23/09/2011
Ano 14 - Número 754


 

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"Amigo da Cultura"




ARQUIVO
FLÁVIO BARRETO

 

Flávio Goulart Barreto



Surpresas da saudade e o onze de setembro


 

Flávio Goulart Barreto, colunista - CooJornal

Há dez anos não via Jocasta. Desde nossa formatura em meados de 2001 ela sumira e nunca mais tínhamos tido notícias. Alguns amigos diziam que poderia ter morrido anonimamente na destruição do World Trade Center, visto ter dito que depois de formada moraria em Nova Iorque.

Eis que de repente, semana passada, entrando num supermercado da cidade, vem ao meu encontro aquela beleza de mulher, então com quase quarenta anos, me abraça emocionada evidenciando grande saudade. Foi realmente interessante receber um carinho tão forte de alguém que tinha sido colega apenas em algumas disciplinas, tendo eu à época mais de cinquenta anos e ela menos de trinta, inclusive porque não me pareceu um abraço de uma apenas ex-colega de aula.

Daí para o convite de um café ou uma janta, foram dois passos, talvez menos, porque continuávamos nos olhando com muito afeto, eu, ainda meio sem graça pelo "tanto" dela. Naquela mesma noite jantamos e conversamos até mais de meia noite num restaurante muito aconchegante e romântico em Cacupé, praia da maravilhosa ilha de Santa Catarina.

Levei-a para casa e no caminho descobri que estava muito bem financeiramente. Tinha trabalhado por oito anos na Coréia do Sul, assessorando empresa brasileira que atua com construções naquele país e que graças ao seu talento e competência, inclusive para fazer amigos tinha conseguido amealhar um razoável patrimônio financeiro. Sua casa em Jurerê Internacional, não era nada de espetacular, mas com certeza muito boa. Convidou-me para entrar, mas recusei, alegando necessidade de dormir cedo porque viajaria no dia seguinte.

Na verdade não estava entendendo tão surpreendente interesse daquela aparentemente próspera advogada, inclusive porque no momento em que nos dirigíamos ao restaurante eu tinha levantado num recanto do meu cérebro uma desconfiança com suas intenções. Poderia estar desempregada, necessitada e eu poderia ser uma ponte para seu retorno ao trabalho no Brasil. Mas o que vi apagou aquela minha primeira impressão.

Fugi de seus dois telefonemas seguintes, mas uma semana depois acabei cedendo a um novo convite, voltamos ao mesmo restaurante e desta feita, uma sexta feira não havia desculpas para chegar cedo em casa, ficamos até mais tarde e acabei concordando em dormir na casa de Jocasta que me contou outros detalhes de suas viagens e seu sucesso.

De fato tinha ido para Nova Iorque em agosto, mas dia seis de setembro de 2001, tinha encontrado um brasileiro, que então ciente de seu pleno domínio do inglês e com certa facilidade de entender o francês, convidara para ir para a Coréia. Convite feito convite aceito e lá foi minha amiga trabalhar no oriente e vai por ai afora. Sugeri cansaço, chegava o sono, o efeito da bebida, atração recíproca, o resultado é cama, ou sofá, sei lá.

Nos momentos mais quentes, não do calor das cobertas é claro, no quase ápice ela dizia baixinho, "que gostoso, que gostoso, Barret", o que quase me fez "parar tudo", mas foi só por uma fração de segundo, continuei e chegamos lá com pleno sucesso. Desde a largada, apesar desta quase parada no box foi corrida de sucesso total e fomos ambos para o podium. Não me contive e perguntei: por que Barret se você nunca me chamou desta forma. Veio a explicação de tudo: Barret era um americano rico com quem ela viveu na Coréia, parecidíssimo comigo, contou minha amiga. Calei.

Decepcionado? Perguntou ela. Não, muito pelo contrário, você está ótima, falei mudando de assunto.
 

(23 de setembro/2011)
CooJornal no 754


Flávio Goulart Barreto - Economista e advogado. Mora e atua como consultor jurídico em Florianópolis, onde colabora com artigos em jornais. É membro da Sociedade dos Poetas Advogados de Santa Catarina, entidade ligada à OAB/SC. Escreve com o Carrossel das Letras, grupo de escritores do qual faz parte. http://carrossellaguna.blogspot.com.
flavio@martinsbarreto.com.br

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