nos quintais.
São lugares bonitos, limpos e seguros mas tudo é com grades e chaves. Eu
também quando saía para o trabalho deixava meu tesouro com a babá, e o
portão bem chaveado.
Entristeço-me novamente. O mundo está com muito medo. Estou com dó de
todos nós.
Está na hora de raspar o tártaro, que faz a gengiva inflamar-se. O
periodontista me recebe com alegria. Pronto! Deste já me livrei também.
Volto por outras ruas e observo que papai Noel já está sendo pendurado em
algumas vitrines. Meu Deus! Quanta pressa em vender, vender,
vender...Todos precisam vender! MERCADO. Mercado. Mercado. Lembro das
crônicas, poemas e notícias que li na noite anterior.
Penso num grande caldeirão onde tudo ferve.
Tudo se relaciona, na influência/confluência destes tempos.
No sábado a 24 do corrente estaremos no IPHAN aguardando as pessoas para
dizer-lhes nossos poemas. Gostarei muito de ver por lá qualquer um .
Qualquer um que goste de sonho e poesia. A partir das oito da noite
estaremos lá. Esperando VOCÊ! E qualquer um como eu que me sinto
exatamente assim... qualquer uma. Sou tão igual a quem goste de poesia.
Um turbilhão de coisas vão sendo lembradas. Entrecruzam-se idéias,
algumas de enlevo e contentamento, outras complicadas, traumatizantes.
Sinto tudo ao mesmo tempo, em plena rua.
Enquanto olho papai Noel colocado para trabalhar antes de entrar
dezembro, passo os olhos pelos morros que circundam o centro de
Florianópolis. Há coisas muito complicadas nesses morros. Muita gente
sofrida. Há uma dívida. Um déficit. Há um grito de dor.
Enquanto isto, há flores me esperando para serem fotografadas. Há tanta
vida, mas há muito papai Noel contrariado. O mundo está apressado. Em
demasia.
Estou no ônibus, voltando para minha cidade, há uns tons de caramelo
atrás dos montes, nas lagoas. É a beleza do poente. Penso no amor. Ele e
a arte, ainda valem a pena. Sempre valerá a pena sentir o amor,
fotografar florinhas e conversar com cães. Precisamos repensar o natal.
O papai Noel deve estar aborrecido. Quanto ao menino Jesus, este então
nem se fala: está ARRASADO.
Ainda assim, roguemos que venham!
(24 de novembro/2007)
CooJornal
no 556
Maria de Fátima Barreto Michels,
escritora e fotógrafa
Laguna, SC
fbarreto@bizz.com.br
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