01/07/2011
Ano 14 - Número 742


 

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ARQUIVO
FLÁVIO BARRETO

 

Flávio Goulart Barreto



CAMINHOS PARA O DIVÓRCIO


 

Flávio Goulart Barreto, colunista - CooJornal

O envelope dizia apenas: Lecio, Av. Sto Amaro, 200 – São Paulo – SP e o CEP estava rasurado, mas a esposa Márcia não teve dúvidas em recebê-lo, afinal seu marido, o advogado Lecio de Paula Mendes e Silva, embora não tivesse o hábito de dar o endereço de casa para correspondências, poderia ter feito alguma exceção e isto a deixou muito curiosa, pois o Dr. Lecio era cheio de segredos e cuidados.

O advogado tinha viajado para o Rio de Janeiro, só voltaria no final de semana e Márcia não se conteve e resolveu abrir a correspondência que não tinha remetente. Acabou encontrando o que não queria. Na pequena carta, quase um bilhete estava escrito apenas: Querido Lecio: A menina já está com quase oito meses e você até agora mandou menos de R$ 300,00. Você prometeu que ia assumir e sustentaria a criança. Não quero que você tenha problema em família, mas como não consigo falar por telefone, tive que escrever para sua casa, porque nem o endereço do seu trabalho eu tenho. Por favor mande pelo menos mais uns R$ 1.000,00 ou então mande todo mês um pouco. Estou com saudades, você sabe onde estou, venha ver-me. Beijos. Maysa

Márcia quase desmaiou, afinal sempre soube que o marido não era “santo” e sua mãe sempre dizia que “homem não presta” mas daí a imaginar que o advogado tivesse uma filha com outra mulher, a deixara totalmente arrasada. E ai vem toda uma luta interior terrível, uma insegurança, porque como aprendera, deve-se desconfiar dos homens. E o que diria para filha do casal, uma adolescente com treze anos? Como abordaria o assunto com Lecio? Vou esperar, pensou, e foi dormir.

Enquanto isto no Rio de Janeiro, o Dr. Lecio jantava com uma colega com quem estava tratando de um processo e a conversa girava exatamente sobre o casamento do advogado. Dizia a Dra. Raquel, advogada, bonita e inteligente:

– Lecio, se você diz que seu casamento está difícil, que sua mulher é relaxada, inculta e que nunca quis estudar apesar de sua insistência, porque você não se separa?

– Minha cara Raquel, não é tão simples assim, estou casado há quinze anos, tenho uma filha de treze anos que eu adoro, meus parentes e amigos não entenderiam e a menina muito menos.

– Converse com Marta, Lecio; eu o vejo regredindo na profissão, você está constantemente irritado, jamais imaginei que o primeiro aluno da classe, um homem inteligente e brilhante como você, chegasse na situação que está, quase derrotado por um casamento errado. – e em tom de brincadeira – se tivesse casado comigo, certamente já estaríamos ricos e felizes.

– Ah Raquel, não volte ao passado, você sabe que eu gostava da Marta e na época não consegui ver seus defeitos.

Após a janta, cada um pegou seu carro e foi embora, ele para o hotel que estava hospedado e ela para sua casa no Leblon. Lecio não dormiu tranqüilo naquela noite, afinal tinha mesmo vontade de pedir o divórcio e até já tinha feito umas tímidas tentativas de encontrar outro amor, mas não tinha tido coragem sequer de falar claramente com Marta. As insinuações de Raquel o deixaram pensativo.

Terminado o trabalho no Rio, o Dr. Lecio deixou alguns documentos com Raquel e voltou para São Paulo, pensando seriamente em conversar com Marta, afinal ela vivera todos estes anos com ele, merecia consideração, mas Raquel tinha razão, aquela vida ruim estava atrapalhando sua carreira e até fazendo Marta sofrer.
Ligou para casa, avisou para a filha que estava voltando e chegou ás dez horas da noite, encontrando apenas a menina que lhe disse que a mãe fora a um bairro vizinho visitar a avó. Não era normal este comportamento, mas Ledio desconsiderou esta análise e foi dormir.

No dia seguinte um sábado, às nove horas da manhã, Marta chegou em casa e foi dizendo desde a porta, brandindo uma carta na mão :

– Lecio, precisamos conversar, mas acho que não vai adiantar muito, você tem uma filha com outra mulher e talvez estivesse com a vagabunda e não no Rio de Janeiro a trabalho.

– Você está louca Marta, que história e esta de filha, eu só tenho uma filha, esta que temos, você andou na casa de sua mãe e já deve ter sido “envenenada” por aquela cobra.

– Então o que é isto aqui ? Esta carta também foi a minha mãe que inventou ? – e atirou a carta de Maysa sobre a mesa.

O advogado obviamente ficou surpreso, mas não totalmente, pois embora não fosse um mulherengo, não vivesse de aventuras, de fato não era o marido perfeito, mas daí a ter uma filha com alguém que estivesse mandando cartas parecia exagero. Não, isto não tinha acontecido, algo estava errado. Resolveu pegar a carta e leu. De fato estava endereçada para a casa dele, com o nome dele, embora como advogado, atento e cauteloso, tivesse ficado meio “grilado” com a rasura no CEP. Mas, o correio é uma instituição séria, ele não era mulherengo, aliás, muito raramente traíra a mulher, mas já dera seus escorregões. Necessitava refletir.

