30/04/2011
Ano 14 - Número 733


 

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"Amigo da Cultura"




 

Flávio Goulart Barreto



Andando nos trilhos



 

Flávio Goulart Barreto, colunista - CooJornal

Como sabido, os trilhos de estrada de ferro repousam sobre dormentes, toras de madeira de aproximados dois metros de comprimento, colocadas uma em sequência à outra, com intervalos de aproximados trinta centímetros.

O pai sabia de cor os espaços e até aqueles locais onde o dormente tinha algum defeito ou já estava estragado, e ele sabia que ali não poderia pisar. Assim, caminhava nas noites muito escuras sem qualquer iluminação. Embora ele às vezes levasse uma lanterna, em algumas outras seguia na completa escuridão, conforme contava. Na distância entre Vila Nova e Imbituba, existiam em torno de 8.000 dormentes sobre os quais caminhava para ir trabalhar, ao final do dia, já anoitecendo, porque o emprego era no período noturno.

O mesmo trajeto a pé muitas vezes era feito pelo menino e o irmão ou na companhia dos primos ou algum outro parente, mas divertido era ir só ele e o irmão, quase sempre ele motivando a desobediência às regras.

Quando queriam visitar os primos ou a avó, a mãe os deixava ir de trem, porém com orçamento sempre muito restrito, não podiam amiúde gastar com passagens. Às vezes, mesmo sem dinheiro embarcavam, contando com a sorte e a boa vontade de um guarda-trem, o homem que cobrava a apresentação dos bilhetes, que fingia não os ver, quando percebia que não tinham comprado a passagem. Este procedimento era totalmente reprovado pelos pais, mas já estavam na puberdade e sentiam forte vontade de infringir as regras.

Não pagar as passagens e saltar do trem ainda em movimento quando chegavam a Imbituba, por exemplo, era muito excitante. Certa feita, o irmão caiu e rolou para muito perto do trilho e ali o menino teve um dos maiores sustos da sua vida, mas felizmente nada de mal aconteceu.

No retorno para Vila Nova, nunca saltavam em movimento. Duas eram as razões: primeiro, que os trilhos ficavam um pouco mais elevados do piso de desembarque, pois ali não havia exatamente uma estação com plataforma, mas uma pequena construção para compra de passagens e o segundo motivo é que, além do risco da queda, levariam bons tapas de sua mãe, que muitas vezes os esperava e proibia tal procedimento.

Era exuberante a paisagem, de um lado as praias de Vila Nova e Imbituba e do outro os pequenos elevados dos morros, tudo coberto de um verde típico da Serra do Mar, com pouquíssimas residências.

No caminho dos trilhos havia o Maracangalha, onde algumas prostitutas residiam em casebres à direita de quem ia para Imbituba, quase à beira do mar. O local era frequentado por marinheiros embarcados nos navios que atracavam no porto de Imbituba para buscar carvão, trazido das minas de Criciúma. Exatamente por aquela estrada de ferro, na qual andava o menino, cuja curiosidade de conhecer aquele lugar proibido foi substituída, aos poucos, pelo encantamento em outras estações.

Já em Laguna, entre 1958 e 1963, muitas vezes ele viajou de Laguna para Imbituba, nessa fase de sua vida, sempre embarcado no trem que corria pelos mesmos já conhecidos trilhos da ferrovia Dona Tereza Cristina.

Agora a grande aventura era a parada de Barbacena, cujo objetivo principal era ver uma linda menina loira de cabelos quase crespos, sempre na janela ou na frente da casa pintada de branco, ao lado da estação.

Era a filha do chefe da estação local. O menino que eu era nunca conseguiu passar por Barbacena sem ficar ansioso, junto à janela, para vê-la. Diferentemente da obra de Umberto Eco, lembrarei para sempre o "nome da rosa"...


(30 de abril/2011)
CooJornal no 733


Flávio Goulart Barreto - Economista e advogado. Mora e atua como consultor jurídico em Florianópolis, onde colabora com artigos em jornais. É membro da Sociedade dos Poetas Advogados de Santa Catarina, entidade ligada à OAB/SC. Escreve com o Carrossel das Letras, grupo de escritores do qual faz parte. http://carrossellaguna.blogspot.com.

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