
19/04/2008
Ano 11 -
Número 577
ARQUIVO
FÁTIMA DE LAGUNA |

Sou fã de Cruz e Sousa.
Confesso que tenho uma certa tendência a gostar do que está perto de mim.
O cineasta Sylvio Back fez um filme-poema baseado em Cruz e Sousa.
Virei fã de Sylvio Back. Acabo de ler o recém-lançado “As mulheres gozam
pelo ouvido”, deste cineasta blumenauense.
A primeira mulher que me emocionou com sua poesia foi a mineira Adélia
Prado.
Adélia escreve coisas eróticas misturadas com coisas sagradas.
Que coisa mais linda é esta sua cabeça, Adélia!
Embora você não seja catarina adorei descobrir sua mineirice e,
orgulhe-se: através de você foi que procurei Drummond.
Talvez porque há mais de vinte anos me presentearam com um livro dessa
mulher e seu
universo era tão próximo do meu...
Confesso que tenho certa tendência a gostar do que está perto de mim.
O poeta Glauco Mattoso escreve poesia com a ponta do canivete na cara da
gente.
Em “Carta a um cego determinado” escrevi alguma impressão sobre a obra de
Glauco.
Ele leu e muito gentil escreveu-me, agradecendo.
Logo que aprendi a usar o computador, e isto é coisa de recentes quatro
anos, fiquei muito intrigada com aquele sujeito de óculos escuros, que
escrevia “coisas horrorosas”...
Um dia fui ao site dele e li, li muito daquela dor, daquele sarcasmo
elaborado.
Mas não era só uma dor, era uma grande construção. Uma obra literária!
É uma poesia vigorosa que nos entra rasgando o peito.
É tão próxima da nossa alma...
Confesso que tenho certa tendência a gostar do que está perto de mim.
O que há em comum entre Cruz e Sousa, Sylvio Back, Adélia Prado e Glauco
Mattoso?
Cruz e Sousa, você não é para ser explicado, mas Sylvio Back fez uma
tradução fabulosa de você!
Adélia Prado, você diz que seu coração bate forte onde suas pernas se
juntam. Seu verso é tão de todas nós... é tão lindo!
Glauco Mattoso, fiquei muito contente ao ver que o livro lançado nesta
semana por Sylvio Back foi dedicado também a você!
Sylvio Back: Arqueiro de Eros! Coração valente de andante menestrel!
Desbocado!
Num certo sentido você me lembrou Vinícius de Morais, sabia? É que
Vinícius dizia doçuras líricas e transformava as mulheres em parceiras de
delícias incomparáveis, e você é tão tão doce quanto o compositor poeta,
apenas seus versos são esfregados na epiderme.
Acho que você escreve na nossa língua.
Coisas da língua. Com a sua língua. Em nossa língua.
Faz o poema. Sem metaforizar, conforme advoga.
Em “As mulheres gozam pelo ouvido” Sylvio dá receitas culinárias
(imaginem só!) e diz coisas que ficam muito bem num bom livro de poesia
erótica.
E não é possível separar o Sylvio que fez filme sobre Cruz e Sousa do
Sylvio que faz poesia erótica.
Tudo vai se somando e cada obra enriquecendo o todo que é o universo
deste garoto.
Recentemente no programa Provocações, ao ser entrevistado por Antonio
Abujamra, tive o prazer de ver nosso artista catarinense emitir suas
opiniões e defender suas idéias.
Essa gente, de quem falei hoje tem mesmo em comum é uma coisa chamada
ARTE.
(19 de abril/2008)
CooJornal
no 577
Maria de Fátima Barreto Michels,
escritora e fotógrafa
Laguna, SC
fbarreto@bizz.com.br
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