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14/09/2012
Ano 16 - Número 804
ARQUIVO
FLÁVIO BARRETO

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Pode parecer estranho, mas,
algumas multas de trânsito têm histórias bem diferentes das demais.
Sábado, sete horas da manhã estou indo para praia e desatento, invadi a faixa
branca numa determinada avenida da cidade. Considerando inexistir filmadora,
tentei retroagir antes que um guarda notasse. Tarde demais, um deles estava
chegando estacionou sua moto e veio na minha direção com seu fatídico talão de
multas.
Saltei do carro e tentei explicar que não conseguira retroceder porque o carro
de traz estava colado no meu e o guarda disse que isto seria pior ainda, pediu
minha habilitação e documentos do veiculo e mandou encostar mais ao lado.
Descobrimos ambos neste instante que o seguro havia vencido dois dias antes o
que era razão para nem poder transitar até porque impossível pagar no sábado.
Neste impasse o guarda resolveu apesar de estar eu num carro novo, olhar
sinaleiras e até o cano de descarga. Parecia pretender aplicar a máxima multa,
evidenciando aos meus parcos conhecimentos de psicólogo, algum problema
pessoal, parecia irritado, nervoso e comecei a tentar conversar sobre as
dificuldades da vida, mas ele continuava insensível.
Acho que tenho sorte. Enquanto ele estava abaixado olhando o carro por baixo,
procurando não sei o que e pedindo para abrir o porta-malas, surgiu uma
mulher, aparentemente da mesma idade do guarda, uns trinta anos, de mãos com
uma menina de uns dez anos e correram na direção dele gritando, Ranério, meu
querido onde você anda homem? Ao mesmo tempo a menina quase chorando, dizia,
pai, a gente pensou que tinha acontecido alguma coisa.
Resumindo fiquei sabendo ali que o tal guarda, andava sumido de casa por
vários dias e a corporação na qual servia, não sabia ou não queria informar
onde ele estivera. Constrangido o guarda devolveu meus documentos, pediu
desculpas, pediu à mulher que o esperasse e me dispensou. Na incerteza sobre o
destino que daria as anotações que ele já fizera, entreguei a ela um cartão
meu como advogado e disse: senhora cuide bem dele, mas se precisar de um
advogado pode me ligar, não lhe custará nada.
Em aproximados trinta dias recebi o aviso de uma multa bem elevada e intrigado
fui ao setor próprio e perguntei de onde o guarda havia tirado aqueles
absurdos, inclusive porque eu não havia assinado o termo de multa. A
funcionária atendente sorriu e disse, vou chamar o encarregado que por acaso é
o mesmo guarda que assinou esta multa, mas não diga nada que eu lhe disse.
Atendendo-me o guarda pareceu surpreso, pediu desculpas e disse que anularia
tudo, porque mantivera a multa tão somente para punir a esposa, quando ela
dissera que ele não deveria por estar com raiva dela, descarregar no doutor e
exatamente por isto ele aplicou a multa. Acontece que em seguida o serviço
médico da policia o havia afastado das ruas porque ele andava muito nervoso e
no serviço externo isto é problema sério, lotando-o para sorte minha
exatamente no setor de análise de multas. Moral da história: guarda demente,
multa inexistente.
(14 de setembro/2012)
CooJornal nº 804
Flávio Goulart Barreto -
Economista e advogado.
Mora e atua como consultor jurídico em
Florianópolis, onde colabora com artigos em jornais.
É membro da
Sociedade dos Poetas Advogados de Santa Catarina, entidade ligada à
OAB/SC. Escreve com o Carrossel das Letras, grupo de escritores do qual
faz parte.
http://carrossellaguna.blogspot.com.
flavio@martinsbarreto.com.br
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