14/05/2011
Ano 14 - Número 735


 

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"Amigo da Cultura"




ARQUIVO
FLÁVIO BARRETO

 

Flávio Goulart Barreto



UMA JANELA, UMA MULHER



 

Flávio Goulart Barreto, colunista - CooJornal

Um dia destes, dez horas da noite enquanto lia pela segunda vez A Insustentável Leveza do Ser de Milan Kundera, que em alguns momentos desperta um certo enfaro, mas atrai pelo filosófico e psicológico em que a história se desenrola, dei uma parada na leitura e fui à janela de meu quarto num apartamento no décimo andar no centro de Florianópolis.

Olhava a esmo sem direção certa quando observei através da vidraça de uma janela num prédio um pouco a esquerda do meu no outro lado da rua, no sétimo andar, sobre uma cama uma mulher semi recostada, não exatamente deitada. Não sou exatamente um personagem de Janela Indiscreta do Hitchcock, mas não faço muito esforço para controlar a curiosidade nestas situações.

Numa breve experiência como professor eu dizia aos meus alunos que se desejamos a atenção devemos ser magnéticos como o são os dois grandes elementos, a água ou o fogo em grandes volumes. Nunca disse aos discípulos, mas uma mulher com poucas vestes, apenas calcinha e sutiã como era o caso, também é um elemento de grande magnetismo e eu diria que é o terceiro grande elemento.
Não apaguei a luz de meu quarto embora tenha pensado nisto para não chamar a atenção da bela, por duas razões, primeiro porque ia sentir-me como fazendo algo escondido e segundo porque preferia que ela me notasse e houvesse uma cumplicidade.

Ela segurava nas mãos o controle de TV e "clicava" insistente aparentemente buscando outro e mais outro canal o que significava ansiedade ou insatisfação. No meu pouco conhecimento psicológico imagino que quem está tranquilo, conformar-se com uma segunda ou terceira opção do que esteja passando na TV. Sendo um hotel de razoável luxo é provável que estivesse ligado a muitos canais, não apenas aos comuns e abertos. A dama estava ansiosa com certeza. Depois de várias tentativas aparentemente encontrou o que desejava e voltou sua atenção para um saco de pipoca ou algum outro petisco.

Passados uns dez a quinze minutos sem novidades ou movimentos mais interessantes, voltei ao meu Kundera que na citada obra, desloca a dualidade do peso e da leveza para uma perspectiva existencial, mesclando-a ao problema da liberdade humana em uma perspectiva próxima à problemática do existencialismo. Pura filosofia com um viés psicológico e com certeza menos interessante do que tentar descobrir o que queria ou faria a dama. Voltei a minha janela e a dela agora estava aberta para entrada de algum frescor. Talvez ela não desejasse ligar o ar condicionado ou teria percebido, embora não tivesse me dirigido o olhar, que um curioso a admirava.

Saí da janela, voltei ao Kundera cujas referências a autores da tradição filosófica como Nietzsche e Parmênides situam o enredo do romance dentro de uma perspectiva existencial, submete as situações a uma análise filosófica, a uma reflexão especulativa. Confesso minha curiosidade pela fêmea podia ser enquadrada no filosófico, mas, por favor, não me empurrem para o psicológico achando que sou apenas um praticante do voyeurismo, eu gosto mesmo é de encontros pessoais ao vivo e a cores.

Devem estar curiosos para que chegue logo ao final da minha história, mas calma eu chego lá.

Retornei a janela e como de onde estava eu via apenas do pescoço para baixo até a altura dos tornozelos, embora seja mesmo este o "pedaço" que interessa, mudei de janela e consegui ver-lhe o rosto e os cabelos negros e longos amarrados para traz. O que o corpo revelara apesar da distância, algo em torno de 40 metros, o rosto confirmava, era uma mulher com idade entre 30 e 40 anos, portanto no auge da beleza como diria Balzac.

Diante da movimentação dela na cama, virando-se para um lado ou outro, passando as mãos nas pernas ou ajeitando nos seios o sutiã, alguns homens não teriam conseguido voltar a ler. Eu voltei por quase longos cinco minutos, mas Kundera estava cada vez menos interessante e eu imaginando que o ato seguinte seria ela apagar a luz e tentar dormir porque então já era mais de vinte e três horas e ela continuava inquieta, resolvi telefonar-lhe.

Telefonei para a portaria do hotel, perguntei se minha sobrinha que estava hospedada no quarto 701 ainda estava acordada que eu precisava falar com ela. A telefonista do hotel, incauta, pergunta se é Clarice o nome dela porque a única mulher no sétimo andar tem este nome e não está no 701 está no 707. Sim, falei meio nervoso, é esta mesmo, o celular dela está desligado, veja se ainda esta acordada e passe-lhe a ligação.

Aguarde um momento senhor, como é seu nome? Moça ela sabe quem sou está esperando minha ligação, menti. Ouvi aquele barulho peculiar de linha sendo transferida e logo após uma voz feminina grave e sensual: alô, quem está falando. Amarelei e desliguei. Continuei observando-a e interessante, parece que eu a assustara ou no mínimo a tornara curiosa, porque pegou o telefone e discou não sei para onde, falou, desligou. Caminhava pelo quarto, vinha na janela olhava para fora sem focar em nada objetivo. Continuei mirando e admirando. Em movimento me parecia ainda mais atraente e instigante. Seria casada? Estava a passeio ou a trabalho? A meio metro de distância continuaria interessante?

Liguei novamente e quando atendeu, logo após o seu "alô" desculpei-me: não sou seu tio, mas gostaria de conversar se você aceitar. Quem é você? O que deseja? Como me encontrou? perguntava apressada e como eu imaginei ansiosa. Calma moça, estou fazendo um doutorado em psicologia e gostaria de lhe fazer algumas perguntas que você responde se desejar. Faço a pesquisa com mulheres anônimas e aparentemente solitárias que encontro via telefone em hotéis, para saber o que pensam sobre determinados aspectos psicológicos ou filosóficos, menti.

De minha janela eu falava ao mesmo tempo em que a observava, e isto me pareceu covardia mas era um exercício muito interessante. Ela falou então que embora eu estivesse dizendo o que queria, continuava um anônimo. Fiz que não ouvi e perguntei: você está só por opção ou viaja por obrigação profissional e não pode vir acompanhada? Respondeu: Meu caro senhor eu não estou viajando, moro aqui em Florianópolis, apenas resolvi dormir fora de casa por razões que certamente não interessam à sua pesquisa se é que é verdade o que você está dizendo e vou desligar se o senhor não se identificar imediatamente ou dizer-me seu telefone e eu lhe ligo.

Está bem minha senhora se você não confia numa pesquisa acadêmica ou prefere identificar-se encerramos por aqui nossa conversa, meu estudo é sério embora ciente das dificuldades de realizá-lo. Calma senhor, estou disposta a conversar pessoalmente, se você ligou para o hotel sabe onde estou, venha até aqui e conversaremos na portaria. Concordei, atravessei a rua e dei sequência a meu "estudo" retornando para casa exausto as quatro horas da madrugada.


(14 de maio/2011)
CooJornal no 735


Flávio Goulart Barreto - Economista e advogado. Mora e atua como consultor jurídico em Florianópolis, onde colabora com artigos em jornais. É membro da Sociedade dos Poetas Advogados de Santa Catarina, entidade ligada à OAB/SC. Escreve com o Carrossel das Letras, grupo de escritores do qual faz parte. http://carrossellaguna.blogspot.com.
flavio@martinsbarreto.com.br

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