01/05/2016
Ano 19 - Número 982


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FLÁVIO BARRETO

Flávio Barreto


Liberdade? Quem é livre?

Com certa habitualidade, muito cedo quando saio para trabalhar, passo numa padaria, compro alguns pães e aproximo-me de um grupo de cinco ou seis mendigos, alguns usuários de crack que dormem na rua e lhes faço a doação.

Trágico talvez, mas não menos interessante foi o que ocorreu alguns dias antes da última eleição, quando levei os pães e uma garrafa de suco de laranja para lhes fazer a entrega. Alguns ainda meio atordoados pela droga, outros pelo efeito de bebidas alcoólicas nem agradeceram, mas um deles parecendo querer ser grato disse-me "doutor, o senhor é candidato? Nós gostaríamos de votar no senhor".

Percebendo que era um homem inteligente, como boa dicção apesar de parecer um farrapo de roupas e de cidadania, brinquei com ele dizendo que não era candidato a nada, mas que tinha certeza que nenhum deles devia ter titulo de eleitor, e se algum dia teve, certamente não deve saber onde está.

Os outros foram acordando e começaram a participar da "conversa" e depois de uns cinco minutos já tínhamos concluído que apenas dois possuíam algum documento, enquanto outros quatro não tinham qualquer identificação e aparentemente, nem mesmo queriam identificar-se.

Apesar de me sentir plantando no deserto, perguntei porque não levantar e tentar voltar à vida normal, tratando-se contra os vícios e retornando à família que certamente teriam. Dois deles continuaram a conversa, um dizendo que uma grande desilusão com a ex-esposa e até com um irmão, resolvera sair do interior do Paraná e vir para uma cidade mais moderna para mudar de vida, mas como ele mesmo percebia tinha mudado para muito pior. Continuava pensando em levantar, mas não tinha ânimo nem coragem.

O outro fez um comentário com razoável grau de filosofia, embora com linguagem simples que se pode traduzir da seguinte forma. Disse que ele era um cidadão efetivamente livre, tinha a liberdade que nenhum outro cidadão comum tem.

Perguntei como aquela personagem presumidamente ignorante de um programa de humor: como assim ???

Ao que ele respondeu: o senhor aí bonito de terno e gravata, com dinheiro para suas compras é um escravo total. Escravo do seu patrão e se não tiver patrão escravo de sua própria empresa, com impostos para pagar, prazos para cumprir e empregados para pagar em dia. E mais disse ele, se não for da empresa e for casado é escravo da mulher porque tem que chegar em casa na hora certa e se chegar tarde tem que explicar onde esteve. Se não tiver mulher e morar sozinho é escravo de filho ou das suas relações, porque o senhor não pode, agora que já é conhecido, chegar vestido como eu numa padaria ou num supermercado, porque vão falar que o doutor ou o professor está mal de grana ou está louco. E riu com satisfação.

Mas a policia não te expulsa daqui, não te prende?
Não, respondeu. Antes eles até prendiam, mas eu não sou criminoso, sou vítima, não estou roubando nem matando e nem tem lugar na cadeia para tanta gente.

E o serviço social não te ajuda a sair desta?

Não. Dizem que não tem verba e não fazem um tratamento bom e acabam só exigindo, banho, disciplina. E onde fica minha liberdade? Aqui onde estou nem os outros mendigos me incomodam. Eu sou livre, disse convicto.

Claro que a filosofia do mendigo pode ser falaciosa, apenas uma desculpa por se achar naquela situação. A mente dele pode ter criado um argumento para não se sentir rebaixado. Com certeza se todos fossem como ele estaríamos paralisados no tempo. Sabemos que ele não é totalmente livre como pensa, mas, juro que saí dali pensativo e com piedade, mas quase convencido que sou mesmo um escravo.


 Comentários sobre o texto podem ser enviados, diretamente, a flavio@martinsbarreto.com.br

Texto publicado anteriormente no CooJornal em 20/05/2011.

(1º de maio/2016)
CooJornal nº 982


Flávio Barreto - Economista e advogado.
Mora e atua como consultor jurídico em Florianópolis, onde colabora com artigos em jornais.
É membro da Sociedade dos Poetas Advogados de Santa Catarina, entidade ligada à OAB/SC.



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