– Marta, vamos com calma, algo está errado, eu não tenho nenhuma outra filha e o mais importante nunca conheci ninguém chamada Maysa.

– É como a minha mãe disse, vocês sempre negam tudo e essa “piranha” quando não colocou o nome no local destinado ao remetente, sabia o que estava fazendo e claro que na carta também não colocaria o nome certo dela. Maysa, deve ser um nome de guerra, que toda puta usa, mas você deve muito bem saber o seu nome.

O advogado ficou pensativo, apesar de ter certeza que nunca se envolvera com qualquer outra mulher além da esposa, sabe lá se numa noite de festa com os amigos, numa esticada, tivesse dado alguma “zebra”. E tal promessa de mandar dinheiro para a menina? Que história maluca!

– Marta, está bem, eu tenho certeza que não tenho nenhuma filha fora de casa, mas vamos ver, quero descobrir que carta é esta, vou pesquisar, isto não vai ficar assim.

Naquele final de semana, o clima no apartamento do advogado foi lastimável e ele na segunda-feira voltou ao trabalho disposto a livrar-se daquele problema tão sério. Ligou para sua grande amiga Raquel no Rio e recebeu dela alfinetadas e gracejos:

– Lecio, você tem algumas opções, admitir a existência da filha nova, providenciar o divórcio enquanto você ainda não é rico, mandar o dinheiro para a tal Maysa, embora você diga que não sabe quem é nem endereço, trate de descobrir, e depois de divorciado, vem para o Rio e casa comigo, mas fora das brincadeiras, não sei o que lhe sugerir.

Lecio, captou a brincadeira como uma boa idéia, insistiu com Marta que realmente não sabia quem era Maysa, e que não tinha nenhuma filha, mas se ela quisesse mesmo assim o divórcio, fariam isto, ela teria uma pensão e eles aguardariam até a filha fazer quatorze anos e ver com quem ela queria ficar, para decidirem a continuidade de estudos e educação da mocinha.

Marta, insuflada pela mãe, achando que a pensão seria interessante, aceitou a proposta do divórcio. Fizeram isto dois meses depois, quando a filha do casal completou quatorze anos e decidiu que moraria com o pai na casa da avó paterna, no Rio, ficando Marta com o apartamento em São Paulo. Nas férias de julho e dezembro a filha ficaria com Marta.

Tudo pouco claro quanto as histórias de Maysa, que não escreveu outras cartas neste período, o advogado resolveu trabalhar ainda até o final do semestre em São Paulo, quando venderia sua parte no escritório e se associaria a Raquel no Rio de Janeiro, e enquanto isto, morava num hotel e encerrava ou transferia alguns processos que possuía em andamento.

Quando faltavam uns quinze dias para ir embora definitivamente, com tudo certo no Rio de Janeiro, inclusive a transferência de escola da filha, um dos advogados do escritório, pediu a Lecio que atendesse em seu lugar um caso de direito de família, porque naquela manhã, surgira uma audiência antes imprevista.

– Mande entrar o cliente, disse o Dr. Lecio pelo interfone a recepcionista.

Assim que o cliente entrou o advogado falou: – Bom dia, sente-se, vou pedir um café para nós e o senhor vai contar-me o que o aflige, para buscarmos uma solução.

– Dr. Lecio, eu vim tratar de uma investigação de paternidade, embora eu já saiba que sou o pai, o que me preocupa é como administrar isto da maneira mais barata, sem interferir muito na minha vida, pois este filho é de um “caso” que tenho fora do meu casamento, onde já tenho outros três filhos.

– Sem problemas, vamos aos detalhes, deixe-me preencher um ficha com os dados básicos que serão tratados, num processo ou orientação que lhe darei. Seu endereço ?

– Rua Santo Amaro, n. 200, aqui em São Paulo.

– O nome da moça que teve o filho ?

– Não doutor. Não é filho é filha.

– Tudo bem eu quero saber o nome da mãe da criança.

– Maysa Simões Ranerte com “y”.

– O senhor identificou-se na recepção como Alécio, o seu nome completo?

– Meu nome é Alécio Mendes, mas no meu prédio todo mundo me conhece como Lecio, inclusive a Maysa me chama assim.

– Sr. Alécio, lamentavelmente não vou poder cuidar do seu processo, mas seu nome, o nome da moça e seu endereço acabam de dar-me uma grande satisfação e vou pedir ao colega para tratar de graça, do seu caso.

Claro que o Sr. Alécio não entendeu nada, mas gostou da idéia.

Muito mais gostou de tudo o Dr. Lecio. Agora todos os enigmas estavam resolvidos, ele divorciado sem culpas e com a alma lavada.

O correio criou um problema e dentro dele trouxe uma solução.
 

(01 de julho/2011)
CooJornal no 742


Flávio Goulart Barreto - Economista e advogado. Mora e atua como consultor jurídico em Florianópolis, onde colabora com artigos em jornais. É membro da Sociedade dos Poetas Advogados de Santa Catarina, entidade ligada à OAB/SC. Escreve com o Carrossel das Letras, grupo de escritores do qual faz parte. http://carrossellaguna.blogspot.com.
flavio@martinsbarreto.com.br

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